Da FLUL para os EUA: Inês Torres é egiptóloga e aos 27 anos dá aulas em Harvard

O FLUL Alumni pelo Mundo voltou a passar o Atlântico e foi até Harvard, nos EUA. Inês Torres, uma jovem egiptóloga licenciada em Arqueologia pela FLUL em 2012, conta-nos o seu percurso académico e profissional em torno de uma paixão: o Egipto!

 

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Inês Torres | Arqueologia | Ano de conclusão: 2012

museu do cairo jan 2017"Lembro-me perfeitamente do momento em que terminei o ensino secundário no Porto. Impunha-se então escolher a Universidade na qual teria de fazer a minha licenciatura, e a FLUL foi a minha primeira escolha. Recordo-me da ansiedade, do nervosismo que senti chegado o momento tão esperado. Desde o primeiro momento em que entrei na FLUL que me senti como se estivesse em casa, sabendo que tinha feito a escolha certa.

Sempre soube que o meu percurso me levaria do Porto a Lisboa, e de Lisboa ao resto do mundo. A FLUL foi a plataforma que me permitiu alcançar o que almejava. Recordo com saudade os três anos que aí passei, os amigos de curso, os professores, os exames, as aulas, a biblioteca, os corredores cheios de gente,… Tive a sorte e o privilégio de aprender com professores fantásticos e de manter amizades que durarão para sempre, perto ou longe. O curso conseguido foi Arqueologia, de 2009 a 2012: foi este o primeiro passo no percurso que me levaria a concretizar o meu sonho de criança – ser Egiptóloga. 

museu de belas artes boston nov 2018Em 2012 iniciei o meu Mestrado em Egiptologia na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Foram dois anos de trabalho intenso, mas de felicidade imensa, pois foi aqui que a minha formação enquanto Egiptóloga se estabeleceu. Foi em Agosto de 2015 que iniciei o meu doutoramento na Universidade de Harvard, EUA. O motivo pelo qual escolhi os Estados Unidos reside na natureza dos doutoramentos deste país, que difere bastante da norma europeia. Um doutoramento nos Estados Unidos leva, pelos menos, seis anos a completar. Em Harvard, no departamento de Near Eastern Languages and Civilizations, onde se inclui a Egiptologia, o percurso é o seguinte: durante os primeiros dois anos, os doutorandos têm aulas, trabalhos, exames, e vários outros projetos. No terceiro ano, os doutorandos começam a dar aulas, normalmente enquanto professores assistentes (Teaching Fellows ou Teaching Assistants), auxiliando os Professores da Universidade a dar aulas a alunos de licenciatura, sendo que é também possível darem aulas sozinhos (normalmente aulas de introdução a um tópico). O terceiro ano é também o ano em que os alunos de Egiptologia em Harvard devem passar os Qualifying Exams, exames estes que cobrem todas as áreas de conhecimento necessárias para um aluno assegurar o doutoramento. No caso da Egiptologia, isto inclui as áreas mais importantes da disciplina: história, literatura, arte, língua, arqueologia, entre outros. O quarto ano é, também ele, dedicado a dar aulas; se o doutorando tiver passado os Qualifying Exams, começa então a elaborar uma proposta de tese, que deve ser aprovada pelo comité de tese e pelos professores do departamento. Depois disto, o resto do ano, assim como o quinto e o sexto, são dedicados à investigação e elaboração da tese.

museu egipcio berlim maio 2017Desde que iniciei o meu doutoramento em Harvard tive também a oportunidade de poder assistir a aulas na Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, assim como de participar num programa de intercâmbio entre a Universidade de Harvard e a Universidade Livre de Berlim. Em Berlim, onde estudei de Março a Agosto de 2017, tive ainda o privilégio de trabalhar no Museu Egípcio, participando em vários projectos e manuseando diversos objectos desta maravilhosa coleção. Antes de Berlim, contudo, participei ainda num programa do Instituto Flamengo-Holandês do Cairo, que me permitiu passar dois meses no Egipto, de Janeiro a Março de 2017, visitando vários sítios arqueológicos, institutos egiptológicos, e museus, com um grupo de alunos de Egiptologia das Universidades de Leiden, Holanda, e Leuven, Bélgica. 

mastaba de meresankh giza jan 2017O Verão de 2018 foi passado a trabalhar no Museu de Belas Artes de Boston, onde estive colocada de Junho a Agosto, ocupando a posição de Terrace Research Associate in Egyptian Art. Neste Museu estive envolvida em diversos projectos relacionados com a coleção Egípcia e os seus arquivos, incluindo digitalizar vários documentos de escavações realizadas no Egipto pelo Museu de Belas Artes de Boston no início do século XX, de forma a torna-los gratuitamente acessíveis através da internet. A principal função que desempenhei foi assistir os diversos investigadores que se deslocaram até ao Museu de Belas Artes para estudar os artefactos do antigo Egipto e da antiga Núbia, pelo que a minha experiência no Museu me tenha proporcionado ainda a possibilidade de estabelecer contacto com colegas de todo o mundo. 

Desde Setembro de 2018 que lecciono Egípcio Clássico em Harvard, função que continuarei a desempenhar no ano lectivo de 2019-2020. Foi pelo meu trabalho enquanto Teaching Assistant de Egípcio Clássico no ano lectivo de 2017-2018 que tive o privilégio de me ter sido atribuído um Certificado de Distinção pela Universidade de Harvard.

Porquê Egiptologia? É simples: apaixonei-me! Li um livro que me foi oferecido pelo meu pai em criança, e fiquei fascinada por esta civilização milenar. Tudo sobre o antigo Egipto me encanta: a língua, a história, a arte... Mas o que mais me fascina são as pessoas. As pessoas e a condição humana. A verdade é que, e sem querer ser simplista, ou afirmar que os antigos Egípcios são exactamente iguais a nós, o que me intriga é que, passados cinco mil anos, o ser humano continua a enfrentar medos semelhantes e a saborear momentos semelhantes. O receio da morte e o desejo de continuar a saborear os prazeres da vida, são, talvez, as duas características mais profundas da nossa espécie.

Quanto ao futuro, não tenho nenhum plano estabelecido, apenas meras ideias. Tenciono acabar o meu doutoramento nos próximos anos e, se possível, voltar à Europa. O meu sonho seria dar aulas numa Universidade e dirigir uma escavação arqueológica no Egipto. Tenho, contudo, a mente aberta, e estou disposta a encarar todos os novos desafios como oportunidades. Ad quattuor cardines mundi!"

Fotografia: Inês Torres/ Direitos Reservados

 

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