“Fiz vida de milionário sem vintém. Aos 73 anos entrei na FLUL."

José Maria Mendes só chegou à faculdade depois dos 70 anos. Diz ter concretizado na FLUL e no Mestrado e Doutoramento em História um desejo que tinha vários anos, e que veio a cumprir já depois de se ter aposentado de uma vida intensa que o levou em trabalho pelo mundo.

Ele que foi o secretário pessoal do empresário António Champalimaud, acompanhando-o quando este foi para a América Latina e África, recorda a vida até cá chegar. Entre as interrogações de um homem humilde de Figueiró da Serra, viveu no México e em Saint-Jean-Cap-Ferrat, onde conheceu várias “estrelas de cinema”, fretando aviões privados para se deslocar pelo mundo como representante de Champalimaud em vários negócios.

Este é o “Re(viver) a FLUL…” de um antigo aluno que fez “vida de milionário sem vintém”, mas que considera a Faculdade de Letras da ULisboa como a sua segunda casa.

Reportagem e Fotografia: Tiago Artilheiro

 

José Maria Mendes entra na FLUL como quem conhece bem o espaço. “Sou da casa” revela, desde logo, no átrio principal, um espaço que lhe garante boas memórias. Afinal foi ali que tirou a fotografia com a família quando se doutorou em 2015, tinha então 79 anos, com uma dissertação sobre “Inácio de Santa Teresa – O Percurso de um Arcebispo Polémico”.

Antes disso fez o Mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão na FLUL, onde ingressou com 73 anos, e uma licenciatura em História na Universidade Lusófona. Diz que na FLUL foi diferente. “O verdadeiro sentido da Academia” encontrou-o aqui, local onde regressa com frequência para “rever professores que se tornaram amigos” e na qualidade de investigador integrado do Centro de História da FLUL.

O percurso até ao ensino superior só começou aos 70 anos. “Foi com essa idade que a vida o permitiu e o gosto pela História falou, finalmente, mais alto”, conta.

A idade é mais tardia, mas a vontade estava lá. Desde os tempos de jovem seminarista no Seminário Menor do Fundão e no Seminário Maior da Guarda, de onde sai aos dezanove anos. “Venho de uma aldeia e de uma família de seis irmãos, em que eu fui o único que estudei: fui o melhor aluno da turma”, diz o alumnus José Maria Mendes. No seminário chegou mesmo a substituir nos jogos de futebol o Padre Feytor Pinto na baliza.

De Lisboa ao México e a Paris: a vida de Mendes como secretário pessoal de António Champalimaud

1111Chega a Lisboa com 19 anos e, dois anos depois, em 1957, começa a trabalhar na Empresa de Cimentos de Leiria como aspirante de terceira classe. “Controlava as produções dos fornos de cimentos e fazia relatórios na máquina de escrever. Um ano e meio depois fazem o primeiro concurso e mudam-me para o serviço de pessoal e arquivo confidencial, também a fazer as actas do Conselho de Administração da empresa”, diz, como se tivesse sido ontem.

A proximidade com o empresário e dono da Empresa de Cimentos de Leiria, da Siderurgia Nacional e do Banco Pinto & Sotto Mayor, António Champalimaud, começa aí. Em 1960, António Champalimaud diz mesmo “só quero o Mendes” em alguns serviços da empresa.

Já depois de casar e com filhos, vê-se “obrigado” a acompanhar António Champalimaud, quando este se fixou no México. Em Maio de 1969 junta-se ao empresário na América latina, que diz precisar de um secretário para a partir de lá gerir à distância as empresas em Portugal, África e Brasil.

O alumnus José Maria Mendes destapa um pouco mais sobre a vida no estrangeiro: “gastávamos uma fortuna em telefone por mês e com o telefax. Levou também uma cozinheira e uma secretária e vamo-nos instalar na Cidade do México. Eu já era indispensável para ele”.

Em 1970, António Champalimaud vê-se na necessidade de se mudar para a Europa e a Côte d’Azur é o destino escolhido. “Vamos para Nice em Maio e manda-me comprar um Peugeot 504. Villefranche-sur-Mer e Saint-Jean-Cap-Ferrat estão no destino. Quando me encontrava com altas figuras da sociedade e do cinema, como o Gregory Peck, questionava-me: que vida é esta que eu tenho? Fiz vida de milionário sem vintém”, conta José Maria Mendes largando uma gargalhada.

22222Com várias vindas a Portugal entretanto para rever a família e os filhos que cá permaneceram, em Agosto de 1970 Paris surge no mapa como próximo destino. O alumnus pormenoriza: “trouxemos uma empregada e uma cozinheira do México para França e instalamo-nos no Hotel Ritz. Mais tarde, mudamo-nos para uma casa junto ao Trocadéro”.

Depois desse tempo ainda regressa ao México, mas em 1971 passa a ser o antigo aluno da FLUL José Maria Mendes quem viaja como representante de António Champalimaud para os negócios. Até 1973 é secretário itinerante, um autêntico “braço direito e braço esquerdo” do empresário, momento em que regressa definitivamente a Portugal.

Com vida mais desafogada, volta ao trabalho anterior, sendo depois nomeado solicitador da Comarca de Lisboa, profissão que deixara em suspenso aquando da partida para o México. Ficou na Cimpor como quadro superior nos serviços jurídicos e deixa a empresa em 1996 para a reforma.

Apesar de reformado não pára, ajudando um dos filhos formado na área do Direito. Mas sentia falta de mais…

Aos 73 anos, uma nova vida na FLUL

José Maria Mendes diz que com 70 anos se sentia inferiorizado: “se me perguntassem que habilitações superiores tinha, a resposta era nenhumas. Começo verdadeiramente a pensar nessa altura em pôr os pés na universidade”. Mas eis que chega a interrogação: “o que é que eu sou capaz de fazer aos 70 anos? Vi um anúncio da Universidade Lusófona e fui fazer uma prova de acesso”.

A entrada na Academia é auspiciosa. Termina o primeiro semestre da licenciatura só com 17 e 18 valores. E é mesmo com 17 valores que termina a licenciatura, tempo em que chegou a ser delegado de turma. Ainda tenta um mestrado na área da museologia, mas é na FLUL que consegue viver os seus melhores tempos académicos.

33333Depois de muito pensar, em 2009 ingressa no Mestrado em História da Expansão e dos Descobrimentos: “eu gostava de duas áreas, os Descobrimentos e Expansão, bem como a Idade Média, logo eu que saí do seminário a saber latim como português, mas fui esquecendo. Fernão Lopes era o meu passatempo preferido! Eu estudava muito e adorava investigar”.

José Maria Mendes responde à pergunta do FLUL Alumni sobre a influência de Champalimaud nesse gosto pela história: “estou em crer que sim, ele também gostava muito”!

Aos 70 anos, o gosto pelo estudo era imenso: “a minha mulher chateava-se comigo porque eu passava a vida a estudar. Só me chamava para almoçar. As manhãs e tardes eram passadas a investigar, porque de outra maneira não conseguia ter o êxito que tive. E as aulas! O que eu adorava as aulas que aqui tive”.

Mestrado feito, aprovado com 18 valores e com a tese sobre “Inácio de Santa Teresa - Construindo a Figura de um Arcebispo”, é incentivado para Doutoramento na FLUL: “como ficaram aqui umas questões por responder sobre Inácio de Santa Teresa, convém respondê-las. E o doutoramento surge assim! Descobri coisas incríveis”, acentua o alumnus.

Três anos depois, obtém o grau de Doutor com 18 valores, Aprovado com Distinção e Louvor.

Na universidade diz ter ajudado muitos colegas, fazendo sebentas que divulgava entre todos. Porque gosta de ultrapassar qualquer dificuldade, conta que durante oito dias estudou um programa de informática em pormenor que precisava de dominar em pleno.

Passados quase três anos de terminar o doutoramento, o sentimento permanece: “eu entro aqui como se fosse uma segunda casa. A primeira vez que aqui entrei senti que era um espaço muito importante, absolutamente do outro mundo! Mas a FLUL ajudou-me a provar que é possível”!