Por dentro da nova Telescola: antiga aluna da FLUL dá aulas de Educação Artística pela televisão

Com mais de vinte aulas leccionadas na nova Telescola, a antiga aluna da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Joana Maria Ramos conta, em entrevista, como foi convidada para fazer parte deste projecto e como decorrem as aulas transmitidas pela RTP.

Autora do projecto Contariar e licenciada em Estudos Artísticos pela FLUL em 2013, a alumna Joana Maria Ramos explica que o #EstudoEmCasa "não é nada fácil, mas é uma experiência única". Até porque nada substitui o contacto presencial com os alunos.

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DREI, Núcleo de Alumni e Mecenato)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoComo surgiu o convite para dar aulas no #EstudoEmCasa

Joana Maria Ramos (JMR): Os convites foram feitos directamente a algumas escolas. A escola onde sou professora, Colégio Atlântico (Seixal), foi convidada e aos seus professores foi pedido que leccionassem todas as disciplinas de 2.º ciclo e Educação Artística, do 1.º ao 9.º anos. O projeto surgiu, assim, como um pedido da Direcção da minha escola, ao qual acedi, com gosto e motivação. Fiquei apreensiva e receosa com alguns fatores, como o desconhecido (como seria este novo formato da Telescola?), a aceitação do público e a crítica social (até por parte de alguns colegas de teatro e da classe docente), o excesso de trabalho (porque mantemos as aulas com os nossos alunos das nossas escolas, com trabalhos, desafios, aulas síncronas - no meu caso, 4 turmas, num total de cerca de 120 alunos -), a falta de tempo para a família e até para mim.

pequeno Já está a gravar desde Abril. Existiram ensaios de posicionamento frente à câmara antes do início das gravações?

JMR: Não houve qualquer tipo de treino ou ensaio! Devido à minha área (representação), tinha alguma noção de como se faziam gravações em televisão, mas estive sempre mais ligada ao teatro, o que não é bem a mesma coisa. No primeiro dia de gravações, a realizadora fez-nos um pequeno briefing e foi só. De cada vez que íamos à RTP, tentávamos gravar duas aulas, o que obrigava a ter sempre duas aulas preparadas para cada dia de gravação (materiais validados previamente pela Direcção Geral de Educação, tais como guiões, roteiros, vídeos e PowerPoints), gerir o tempo (30 minutos), ter atenção às câmaras, já que não há lugar a pós-produção, cortes ou edições de vídeo. O essencial era tentar ser o mais natural possível, com simpatia, empatia e verdade, sem "teatros" e máscaras, como se de uma aula presencial se tratasse.

pequeno Até porque dar aulas de Educação Artística sem ter os alunos na sala deverá ter sido mais um desafio.

JMR: Como se dá Teatro pela televisão? O desafio de tornar algo que é, por natureza, uma experiência coletiva e de grupo num registo individual e à distância parecia quase impossível. E, na verdade, não é nada fácil, mas é uma experiência única. Na minha escola, sou professora de Teatro (o meu colégio criou o PTT, uma parceria entre Português e Teatro, que faz todo o sentido), pelo que no #EstudoEmCasa lecciono Oficina de Escrita de 2.º ciclo (com a minha colega Marta Almeida, professora de Português) e Educação Artística (com uma equipa de professores de quatro áreas artísticas: as Artes Visuais, a Música, a Dança e o Teatro). As gravações já estão a terminar e, no meu caso, só me resta gravar uma aula de Oficina de Escrita que, no total, teve nove aulas (era transmitida uma vez por semana, à sexta-feira de manhã). Quanto a Educação Artística teve 19 aulas (transmitidas duas vezes por semana, à terça e quainta-feira de manhã), repartidas pelas quatro áreas artísticas, normalmente duas áreas por aula (ou seja, cerca de 15 minutos semanais para cada área).

  

pequeno A Direcção-Geral de Educação faz um acompanhamento de perto do #EstudoEmCasa. Teve que haver um processo de habituação a esta nova dinâmica lectiva?

JMR: Tenho de admitir que o processo foi muito difícil! Todos os professores que participaram no #EstudoEmCasa dão aulas há anos nas suas respectivas áreas e, muitas vezes, sentimo-nos postos à prova. Fazíamos cerca de duas aulas por semana (quatro, no meu caso, dado que participei em duas áreas, Oficina de Escrita e Educação Artística) de raíz: pensávamos no tema de cada aula, elaborávamos um guião/ roteiro da mesma, bem como os materiais a levar para a gravação (vídeos, PowerPoints, áudios, etc.) e uma ficha/ enunciado, a ser disponibilizada na internet para pais e professores. Desenhávamos cada aula de acordo com as orientações da Direcção-Geral de Educação, que ia aceitando ou reprovando as nossas ideias, dando sugestões de melhorias ou caminhos alternativos. Muitas vezes, os emails eram um "pingue-pongue" que demorava dias. Só depois deste caminho a aula era validada e podia ser gravada. Para quem está habituado a dar imensas aulas por dia - e por semana! - na sua escola, é algo estranho preparar as aulas do #EstudoEmCasa, pois, como disse, é um processo muito demorado, em que tem de se justificar cada vírgula, cada palavra, cada opção. Muitas vezes sentimo-nos como se não soubéssemos dar aulas, inseguros e exaustos. Além deste projeto, tínhamos ainda a nossa escola, os nossos alunos, as nossas casas e a nossa família. Foi um enorme desafio!

pequeno Um desafio que foi reconhecido por alunos e colegas.

JMR: Ao longo destes três meses, tenho recebido feedbacks muito positivos, tanto por parte de alguns colegas, como de familiares e amigos. Recebo muitos vídeos e trabalhos dos alunos, até de alguns que não conheço (mas que enviam através da Direcção-Geral de Educação, por exemplo). Recebi também imensas mensagens de pessoas que não via há anos e que agora, ao ver-me na televisão, me mandaram palavras de apoio. É muito gratificante receber tanto carinho e apreço! Faz-nos acreditar que tudo valeu a pena e que chegámos aos alunos, que são, em abono da verdade, o verdadeiro público de todo este projeto.

pequeno Como avalia a iniciativa #EstudoEmCasa?

JMR: Parece-me uma alternativa muito válida de ensino a distância. Contudo, não é, de todo, uma solução de ensino. Dado o panorama, foi um projecto rápido de pôr em prática e que ajudou a resolver um grave problema: a ausência de aulas por parte de alguns alunos sem computador, internet ou quaisquer outros meios tecnológicos. Pessoalmente, enche-me de orgulho ter feito parte deste projeto, que fez história. Neste ano tão diferente, os problemas deram lugar às soluções e foi isto que o #EstudoEmCasa foi: a procura de tornar a educação mais acessível a todos em particular aos que, de outra forma, não conseguiriam ter acesso a aulas e a conteúdos educativos e pedagógicos. Foi sempre nesses que pensei e para quem dei o meu melhor. Cometeram-se alguns erros e havia certamente muito a melhorar, mas foram dados óptimos passos neste âmbito e o esforço de todos, professores, técnicos e produção, deve ser tido em conta. A manter-se este projecto no próximo ano lectivo, como se tem ouvido dizer, um novo formato de teleescola terá de ser repensado, um modelo que resulte melhor para todos, para os professores que participam, para os professores que utilizam os conteúdos nas suas aulas, para os alunos e outros espectadores. O processo de elaboração das aulas, gravação e conciliação com o tempo de cada um deve ser agilizado e os conteúdos trabalhados com mais tempo, e sublinho a palavra tempo, porque é um factor crucial em todo este processo. Sinto que andámos a correr sempre contra o tempo, num "sprint" desenfreado e louco para pôr em marcha cada segmento lectivo, que nos exigia muito mais do que 24 horas diárias para arquitectar. Sinto que quando o projecto começou já estávamos atrasados e começámos a elaborar aulas e planos para ontem, gravações para antes de ontem, novas aulas para antes do tempo. Julguei que essa sensação melhorasse ao longo dos meses, mas tal não aconteceu. Continuámos num ritmo galopante, mais veloz do que o desejável, sempre com prazos a cumprir, sem direito a tempo de lazer e descanso. Desejo que projetos futuros sejam favorecidos de tempo e que o bem maior sejam sempre os alunos, o nosso alvo, para quem trabalhamos, vamos continuar a trabalhar e a quem devemos o nosso melhor.