Nos tempos da Telescola: antigas alunas da FLUL contam como era ensinar e aprender

Passadas mais de quatro décadas desde o seu arranque, a Telescola regressa agora ao ensino em Portugal. A FLUL descobriu uma das primeiras docentes a dar aulas pela televisão nos estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia, uma professora monitora que acompanhava as turmas em Abrantes, e uma aluna da Telescola que tinha aulas em Montemor o Novo. Todas elas são antigas alunas da FLUL.

Esta é uma viagem ao Portugal da primeira Telescola.

Texto: Tiago Artilheiro (FLUL-DREI, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas) | Fotografia: Direitos Reservados

 

“Ver agora o regresso da Telescola traz-me algumas das minhas melhores memórias como professora”. É desta forma que Luísa Monteiro, aos 80 anos, inicia a conversa com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O percurso para conseguirmos chegar até esta antiga aluna da FLUL demorou cerca de duas semanas. Depois de vários emails trocados, conversas no Messenger e mensagens no Whatsapp com outros antigos alunos que conheciam Luísa Monteiro, mas que com ela não contactavam há longo tempo, eis que finalmente recebemos o número de telefone desta alumna que cursou História na FLUL. Quando finalmente acontece o telefonema, a conversa sobre a sua experiência na Telescola, com “aquela professora que aparecia na televisão”, decorre ao ritmo das memórias.

Luísa Monteiro entra para a Telescola em 1966, integrada no Curso Unificado da Telescola (CUT), que decorreria até 1968. Durante cinco anos, deu aulas de história e de português a distância, já depois de ter feito, também, o Curso de Magistério Primário. Ainda hoje a viver no Porto, lembra-se bem como surgiu a oportunidade: “foi o Ministério da Educação que me vez o convite, porque eu lecionava numa escola do Porto, muito próximo do local onde ficava o estúdio da RTP onde eram dadas as aulas, no Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia”. Sem experiência, e “com várias indicações de posicionamento frente à câmara”, Luísa Monteiro não esquece a primeira aula: “estava muito nervosa, mas depois de ter dito aquele primeiro ´boa tarde´ tudo passou, imaginei que no lado de lá da câmara estavam meninos de todo o país, para ouvir a minha aula de português”.

Na década de 1960, foi a expansão da escolaridade obrigatória para seis anos que levou ao surgimento da Telescola. “Havia uma grande falta de professores para garantir o ensino, e fazê-lo a distância demonstrou ser uma excelente solução. Estava muito bem organizada e os pormenores não eram descurados: até recebi informação sobre a indumentária que deveria usar preferencialmente”, explica Luísa Monteiro. O contributo do Instituto de Meios Audiovisuais de Ensino (IMAVE), criado em 1964 pelo Ministério da Educação para promover o que agora se apelida de ensino a distância, tinha neste âmbito “um papel decisivo”, sublinha esta antiga aluna da FLUL.

Na Telescola “nada era ao acaso” e não existiam facilitismos. Céu Magalhães, alumna da FLUL do curso de Filologia Românica e antiga professora monitora da Telescola em Abrantes, corrobora esta ideia. “Quando começo a dar aulas na Telescola, em 1978, pude perceber a validade deste ensino. Só para se ter uma ideia, os dois testes por período que na altura eram feitos, e que nós distribuíamos aos alunos, saíam selados da RTP no Monte da Virgem. Eu, como professora, e por uma questão de segurança do método de avaliação, só tinha acesso às provas no próprio dia”. Mas não era só aqui que o “modelo estava bem oleado. Tínhamos todos acesso ao ‘Boletim’, elaborado pelo IMAVE, um livro onde constavam os horários das aulas, a matéria abordada em cada emissão e muitas orientações de exploração dos conteúdos”.

Céu Magalhães estava integrada no segundo período da Telescola - o Ciclo Preparatório TV (CPTV) -, que decorreu entre 1968 e 1990 (entre 1991 e 2006 haveria de decorrer o terceiro e último período de ensino a distância pela Telescola, já através de gravação em VHS: o Ensino Básico Mediatizado - EBM).

Também ela teve formação e recorda as reuniões de professores monitores que aconteciam com grande frequência, sem esquecer os muitos relatórios que preencheu. A parte técnica era garantida a cem por cento para que nada faltasse aos alunos e professores: “imagine que um televisor tinha uma avaria. No dia seguinte vinham trocar para que as aulas não fossem interrompidas por um longo período. Esta curiosidade pode parecer pouco importante… Mas num Portugal interior, a Telescola permitiu formar muitos alunos que estavam longe das Escolas Preparatórias”.

 

As aulas a distância há mais de 40 anos

Mas como funcionavam estas aulas? Céu Magalhães conta. “As emissões, claro está a preto e branco, aconteciam à tarde, em contínuo, durante algumas horas; no final respondíamos a dúvidas dos alunos, explorando os conteúdos abordados através de fichas. Durante os meus seis anos de docência na Telescola, também assisti a emissões de aula com cerca de 20 minutos, seguidas de um bloco de 25 minutos de exploração de conteúdos”.

Maria Filomena Barradas é antiga aluna da FLUL. Na Faculdade completou a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos Portugueses, o Mestrado e o Doutoramento em Estudos Românicos. Antes de chegar à Academia, foi aluna da Telescola no Ciclo Preparatório - 5.º e 6.º anos de escolaridade - entre 1986 e 1988, em Cabrela, Montemor o Novo. Lembra-se de ter dois professores monitores em aula, “um para a área das humanidades e outro que cobria a área das ciências. As aulas eram sempre depois do almoço e os manuais eram novos em cada período, pareciam sebentas”. Maria Filomena Barradas revela que, por vezes, havia a ideia do ensino pela Telescola “ser o parente pobre da educação na altura”. Mas não concorda, e por isso garante: “nunca me senti despreparada ou em desvantagem face aos colegas do ensino normal”.

Aulas de francês, português, história, estudos sociais, matemática, ciências, educação visual, entre outras, faziam parte do currículo de Maria Filomena Barradas, que as acompanhava pela RTP, “logo depois do almoço, todos os dias”. Foi através da RTP que se lembra de ver “as primeiras representações em árvore de frases”. Em aula, “os professores presentes orientavam os trabalhos práticos, tiravam dúvidas e funcionavam como uma espécie de tutores multidisciplinares. Víamos a emissão, seguia-se um período de trabalho e logo depois começava outra aula”.

A professora Luísa Monteiro estava em estúdio em Gaia, e Céu Magalhães numa escola “pequenina do Ribatejo”. Ambas concordam num ponto: os programas eram cumpridos na sua totalidade. A antiga alumna da FLUL Céu Magalhães não tem dúvidas: “este ensino permitia conhecer bem os alunos e estabelecer uma relação com eles, éramos uma família”.

O sentimento de família também se fazia notar para quem estava à frente das câmaras, a leccionar longe das turmas. Luísa Monteiro não esquece que logo no seu primeiro ano de docência na Telescola recebeu uma carta de uma turma de Castelo Branco, que lhe agradeceu “a disponibilidade, simpatia e a excelente dicção que tinha. Fiquei tão sensibilizada que no final desse ano fui conhecer esses alunos”. Também nas épocas festivas era notória esta proximidade na distância: “no Natal era frequente enviarem-nos postais de boas festas. Estávamos de facto próximos deles e conseguíamos perceber isso pelas manifestações de carinho”.

Quando entrava em estúdio, Luísa Monteiro já sabia a lição de cor: “treinava sempre tudo em casa, em voz alta e pausadamente”. Na RTP “gravava vários blocos por dia, três dia por semana”. Tudo estava preparado ao mais ínfimo pormenor: “havia uma escala de aulas em directo e recebíamos com muita antecedência o plano de aulas para as podermos preparar”. O ambiente, que não era o de escola, acabou por levar a uma amizade entre todos os docentes que iam a estúdio, e com os técnicos da RTP e do IMAVE. Aos 80 anos, a antiga aluna da FLUL tem uma certeza: “foram tempos de uma entrega e descoberta maravilhosas, para todos os que fizemos parte da Telescola. Estou em pensamento com todos aqueles que aceitaram esta missão inesperada de fazer ressurgir a Telescola. Vai valer a pena. Na segunda-feira [hoje] vou estar a ver a RTP e a pensar: um dia, eu estive ali”.