"Escrevo a pensar que tenho o poder de fazer o milagre de salvar, de mudar"

Estuário, o novo livro de Lídia Jorge, é um mergulho no "passado próximo". Em entrevista ao FLUL Alumni, Lídia Jorge, que se licenciou em Filologia Românica pela FLUL, fala sobre o gosto pelo presente e como o seu envolvimento com o contemporâneo é importante no acto de escrita.

A autora conta que Estuário é um "livro de aprendizagem" e revela como foi na FLUL que aquilo que viria a ser começou a ganhar forma.

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequeno Estuário é um livro sobre a perda e a resistência?

Lídia Jorge (LJ): É um livro sobre a perda para pôr em evidência a capacidade da resistência. Perder é natural mas resistir é da ordem da competência, isto é, corresponde a uma proeza. Pensei nas figuras que habitam Estuário como personalidades prometaicas, sendo no entanto anónimas e escondidas. A honra é o terceiro pilar deste livro, aquele que sustenta o embate da perda e promove a capacidade de resistência.

pequenoNo livro temos uma família em crise económica. Mas também lá estão os refugiados, a ajuda humanitária… Houve uma vontade clara de trazer este romance para o nosso tempo? 

LJ: O embate entre a família e o Estado que surge no livro poderia situar-se em outro tempo qualquer, mas eu gosto que a marca do presente não esteja disfarçada. O passado próximo motiva-me. Gosto de tentar desocultar aquilo que está demasiado perto para termos opinião esclarecida. Gosto de me envolver com o movimento que caminha incógnito para o futuro. O mundo contemporâneo está sempre sob a luz de um relâmpago que nos cega. Gosto de me envolver com esse trovão. Os refugiados não são um lugar-comum, são uma catástrofe anunciada há décadas que só agora dá à praia. Edmundo Galeano foi imaginado sentado à mesa, a meu lado.

lidia jorgepequenoInspirou-se em alguma história que tivesse ouvido, que lhe fosse próxima? Quanto de realidade tem este romance?

LJ: Inspirei-me no pranto de uma mulher desalojada da sua casa, com os filhos famintos ao colo, que dizia assim – “Se a morte estivesse à venda, eu comprava-a”. Inspirei-me também num dos jovens magrebinos que ao chegar a Ceuta, esfarrapado e faminto, recebido pela polícia, gritou para a televisão que os esperava na praia– “Adoro-te, mamã. Agora temos tudo”. Daí até ter colocado Edmundo Galeano, à mesa de família, com a mão decepada, enquanto o pai lia a carta que vinha de um Ministério anunciando a derrota da família, foi um curto passo. Este romance vive da realidade que vivemos nos nossos dias, em que tudo o que está longe está perto, e vice-versa. Ser homem ou mulher, hoje, significa ser vizinho, com tudo o que isso significa.

pequenoO tema da literatura é outra das fortes presenças. É um livro que revela o propósito criador de muitos autores: escrever para alterar o rumo da civilização. Uma certa vocação salvífica até…

LJ: Edmundo Galeano está a fazer a sua aprendizagem e sonha em voz alta sobre a criação literária sem conhecimento prévio. Não está informado das contradições que a questão envolve. Está em estado puro, desconhece a posição cínica que os escritores têm de tomar, sabendo que os livros que escrevem detêm um poder que se exerce de forma não mensurável, descontinuamente, enigmaticamente. Um poder fático, apenas. Talvez poder nenhum. No entanto, erguer uma figura como Edmundo Galeano permite regressar ao sonho grandioso de um poder efectivo. Talvez Estuário seja um livro de aprendizagem.

pequenoEscrever para mudar, para salvar…É um sentimento necessário para se conseguir escrever algo que se considere um livro?

LJ: A pergunta é embaraçosa. Mas é preciso ser-se sincero, de outra forma o nosso jogo não seria leal. Sim, no meu caso, sim. Enquanto escrevo um livro penso que ele não será inútil, não será anódino, que ele irá abrir os olhos a alguém adormecido, irá tocar num coração gelado, irá mudar uma parte do mundo, ainda que esse mundo seja só uma pequena parcela do território humano. Escrevo a pensar que tenho o poder de fazer esse milagre. E se penso assim é porque li livros ao longo da minha vida que foram salvadores, abriram-me portas para uma paisagem sem limites. Existe, ao menos, essa legitimação, para falar da minha ambição sem demasiada vergonha. Na verdade, em meu entender, se um livro não tem esse dom, então não passa de um monte de folhas de papel com letras.

pequenoA escrita pode ter um efeito catártico?

LJ: Dizem que sim, há sempre quem fale em escrita como terapia. Não me quero envolver nesse campo, não tenho competência. Pessoalmente, escrevo não para descarregar energias, recalcamentos, sofrimentos interiores compulsivos, mas para criar universos. Sento-me à mesa, diante dos cadernos e do computador, com alegria, um sentimento de triunfo sobre o nada que antecede o que está escrito. A minha tarefa consiste em ajustar as palavras ao sonho que as antecede.

pequenoÉ isso que a personagem Edmundo Galeano também procura com o acto de escrever, para além das razões associadas à sua saúde? Ou por estarmos perante uma família financeiramente refém, a escrita pode surgir como escape para uma liberdade que se perdeu? Escrever o que se quer porque não se pode fazer o que se queria…

LJ: Edmundo não escreve por catarse, pelo menos nunca o imaginei assim. Ele escreve porque descobriu, ao desenhar letras de forma lenta, que a mão dele, apesar de decepada, possuía a capacidade de desenhar mundos inventados através das palavras, e esse facto libertou-o. Ele passou a ser visitado pela esfera azul da criação. E tendo descoberto esse poder, lento, silencioso, redondo como os movimentos da sua mão, ele imaginou descrever um mundo desfeito para avisar os homens da sua eventual perdição, juntando um meio de salvação, como acontece com as crianças que precisam de atingir equilíbrio ontológico, e por isso sonham com a harmonia. Como disse, Edmundo é um escritor, antes de o ser, um escritor debutante, em estado puro.

estuariopequenoO que é que Estuário lhe acrescentou como autora e pessoa? Modificou-a de alguma forma?

LJ: Estuário é um livro coral, porque várias vozes, com vários tons, falam à vez, mas em simultâneo. Foi como se regressasse ao processo do meu primeiro livro, O Dia dos Prodígios. Também deixei, como então, que a espontaneidade andasse adiante do saber fazer. Esse regresso a uma espécie de sinceridade radical fez-me bem. Entreguei-me a uma espécie de cuidado descuidado, sem preocupação do efeito.

pequenoÉ antiga aluna da Faculdade de Letras de Lisboa. Veio para a Faculdade com 17 anos. O que recorda desses tempos?

LJ: Recordo aulas maravilhosas, com alguns professores excelentes que na altura não tinha capacidade de reconhecer devidamente. Fui aluna do Padre Manuel Antunes, do poeta Tomás Quim, de Jorge Dias, de Vitalina Leal de Matos, Jacinto do Prado Coelho, Peral Ribeiro, Lindley Cintra, Maria Helena Mira Mateus, Maria de Lurdes Belchior, Vitorino Nemésio, e a mais jovem de então, Maria Alzira Seixo. Foram anos cruciais, vejo-o agora. Na altura, porém, sofria uma certa decepção. Eu tinha a ideia de que a Faculdade de Letras haveria de me proporcionar uma abertura para a escrita, e as aulas, de natureza informativa e analítica, pouco contemporâneas, eram opostas ao que eu desejava. Escrevia à revelia das aulas. Foi preciso passar muito tempo para compreender que esses anos de formação e disciplina tinham criado uma base de leitura que iria ser útil para sempre.

pequenoSão vivências que a influenciaram.

LJ: Claro que sim. É muito curioso que a professora de Língua Francesa III, cujo nome injustamente não recordo, tenha sido quem mais influência exerceu nesse campo. Através dessas aulas, tive acesso aos existencialistas, sobretudo Sartre e Camus, e aos autores do nouveau-roman, Alain Robre-Grillet e Marguerite Duras. Li tudo com sofreguidão, mas compreendi que não queria escrever como eles, nem uns nem outros. Essa consciência da escolha de um outro caminho foi muito importante. Na Literatura Brasileira, descobri Machado de Assis, José Lins do Rego e Jorge Amado, que então se discutia muito. Na Literatura Espanhola, encontrei um livro que mudaria a minha vida, Nada, da Carmen Laforet. Lateralmente, por acaso, descobri Faulkner. Nessa altura, a minha escolha estava feita. Eu iria querer escrever sobre o mundo primitivo que eu conhecia e de onde vinha. Literariamente, tinha a porta aberta. Tudo isso aconteceu sob as colunas da Faculdade de Letras. Sempre que aí regresso, volto a uma casa materna de que nunca me separei.