Antigos Alunos recordaram a FLUL durante o Estado Novo

A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa recebeu ontem a 2ª edição do “Conversas com Alumni”, uma iniciativa do FLUL Alumni, este ano subordinada ao tema “A FLUL e o Estado Novo”, que contou com a presença de 70 participantes.

Com moderação dos professores Adelaide Meira Serras e Sérgio Campos Matos, a abertura da iniciativa ficou a cargo do Director da FLUL, Professor Doutor Miguel Tamen. Na mensagem inicial, o mesmo destacou a “profunda importância das memórias para a Faculdade”, nomeadamente, as lembranças factuais dos antigos alunos da instituição, não esquecendo a sua “dimensão fragmentada”.

img 3092Essa fragmentação foi também visível nas memórias de Letras, partilhadas pelos três convidados da sessão sobre as vivências do Estado Novo dentro das portas da Faculdade. A antiga aluna de Filosofia (1980) e antiga dirigente da FLUL Doutora Teresa Matos, começou por dar conta de vários episódios vividos na época. “Tivemos momentos em que nós quase que funcionávamos como entidade de acolhimento dos alunos contra o regime que fugiam às perseguições na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa”, contou.

Os muitos episódios passados na altura na Faculdade estão ainda bem presentes na memória da Professora Doutora Cristina Pimentel, antiga aluna de Filologia Clássica (1976), actual Professora Catedrática e Directora da Área de Literaturas, Artes e Culturas da FLUL. “Não esqueço aquele dia em que entrei na FLUL e encontrei uma lista afixada na porta principal, onde constavam os nomes de nove colegas que não podiam entrar na Faculdade porque o Conselho Escolar os tinha suspendido por actividades subversivas. E aquela aula em que o Professor Lindley Cintra nos pediu desculpa por estar a dar a matéria com muita rapidez, mas assim tinha que ser porque raro era o ano em que não era preso”, lembrou. O Professor Padre Manuel Antunes foi outro dos docentes que a convidada recordou: “no Anfiteatro 1, numa aula ao sábado, o Padre Manuel Antunes disse que em Portugal só existiam dois santos, São Bento para os que ficam e Santa Apolónia para os que partem”.

O Professor Doutor Mário Avelar, alumnus do curso de Línguas e Literaturas Modernas para onde entrou já depois do 25 de Abril, actualmente Professor Catedrático e antigo Vice-Reitor da Universidade Aberta, preferiu falar das memórias do seu pai, na altura desenhador no Centro de Estudos Geográficos da FLUL. “Tinha eu 16 anos e o meu pai um dia chega a casa e conta, em primeira mão, como havia sugerido ao Professor Lindley Cintra que fugisse da FLUL, porque estava à porta da Faculdade a defender uma aluna que estava a ser agredida”, disse. “Também não posso esquecer o Professor Moser, que sei que fazia chegar os apontamentos ao Jorge Lemos, aluno suspenso preventivamente da frequência da Faculdade por ser o Presidente Pró-Associação de Estudantes”.

img 3097As memórias de um “país a preto e branco, em que não se bebia Coca-Cola e onde enfermeiras e telefonistas não podiam casar”, fizeram parte da intervenção do Professor Doutor Sérgio Campos Matos, antigo aluno de História da FLUL, onde entra em 1975. “No período do Estado Novo, a FLUL foi essa espécie de microcosmos, que vivia numa fase de explosão. Lembro que em 1975 éramos mil alunos só no Curso de História, com 12 turmas de História Contemporânea por exemplo”, explicou.

Com a conversa já aberta ao público, constituído em grande parte por alumni dos anos 1960 e 1970, a antiga aluna de Filosofia Maria Eduarda Pereira Dias referiu que “em 1973, quando entro na FLUL, lembro-me de chegar à Faculdade e encontrar a polícia à porta com cães e, no momento a seguir, já estar na Biblioteca escondida com medo. Se me perguntarem como lá cheguei, confesso que ainda hoje não faço ideia”.

O episódio, que levou esta antiga aluna a ter, de forma recorrente e durante anos, vários pesadelos, é também destacado por Maria João, actual funcionária da Biblioteca da FLUL. “Lembro-me de estar fechada na antiga biblioteca e de alguém nos dizer ‘vamos tratar dos outros e depois vimos cá tratar de vocês’. O Professor Lindley Cintra salvou vários alunos. Houve um dia em que o chão do Bar Velho ficou manchado de sangue. Foram dois dias só para o limpar”, contou esta antiga aluna.

O alumnus Alberto Rosmaninho recordou que os 'gorilas' eram os contínuos da FLUL, verdadeiros informadores da Pide: “eram o Ferreira, o Ribeiro e o Carvalho, que sabiam quem era contra o regime dentro da FLUL. Mais tarde, muita gente foi saneada de braço no ar pela Comissão de Saneamento, mas muitas pessoas sem culpa nenhuma”. Também a alumna Manuela Ribeiro, que ingressou no curso de Filologia Germânica em 1970, contou que “a casa dos 'gorilas' era ao pé do bar, e quando tiravam a gravata era sinal que ia haver confusão. Durante anos, não consegui ouvir ninguém falar alto porque me lembravam os gritos que aqui ouvi”.

Com vários testemunhos dados pelos alumni, a segunda edição do “Conversas com Alumni” terminou com a leitura, pela Professora Doutora Adelaide Meira Serras, antiga aluna de Filologia Germânica e Coordenadora Científica do FLUL Alumni, de um excerto do livro Memórias de um Rústico Erudito da autoria do antigo aluno Raúl Miguel Rosado Fernandes, falecido recentemente: “a verdadeira liberdade, aquela liberdade que pode até criticar-nos ou pôr em causa o que fazemos, só pode ser alcançada por cidadãos com escolaridade suficiente para exercerem críticas que reflictam não só os seus problemas pessoais presentes mas também os problemas colectivos que se adivinhem”.

Texto: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas) | Fotografia: Denise Moura (Divisão de Relações Externas FLUL)

 

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