De Lisboa para a selva: como um antigo aluno da FLUL está a mudar a Gorongosa

O FLUL Alumni pelo Mundo foi até África ao encontro do antigo aluno Vasco Galante. Licenciado em História pela FLUL na década de 80, Vasco Galante é actualmente Director de Comunicação e Desenvolvimento Turístico do Parque Nacional da Gorongosa. Foi administrador de empresas e director comercial. Outrora jogador de basquetebol no Benfica, o alumnus deixou toda uma vida profissional para trás e começou do zero, num novo continente, uma nova vida.

 

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Vasco Galante | Licenciatura em História | Ano: 1987

“O meu nome é Vasco Galante e sou licenciado em História pela Faculdade de Letras da ULisboa. Recordo com saudade os meus anos na FLUL. Fiz amizades para a vida com colegas e professores e confesso que foi um ambiente intelectual muito estimulante e que me abriu horizontes, sobretudo, pelo acesso a leituras que só uma Faculdade de Letras poderia proporcionar. Recordo que era um informático quando entrei na FLUL e quando saí era um homem mais completo e aberto ao mundo, que também possuía competências informáticas.

1 vascoAté chegar ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, trabalhei muitos anos em Itália, Espanha e Portugal, como administrador de empresas e como director comercial e de marketing na Sonae, na INCM, no BES e nas Seleções do Reader’s Digest. Possuo, também, um MBA em Marketing pela Universidade Católica Portuguesa e, nos meus primeiros tempos de carreira profissional, fui programador de computadores e leccionei cursos de formação.

No início de 2005 vim para Moçambique como voluntário, fazendo parte de um projecto de formação de formadores de professores primários. Fiz a minha formação como Instrutor de Desenvolvimento no Institute for International Cooperation e Development do Massachussets, nos EUA, e estive seis meses a leccionar na One World University, gerida pela ONG Aid Development People to People (ADPP) em Maputo. O enriquecimento pessoal que esta experiência me proporcionou foi grande permitindo-me, de igual forma, tomar contacto com o mundo da cooperação internacional.

2 vascoQuando a Carr Foundation me contactou para falar do Parque Nacional da Gorongosa estava a trabalhar no “International Trade Centre” da ONU como consultor. A proposta do Greg Carr, Presidente da Carr Foundation, foi desde logo tentadora. Mas não esqueço que a enormidade do projecto também o é! Desde Março de 2006 que tenho um contrato reconhecido pelo Ministério de Trabalho de Moçambique como Director de Comunicação e Desenvolvimento Turístico do Projecto da Gorongosa.

As minhas bases formativas foram essenciais para cumprir alguns dos objectivos do Departamento de Comunicação da Gorongosa: não só construir uma consciência local e internacional sobre o Parque como, ao mesmo tempo, tornar os visitantes em defensores do Parque Nacional da Gorongosa.

O Parque foi oficialmente criado em 1960 sendo um dos locais de maior biodiversidade do Planeta. O Projecto da Gorongosa tem dois grandes objectivos definidos: por um lado a protecção e restauração da biodiversidade e dos processos naturais do ecossistema e, por outro, aliviar a pobreza regional através do estabelecimento de negócios de ecoturismo e de outras influências benéficas do Parque. E isto é desafiante!

Porque escolhi ir para África? África está no imaginário de muitos portugueses, fruto do nosso passado. Mas também é futuro! Sempre me custou tomar contacto com as necessidades em África e sinto que posso ajudar para terem um futuro melhor.

2vascoPara tomar esta decisão foi muito importante ter feito o Caminho de Santiago, entre Roncesvales (nos Pirinéus) e Santiago de Compostela. 800 quilómetros durante um mês. Com a reflexão que fiz, percebi que tinha que deixar o tipo de vida que tinha naquele momento.

Hoje vivo no meio do mato e confesso que não tenho saudades da zona de conforto em que vivi muitos anos.

Falo várias línguas - Espanhol, Italiano, Francês e Inglês - e agora estou a aprender mais duas: Sena e Tailandês, porque casei com uma voluntária tailandesa que conheci em Moçambique. Não tenho dúvidas que as experiências que fui tendo, sem esquecer os meus tempos de jogador de basquetebol do Benfica, altura em que conheci muitos jogadores oriundos de Moçambique, me deram bases sólidas para enfrentar o meu trabalho actual.

Quanto ao Projecto da Gorongosa, pressupõe um processo muito complexo e que envolve muitos actores sociais: do Governo às ONG’s, passando pelas comunidades locais e respectivas estruturas tradicionais de poder.

No meu dia a dia são comuns as reuniões e encontros em zonas de difícil acesso. O Português não é falado pela maioria da população (fala-se mais o Sena nesta zona centro de Moçambique). E o Parque é também o local escolhido para diversos encontros com os líderes locais, dando-lhes uma percepção completa sobre o que é turismo e de que forma se pode trabalhá-lo. Com as comunicações telefónicas complicadas e, tantas vezes, inexistentes, o mais difícil é coordenar todas estas actividades.

3Neste momento acreditamos que a existência de um Parque como a Gorongosa no centro de Moçambique irá atrair muitos milhares de turistas e vai contribuir muito para a criação de infra-estruturas de apoio ao ecoturismo, sejam elas geridas pelo Parque ou pela iniciativa privada e comunitária.

Desejamos também que estas iniciativas de ecoturismo sejam integradas numa economia mais vasta, de modo a criar actividade económica regional secundária e terciária. Regra geral, os lucros do turismo são superiores aos gerados pelos produtos primários e têm tendência a aumentar. É por isso que acredito que a recuperação do Parque Nacional da Gorongosa pode contribuir significativamente para as receitas do país em moeda estrangeira.

Resultados? Também já temos. E notáveis: reabilitámos e construímos escolas,clínicas e prestamos apoio à prestação regular de serviços de saúde e educação às comunidades circunvizinhas; construímos um Centro de Educação Comunitária (com a ajuda da Cooperação Portuguesa) onde se desenvolvem acções de formação e educação ambiental; construímos um Laboratório de Biodiversidade vocacionado para a investigação científica e formação de investigadores (onde são presença regular investigadores internacionais, entre os quais muitos portugueses); constituímos uma força de fiscalização de cerca de 230 fiscais preparados e equipados para protecção do Parque e seus recursos, e procedemos à construção de um santuário destinado à recepção de animais reintroduzidos, com vista ao seu controlo sanitário e crescimento dos efectivos e posterior introdução no Parque. O reinício da actividade turística com a reabilitação da infra-estrutura hoteleira e a realização de safaris fotográficos com a participação do sector privado são também evidentes.

O meu dia de trabalho é muito preenchido. Como aqui toda a gente quer aprender, temos conseguido conquistar as pessoas! Isto é um projecto para 25 anos!”

Fotografia: Vasco Galante / Direitos Reservados

Conheça o Parque Nacional da Gorongosa: 

  

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