Décadas

Década de 50

A Década na FLUL

decada 50

Os anos 50 constituem um marco na história da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. D. Pedro V já havia reconhecido a importância dos estudos humanísticos no âmbito da cultura portuguesa, pelo que criou, em 1858, o Curso Superior de Letras, pondo fim a uma lacuna provinda da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra. Assim se iniciaram os estudos filológicos, filosóficos e históricos, sedimento das humanidades da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fundada em 1911.

Com a implantação da República, há um novo projecto de formação para a cidadania que passa pela criação da Universidade de Lisboa e pela sua Faculdade de Letras. A designação, objecto de polémica, honrava o ancestral Curso Superior de Letras, mas afastava a potencial tónica nas Ciências Sociais. Ao legado tradicional juntavam-se, porém, a Psicologia e a Pedagogia como áreas a explorar.

Todavia, durante um século, e apesar da multiplicidade dos seus núcleos disciplinares – as Filologias Clássica, Românica e Germânica, a História, e a Geografia –, a Faculdade de Letras funcionou, a título de empréstimo, em edifícios anexos à Academia de Ciências de Lisboa.

Finalmente, em 1958, a FLUL adquiriu instalações próprias, na Alameda da Universidade, ao Campo Grande, como parte integrante da Cidade Universitária onde, juntamente com outras faculdades, ainda funciona actualmente. Tratava-se de um projecto destinado a reflectir a monumentalidade e noção de ordem que o regime pretendia apresentar aos cidadãos. O arquitecto Porfírio Pardal Monteiro conseguiu defender a pureza das linhas no conjunto dos três edifícios então erigidos: a Faculdade de Direito, a Faculdade de Letras e a Reitoria. A decoração ficaria a cargo de Almada Negreiros cujas gravuras sobre figuras da literatura clássica e moderna, tanto portuguesa internacional, prenunciam o vasto escopo dos estudos humanísticos.

Os anos 50 são, no entanto, uma época de mudança no que respeita ao próprio ensino, como se verificou a Reforma de 1957. Assim, em vez do curso de Ciências Histórico-Filosóficas, consignado na Reforma de 1930, a História e a Filosofia ganham autonomia. Procede-se, também, à inclusão de unidades curriculares de Linguística. Além disso, promoveu o aprofundamento da História da Cultura Portuguesa, bem como da História da Filosofia em Portugal. O prolongamento do período de formação, de quatro para cinco anos permitiu um maior nível de aprofundamento das matérias em apreço. O grau de licenciado passa a ser obtido, não apenas pela aprovação em exames finais, mas com a elaboração e a defesa de teses.

Já nessa década a Faculdade de Letras de Lisboa era a Escola Superior com maior número de alunos: 2000 aquando da inauguração das novas e modernas instalações, em contraste com os 700 registados no início da década. Nos anos subsequentes verificou-se, aliás, um aumento assinalável, o que suscitou novos desafios, não só em termos do espaço físico, como dos processos de ensino e aprendizagem a aplicar de forma a garantir a melhor formação aos seus estudantes.

Nada seria possível sem o legado de nomes ilustres que fomentaram escolas de pensamento originais. Lentes como José Leite de Vasconcelos, José Maria Rodrigues, Epifânio Dias ou Adolfo Coelho no âmbito das Filologias, Consiglieri Pedroso, David Lopes e Queiroz Veloso nas áreas da História, Teófilo Braga na História da Literatura e da Cultura Portuguesas, ou Silva Teles na Geografia, entre muitos mais, souberam transmitir às gerações seguintes o entusiasmo e o empenho pela investigação séria e rigorosa, único caminho para a renovação intelectual inerentes aos estudos superiores.

A tónica na indispensável renovação intelectual levaria à criação de centros de estudo, como o de Psicologia e História da Filosofia, por Moreira de Sá, em 1950, da instalação do Centro de Estudos Históricos e Arqueológicos, em 1952, e, mais tarde, em 1958, designado apenas por Centro de Estudos Históricos. Já em 1959, o novo edifício da Faculdade recebeu o IX Congresso Internacional de Linguística Românica, cujo secretário foi Lindley Cintra.

Nesta década testemunhou-se, também, o esforço de dar a conhecer a cultura lusa. Com esse intuito, desenvolveram-se, os cursos de Língua e Cultura Portuguesa, 
lançados em 1934, destinados a estrangeiros interessados em estudar não só a língua portuguesa, como a sua História e Literatura.

A dinâmica intelectual presente na Faculdade, pelo espírito criativo e crítico que inculcava nos seus alunos, induzia à questionação das matérias em estudos e, simultaneamente, ao modo de estar no mundo. Os modos de o concretizar iam da formação do Círculo de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, que estreou com a peça O Caia de Fiama Brandão, à contestação do ambiente político vigente. Tal postura não se compaginava com o controlo ideológico visado pelo governo do Estado Novo que procura manter o controlo através de medidas redutoras da autonomia universitária. Não admira que as reacções estudantis se tornassem alvo de acções repressivas.

A Associação de Estudantes da Faculdade Letras, a primeira a surgir no seio da Universidade, viria a ser suspensa em 1950/51. Igualmente com o intuito de suster os movimentos rotulados de subversivos, o Decreto-Lei nº40 900, aprovado pelo Governo no ano de 1956, determinava que as Direcções das Associações fossem nomeadas mediante autorização ministerial, tendo sempre de ser controladas por um delegado do Director de Faculdade, encarregado também de vigiar todas as actividades realizadas por estas. Procurava-se, assim, cercear a liberdade de pensamento dos estudantes de humanidades, tentativa que o futuro viria a revelar gorada.

Reitores da Universidade de Lisboa

1946-1956: José Gabriel Pinto Coelho (Direito)
1956-1959: Victor Hugo Duarte de Lemos (Ciências)
1959-1962: Marcelo José das Neves Alves Caetano (Direito)

 

Década de 2000

A Década na FLUL

img decada 00bA viragem do milénio coincidiu com importantes mudanças na esfera académica e, mais especificamente, na Faculdade de Letras. No que respeita às suas instalações, o ano 2000 testemunha a mudança da Biblioteca da FLUL o novo edifício projectado pelo arquitecto holandês Harro Wittmer, bem como a transferência do acervo de todas as bibliotecas da Faculdade para as novas instalações.

Em termos da actividade lectiva e da investigação com o objectivo de contribuir para o desenvolvimento científico, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) subscreve, em 2001, a declaração de Bolonha. Ao fazê-lo está, obviamente a comprometer-se em levar a cabo uma série de alterações no sistema de ensino superior português. Assim, em 2006 a FLUL reformula a sua oferta lectiva de acordo com os parâmetros estabelecidos na Declaração de Bolonha, ou seja, a estrutura já existente de ensino de graduação e pós-graduação formaliza-se agora em três ciclos - licenciatura, mestrado e doutoramento. A partir daí, os seus cursos passam a estar integrados no Espaço Europeu do Ensino Superior.

Segundo o novo modelo, os cursos de 1º ciclo, as chamadas licenciaturas, passam a ter uma duração de três anos, ou mais correctamente, seis semestres, com todas as unidades curriculares semestralizadas; a cada unidade curricular é também atribuído um quantitativo de créditos (ECTS) correspondente ao cálculo do seu tempo de estudo presencial e autónomo. Cada curso de 1º ciclo deverá perfazer um total de 120 ECTS. A reestruturação de 2001 já introduzira outra inovação significativa ao criar as disciplinas de Seminário, Projecto I e Projecto II, orientadas para a participação dos estudantes em projectos de investigação.

Por seu turno, os cursos de mestrado têm prevista uma fase curricular de dois semestres (podendo prolongar-se por mais no caso dos estudantes trabalhadores) e idêntico período para elaboração de uma dissertação sob orientação de um professor da respectiva área de estudo. Dada a crescente preocupação com as saídas profissionais, verifica-se, também, a abertura em alguns cursos de mestrado a modelos alternativos, de natureza mais prática e directamente associados ao mercado de trabalho, para conclusão do curso e obtenção do grau de mestre. Surge, assim, a possibilidade de realizar estágios em entidades públicas e/ou privadas com protocolo estabelecido com a Faculdade. Os mestrandos, para além de serem avaliados pelo seu desempenho enquanto estagiários, elaboram um relatório que é avaliado por um júri de docentes da FLUL. Alguns cursos de mestrado desenvolvem, igualmente, os chamados trabalhos de projecto de modo a fomentar a criatividade dos seus alunos.

Os doutoramentos também sofrem um processo de escolarização. O tempo de preparação e elaboração das teses é encurtado para cinco anos, passando a implicar a frequência de um número de seminários, determinado curso a curso, numa primeira fase, para depois prosseguir para uma etapa de investigação mais autónoma, ainda que sob a orientação de um professor, incentivando-se a participação dos doutorandos em projectos de investigação e encontros científicos da sua área de especialização.
Todas as alterações introduzidas tiveram grande impacte na fase de viragem, dando origem a processos de equivalências para os estudantes que se encontravam a realizar o seu percurso no modelo que abruptamente cessara. Foi um momento de sobressalto para a necessária adaptação às novas regras.

A ênfase numa forma de estudar e investigar em equipas, nacionais ou internacionais, levou ao incentivo de parcerias envolvendo cursos de natureza transdisciplinar ou núcleos de investigação, o que se revelou profícuo, como o ilustra a publicação, em 2005, do primeiro número do Journal of Portuguese Linguistics, revista patrocinada pela FLUL e pela FCSHUNL.

A globalização dos saberes, potenciada pela investigação com recurso a ferramentas electrónicas é outra das facetas da renovação do ensino e da investigação na FLUL. A rede de informação disponível expande-se a partir de 2005, data em que a base de dados da Mapoteca integra o SIBUL (Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de Lisboa), em resultado de um projecto cooperativo coordenado pelo Serviço de Documentação da Universidade de Lisboa, alargando consideravelmente a acessibilidade às necessárias fontes de pesquisa.

Ainda com o mesmo espírito de partilha e de fomento de complementaridades, foi criado, nesse mesmo ano, o Instituto de História da Arte.
De um modo geral, a FLUL mostra, nesta fase, uma abertura empenhada e responsável à sociedade, promovendo conferências, palestras e demais iniciativas de modo a estimular tanto os seus estudantes como um público mais vasto a interessar-se pelas humanidades e o seu contributo para o mundo.

O final desta primeira década do século XXI correspondeu, também, ao início das negociações para a fusão entre a Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa que viriam a concluir-se em 2013, assim permitindo formar uma nova, única instituição com valências mais variadas e completas.

Reitores da Universidade de Lisboa

1998-2006: José Adriano Rodrigues Barata-Moura (Letras)
2006-2013: António Manuel Seixas de Sampaio da Nóvoa (Psicologia e Ciências da Educação)
2013: António Manuel da Cruz Serra (Engenharia)

 

Década de 90

A Década na FLUL

 

img decada 90bNa última década do século XX a tendência para a especialização do conhecimento acentua-se e a Faculdade de Letras procura responder a tal desafio autonomizando áreas disciplinares. Todavia, as afinidades patentes entre áreas de saber conduzem a processos de cruzamento de saberes e a uma transdisciplinaridade a todos os títulos enriquecedora. Em resultado destas pulsões, fundam-se, no decurso dos anos de 1990 e 1991, os cursos pluridepartamentais de especialização em Tradução (Inglês, Alemão; Inglês, Francês; Francês, Alemão), em1994 a licenciatura em Engenharia da Linguagem e do Conhecimento e no ano lectivo de 1996/1997 abrem-se os cursos de especialização em Língua Gestual e Surdez e em Consultoria de Língua Portuguesa. Cursos transdisciplinares de 1º ciclo, como os Estudos Europeus ou os Estudos Africanos, e a nível de mestrado, Teoria e Análise Cultural, Teoria da Literatura, Cultura e Formação Autárquica, entre outros, surgidos também neste período, assinalam idêntica matriz.

O elevado número de alunos conduziu, quase inevitavelmente, a uma massificação da população estudantil, reflectindo a esfera académica as dinâmicas vivenciadas pela sociedade em geral. Em simultâneo, porém, verifica-se o crescente contributo dos Departamentos e dos Centros de Investigação enquanto pólos de debate e reflexão, associando a missão de transmitir um saber actualizado à investigação nos vários domínios. A comprová-lo o surgimento de revistas especializadas como a Românica, periódico de literatura do Departamento de Literaturas Românicas, cujo primeiro número vem a prelo em 1992, ou a Polifonia, dois anos depois, fruto do Grupo Universitário de Investigação em Línguas Vivas (UNIL).

A necessidade de melhorar as condições de estudo e de acesso aos materiais bibliográficos concretiza-se no projecto de construção de um novo edifício para a Biblioteca. Em 1997 dá-se a cerimónia de lançamento da primeira pedra do novo edifício no espaço antes ocupado por um pavilhão para uso lectivo, mas cujo estado de conservação, degradado pelos muitos anos de utilização, tornara obsoleto.

O novo projecto de biblioteca foi, contudo, objecto de alguma polémica, na medida em que a concentração dos materiais bibliográficos num só espaço, mesmo com condições superiores de acesso e manutenção, implicava o desaparecimento de uma série de pequenas bibliotecas especializadas ligadas a Institutos. O que se ganhava em racionalização e actualização de meios e espaço, perdia-se em proximidade e familiaridade. A breve trecho, porém, comprovar-se-ia que uma biblioteca, com as dimensões e as valências técnicas que se almejavam, constituía a resposta necessária para os estudantes das próximas gerações.

Numa outra vertente, a Faculdade procura abrir-se ao mundo, tanto através das novas tecnologias como pela intensificação do intercâmbio com académicos e investigadores estrangeiros que trazem novas perspectivas, novas abordagens a diversos ramos do saber, sendo disso exemplo Suzanne Daveau, geógrafa agraciada com Honoris Causa da UL em 1997, e Pierre Dansereau, agrónomo canadense conhecido como o pai da ecologia, que também colaborou com o Departamento de Geografia.

Mesmo no fecho da década dá-se, a 19 de Junho de 1999, a assinatura da Declaração de Bolonha pelos Ministros da Educação de 29 países europeus visava alargar o referido espírito de intercâmbio. Nela se comprometiam a reestruturar os respectivos sistemas educativos nos três graus do ensino universitário de modo a promover a empregabilidade dos jovens cidadãos europeus.

Em termos práticos, determinou o estabelecimento de um sistema de créditos transferíveis e acumuláveis (ECTS), comum às instituições de ensino superior europeias, que facilite a mobilidade dos estudantes. A importância da cooperação institucional levou a que o princípio da mobilidade se aplicasse igualmente a docentes e investigadores de modo a melhorar níveis de qualidade tanto nos planos curriculares como na investigação.

A uniformização dos três ciclos de estudo – 1º - licenciatura, com a duração de seis a oito semestres (180 a 240 ECTS); 2º - mestrado com a duração de um ano e meio a dois (90 a 120 ECTS), podendo, excepcionalmente, ter a duração de dois semestres (60 ECTS); e 3º - doutoramento – foi perspectivada para assegurar a existência de critérios e metodologias comparáveis na avaliação da qualidade.

Reitores da Universidade de Lisboa

1986-1998: Virgílio Alberto Meira Soares (Ciências)
1998-2006: José Adriano Rodrigues Barata-Moura (Letras)

 

Década de 60

A Década na FLUL

 

decada 60

A década de 60 é marcada por convulsões políticas e sociais a que as instituições universitárias, porque núcleos de indivíduos mais informados, respondem de modo inequívoco. Faculdades e Institutos Superiores emergem como locais de vivas discussões entre diferentes pontos de vista, verdadeiros palcos de luta política e ideológica.

A Faculdade de Letras afirma-se como um desses núcleos de debate e contestação, sofrendo a Associação de Estudantes várias limitações à sua autonomia durante o Estado Novo. A política autoritária que se fazia sentir em vários sectores da sociedade via na educação uma das vias para consolidar o conformismo almejado pelo regime. As Associações estudantis tornam-se, pois, dos seus alvos principais, a fim de restringir correntes de opinião com impacte ideológico. Não obstante os riscos, grupos de estudantes organizam reuniões de em defesa da liberdade associativa.

A oposição ao regime efectua-se, porém, de modo vário, por vezes mais discreta, mas não menos contundente para a ideologia vigente. O crescente interesse das mulheres em obter formação superior e o seu efectivo ingresso no ensino universitário viria a contribuir, de maneira significativa, para a alteração das mentalidades e dos padrões vivenciais. Basta dizer que, no fim da década de 60, a taxa de estudantes do sexo feminino na Faculdade de Letras de Lisboa já ultrapassava os 80%, realidade que valia ao estabelecimento de ensino a irónica designação de «Gineceu das Letras». É precisamente na segunda metade desta década que a direcção da Faculdade está nas mãos de uma sua catedrática, Virgínia Rau.

Entre os anos de 1961 e 1965, observa-se uma crescente consciencialização política, em parte devido ao impacte da Guerra Colonial no percurso académico dos estudantes masculinos, que passam a potenciais soldados do regime, e também pelo desenvolvimento da sindicalização do movimento estudantil. Luís Filipe Lindley Cintra, ilustre linguista nomeado catedrático precisamente no ano da chamada Crise Académica de 1962, é sensível à luta pelos direitos e liberdades dos estudantes, apoiando-os nas suas reivindicações. A proibição do Dia do Estudante, em Março de 1962, leva à ocupação da Cantina da Universidade de Lisboa e concentrações de estudantes. Muitos foram presos e declarou-se luto académico. Todavia, Marcelo Caetano, então Reitor da Universidade, conseguiu apaziguar o ambiente hostil e foram retomadas as aulas. O luto, porém, voltou com a demissão de Marcelo Caetano, contestando mais uma proibição do Dia do Estudante, em Abril. Ainda em 1962, saiu um decreto de lei que dava ao Ministério da Educação liberdade para proceder contra os estudantes, o que resultou num elevado número de universitários presos.

1965 é considerado o ano da passagem para a politização das associações de estudantes. Já no ano anterior, Orlando Ribeiro, geógrafo e fundador da revista Finisterra, participara nos debates “Problemas da Universidade” em que se discutia o papel da instituição universitária na sociedade. Mas é em 1969 que a crise estudantil é associada aos movimentos sociais e políticos que põem em causa o regime. Questiona-se a estrutura elitista da Universidade, a guerra colonial e o subdesenvolvimento económico do país, levando a luta de classes à universidade, num movimento eminentemente político e revolucionário.

No entanto, nem tudo teve uma conotação estritamente política, tendo sido inaugurada a estátua de D. Pedro V, em 1960 e organizado o Primeiro Festival de Teatro Universitário de Lisboa, em 1965. Muitos artistas portugueses, porém, sentiram-se compelidos a emigrar para a Inglaterra ou França, na descoberta de um mundo que, simplesmente, não era permitido em Portugal. O programa de bolsas da recém-criada Fundação Calouste Gulbenkian contribuiu para a inovação da arte em Portugal, assim como a galeria do Diário de Notícias em Lisboa, a Divulgação, também em Lisboa e no Porto, dirigida por Fernando Pernes, ou ainda, na cidade do Porto, a Alvarez e a associação de artistas Árvore. Entretanto, David Mourão Ferreira leva a poesia aos lares portugueses com o seu programa televisivo, além de ocupar o cargo de Secretário-Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Reitores da Universidade de Lisboa:

1959-1962: Marcelo José das Neves Alves Caetano (Direito)
1962-1965: Paulo Arsénio Veríssimo da Cunha (Direito)
1965-1969: José Sarmento de Vasconcelos e Castro (Ciências)
1969-1973: Fernando de Carvalho Barreira (Ciências)

 

Década de 80

A Década na FLUL

img decada 80bOs anos 80, na Faculdade de Letras, constituíram uma encruzilhada entre os caminhos conducentes à formação do corpo docente segundo as práticas europeias e as pressões e as preocupações decorrentes de um quotidiano que ameaçava destruir a visão mais completa e a mais longo prazo, bem como a tradição de qualidade no trabalho científico e de influência activa no meio cultural que sempre contribuíram para o seu prestígio.

Efectivamente, diversos índices para aí apontavam: os docentes estavam cada vez mais absorvidos por tarefas administrativas (para as quais não tinham competência), o que abafava frequentemente as suas virtualidades criativas. Havia dificuldade de contratação de novos assistentes e de pessoal administrativo. Havia também um exorbitante número de alunos (cerca de 7000) o que prejudicava o contacto pessoal entre o professor e o estudante. O docente da Faculdade de Letras de Lisboa tinha ainda a seu cargo uma série de tarefas de índole vária, desde a elaboração de horários às inscrições nas turmas, redacção de actas, cartazes, preparação de orçamentos, etc. Consequentemente, as suas tarefas-chave – a preparação e a orientação de teses de mestrado e doutoramento, a promoção da investigação e do estudo – implicavam um esforço e uma dedicação adicionais. O orçamento para a investigação na FLUL era diminuto em comparação com outras escolas superiores. Condições desfavoráveis à investigação e a criação cultural.

Apesar das dificuldades, a Faculdade de Letras prosseguia com a sua missão. Em 1981 são criados os primeiros Cursos de Mestrado permitindo, assim, a obtenção de um grau de especialização que as licenciaturas de quatro anos tinham debilitado. A sua diversificação foi-se verificando à medida que a disponibilidade dos Departamentos o consentiu e o Conselho Científico julgou pertinente. Numa fase subsequente foram propostos Mestrados Interdepartamentais, fazendo convergir para eles áreas de saber desenvolvidas em vários departamentos como, por exemplo, Teoria da Literatura.

Entram em vigor novos planos curriculares para as licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas, Filosofia, História e Geografia. Cria-se, também, um ramo de formação profissional via ensino que visa preparar os futuros docentes do ensino secundário no âmbito pedagógico e das didácticas. Surgem, também, duas novas licenciaturas, a de Linguística e a de Língua e Cultura Portuguesa.

Sempre atenta à realidade social que a massa estudantil reflecte, publica, em 1981, o Estatuto de Trabalhador Estudante, que prevê um horário especial para os alunos que trabalham enquanto progridem na sua formação, dando assim em simultâneo, oportunidade a reingressos de muitos que, pelas vicissitudes da vida se tinham visto forçados a interromper a sua progressão académica.

O empenho em promover acontecimentos de relevo intelectual e artístico nunca foi descurado. Assim, logo em 1980 deu-se, na Faculdade de Letras, o IV Congresso Anual de Arqueologia.

Neste mesmo ano são transferidos para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo os chamados "arquivos de Salazar" e de "Marcelo Caetano”, acervos da maior relevância para o estudo da nossa História contemporânea, embora só na década seguinte eles sejam disponibilizados para consulta pública.

No dia 22 de Junho de 1982 foi criado o Museu Nacional do Teatro (que seria apenas inaugurado três anos depois, no antigo Palácio do Monteiro Mor). Foram também criadas escolas particulares e cooperativas, no decorrer do ano de 1982. Um ano depois, a 1 de Julho, o Conservatório Nacional é extinto para dar lugar à Escola de Música e Escola de Dança, em Lisboa, e ao Curso Superior de Música no Porto.

No ano de 1984 dá-se o início da publicação da quinta série da Revista da FLUL, com dois números anuais, sendo um orientado para as Línguas e Literaturas e outro para a História, Filosofia e Geografia. No ano seguinte, em 1985, é inaugurado em Lisboa o Centro Cultural das Descobertas, actual Centro Cultural de Belém.

Em 1986 o Centro de História da Faculdade de Letras publica um livro com dois volumes intitulado Primeiras Jornadas de História Moderna. Nesse mesmo ano a Biblioteca da Faculdade de Letras entra numa fase de reorganização e modernização, iniciando o processo de informatização. Actualmente, é uma das bibliotecas cooperantes do SIBUL (Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de Lisboa), participando na manutenção diária do Catálogo Colectivo das Bibliotecas da Universidade de Lisboa.

A utilização dos meios informáticos será, aliás, implementada, não só na Biblioteca, mas em três níveis e com objectivos distintos: serviços, docência e investigação. Se, no primeiro caso, os novos instrumentos libertaram os docentes de muitas das tarefas que os assoberbavam e permitiam aos agentes administrativos uma eficiência e celeridade superiores, no respeitante à docência e à investigação eles vieram possibilitar o acesso a novos meios de aquisição de conhecimento e de integração na comunidade científica internacional.

Reitores da Universidade de Lisboa:

1979-1982: Raúl Miguel de Oliveira Rosado Fernandes (Letras)
1983-1986: José Manuel Gião Toscano Rico (Medicina)
1986-1998: Virgílio Alberto Meira Soares (Ciências)

Década de 70

A Década na FLUL

img decada 70a

A década de 70 está indelevelmente marcada pela Revolução de 25 de Abril que pôs fim ao anterior regime e constitui um ponto de viragem quer para a sociedade em geral, quer para a academia. Nos anos que antecederam a Revolução dos Cravos, em 1974, a Faculdade, tal como outras instituições, permanecera muito fechada, reflectindo não só a política autoritária, mas também a mentalidade da sociedade e a atmosfera politicamente condicionada em que se vivia. No entanto, e ao contrário dos mitos que naturalmente se tecem do passado, havia, ainda assim, alguma liberdade de expressão e autonomia, desde que não tivessem actividade política directa e não fossem uma ameaça para o Estado.

Na verdade, logo no início da década, Veiga Simão, o ministro da tutela, apresenta um projecto de reforma intitulado “Linhas Gerais da Reforma do Ensino Superior”, destinado a dar resposta a necessidades de natureza prática. Contudo, o ambiente universitário está activo na contestação a um regime que luta contra o seu declínio. Em Março de 1972, as instalações da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras são encerradas pela força policial. Extinguem-se as Reuniões Inter-Associações e o Conselho Escolar da FLUL decide encerrar a Faculdade, o que veio a ser concretizado em 1973. Fazem-se detenções e apreensões de máquinas e outro material, sendo aprovado um diploma, o Decreto-Lei nº 18/73, que cria o cargo de “Vigilante” nas escolas de ensino superior, com o intuito de manter a disciplina académica. Um outro diploma concede aos reitores e directores dos estabelecimentos de ensino a possibilidade de recusarem a inscrição a qualquer aluno, com base no pressuposto da sua "inadaptação à disciplina interna da escola". As Faculdades, incluindo a FLUL, eram desestabilizadas pela presença das forças policiais secretas do Estado Novo e pela consequente impossibilidade de os alunos se poderem reunir ou conversar livremente. A morte do estudante do Instituto Superior de Economia José António Ribeiro dos Santos, a 12 de Outubro de 1972, às mãos da DGS, causou uma onda de revolta entre os estudantes.

Todavia, e apesar de ser reportada uma "certa efervescência em Letras e Direito", a Faculdade de Letras não constituía motivo para preocupações, na óptica de alguns analistas, em virtude do seu corpo estudantil ser maioritariamente feminino. Nesse sentido, um dos alvos preferenciais das atenções por parte das autoridades seria, por exemplo, o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF). Mais tarde, a Faculdade de Direito e outras instituições de ensino seriam objecto de idêntico escrutínio.

Comparado com os anos 60, o movimento estudantil nos anos 70 viu-se forçado a revivificar os seus esforços devido às medidas repressivas em vigor. De qualquer modo, continuam a organizar-se greves, reuniões entre estudantes e associações. Os estudantes chegam a representar, na vigília da revolução, a categoria social mais atingida pela repressão, perfazendo quase metade dos presos políticos de 1973 e dos primeiros quatro meses de 1974. Aliás, esse mesmo período regista, em absoluto, o maior número de estudantes presos pela polícia política desde 1956.

A partir do 25 de Abril de 1974, a Faculdade introduz alterações significativas. Algumas das medidas emanam dos órgãos em exercício, outras decorrem de deliberações à margem das estruturas tutelares, em plenários de alunos e professores, de representatividade e legitimidade dúbias. Verificam-se saneamentos e recrutamentos, organizam-se novos curricula com a abolição da dissertação de licenciatura, criam-se departamentos, surgem extensões universitárias em diversas cidades de Portugal continental e insular. A eleição de direcções colegiais passa a ser regida por normas colectivamente aprovadas, instituindo-se, para tal a Assembleia Geral de Escola como órgão soberano da Faculdade.

No que respeita à sua aposta lectiva, verifica-se uma diversificação de cursos e, no caso das Filologias, com especializações mais estritas. Opta-se por um modelo de ensino/aprendizagem delineado de modo a haver uma maior proximidade entre professor e aluno – o estrado deixa de fazer sentido no espaço físico da aula – instituem-se aulas nocturnas e o processo de avaliação privilegia a avaliação contínua em detrimento dos exames, considerados mais aleatórios e menos justos. Em 1978 são promulgados novos planos de estudos, extintos os bacharelatos e suprimido o quinto ano, passando a licenciatura para quatro anos.

O aumento massivo de alunos decorrente de um acesso mais democratizado, por um lado, assegurou o preenchimento das vagas abertas para docentes no ensino secundário, também ele com um volume de alunos nunca antes verificado. Por outro lado, assiste-se a um condicionamento no mercado de trabalho, em parte devido ao regresso dos portugueses das antigas colónias e pela nova geração de mão-de-obra qualificada num volume de que a economia nacional ainda não consegue tirar o devido proveito.

Há a assinalar a democratização do ensino, com a heterogeneização de alunos, vindos de diferentes classes sociais, principalmente dos vários patamares da classe média. O ambiente ideológico vivido na Associação de Estudantes frui uma pluralidade das ideias democráticas, reflectindo, mais uma vez, a mudança que se fazia sentir no país. Quanto à estrutura edificada da Faculdade, foi ainda acrescentado um edifício anexo, conhecido como “pavilhão novo”, que se encontra a poente do edifício principal. Foi construído no início dos anos setenta, sendo habitualmente utilizado como espaço lectivo suplementar.

Com o fim da censura vive-se um ambiente de debate em que a mudança é a palavra-chave, seja na esfera política, seja no domínio do conhecimento científico, por cuja promoção Mariano Gago pugna em diversos escritos, como Homens e Ofícios (1978). A explosão de criatividade que se verifica após 1974 já se adivinhava. No romance, a Virgílio Ferreira, Ferreira de Castro, José Cardoso Pires e David Mourão Ferreira juntam-se António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge ou José Saramago. Na poesia, a pujança está patente nos seus muitos nomes ilustres, como Al Berto, Gastão Cruz, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, entre muitos outros. Também o cinema ultrapassaria a chamada fase do desespero, ante-1974, de que é exemplo Uma Abelha na Chuva de Fernando Lopes (1971), para abraçar a novel abertura, com produções de João César Monteiro ou António Pedro Vasconcelos que, com o apoio do recém-criado Instituto Português do Cinema, podem agora desenvolver os seus projectos, como acontece a Manoel Monteiro. Os acontecimentos políticos também fomentam o aparecimento do documentário como Cravos de Abril de Ricardo Costa.

No que respeita a periódicos, assistimos, durante a primeira metade da década de 70, ao aparecimento da revista Colóquio-Artes (1971-1997), sob a direcção de José-Augusto França e no Porto, em 1973, à Revista de Artes Plásticas. No ano seguinte José-Augusto França publicava A Arte em Portugal no Século XX, obra de referência para a historiografia artística nacional.

A década de 70 daria também continuidade a muitas das linguagens plásticas produzidas por artistas de décadas anteriores, mas também consolida a presença de inúmeros autores de mérito já reconhecido mérito na crítica e no mercado como Júlio Pomar, Paula Rego, Joaquim Rodrigo, Mário Cesariny, António Sena, Álvaro Lapa, José de Guimarães e Eduardo Batarda. É de referir a obra de Ana Hatherly, com passagens pelo desenho, pintura, "performance", "happening" (Rotura, 1977) e cinema, como o filme Revolução (1975).

Reitores da Universidade de Lisboa:

1969-1973: Fernando de Carvalho Barreira (Ciências)
1973-1974: Joaquim Veríssimo Serrão (Letras)
1974-1977: Henrique João de Barahona Fernandes (Medicina)
1977-1979: Ilídio de Melo Peres do Amaral (Letras)
1979-1982: Raúl Miguel de Oliveira Rosado Fernandes (Letras)