"Alguém que obtém um emprego, não pelo mérito, mas por uma palavrinha do «tio», está sempre a mais"

Depois de ter publicado Os Pobres, a socióloga Maria Filomena Mónica acaba de publicar Os Ricos, livro no qual traça o retrato de várias personalidades e famílias portuguesas.

A alumna, licenciada em Filosofia pela FLUL, assume que, apesar da sua formação e do trabalho feito na área da sociologia, precisava de ir mais longe neste livro, entrando com "pinças" e deixando a "faca". Fortunas à parte, há mais características que podem definir aquilo que a autora considera como um "rico". 

Na conversa com o FLUL Alumni, o papel e influência da cunha, da Igreja e da Política não foram esquecidos.

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequeno "Muitos teriam pais mais ricos do que os meus, mas nunca reparei em tal facto (…) Só tarde percebi que o meu estatuto era o de uma híbrida social”. Porquê uma “híbrida social”? 

Maria Filomena Mónica (MFM): Porque tinha um pé dentro e, sem que na altura disso tivesse consciência, um pé fora. Ou seja, os meus amigos do clube da «Parada» de Cascais provinham, em grande número, da aristocracia de corte, ou seja, durante a Monarquia as suas famílias estavam ligadas ao Rei. A maioria possuía títulos nobiliárquicos, coisa que, mais uma vez, me passou ao lado, pois muitos usavam os títulos dos seus antepassados como se fossem apelidos (veja-se os Saldanha, os Asseca, os Lavradios). Como não ostentavam a riqueza, suponho que havia quem tivesse menos dinheiro do que a minha família. Nunca senti que não pertencia verdadeiramente ao «grupo». Só mais tarde, notei que o meu avô não era um Duque, nem a minha avó uma Marquesa. Não, não sofri com isso. Alem disso, aos 20 anos casei com alguém que descendia da grande nobreza, isto é, dos Marqueses da Ribeira Grande. E mantenho amizades com alguns amigos da infância. Sim, em grande medida, são diferentes dos outros ricos, mas não vale a pena estar a criticá-los por isso.

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Os apelidos continuam a contar na altura de obter um emprego, defende. Fala da cunha… O nome continua a ser uma porta escancarada ou cada vez menos aberta? 

MFM: Está hoje menos aberta do que dantes. Alem disso, as classes populares têm hoje um maior acesso à Universidade, pelo que agora há mais concorrência. Ter uma «cunha» nem sempre basta. Para mim, alguém que obtém um emprego, não pelo mérito, mas por uma palavrinha do «tio», está sempre a mais.

pequenoRefere-se ao “faro” para explicar que em Portugal este não é obrigatório para se enriquecer. Logo a seguir coloca o ónus na Política e na Igreja. É isso que conta no Portugal de hoje?

MFM: Em Portugal, foi sempre difícil aceitar-se a concorrência. Por muitas e variadas razões, entre as quais por ser um país pequeno, pobre e dependente. As grandes empresas habituaram-se, sob o Salazarismo, a ter a protecção do Estado, via o chamado condicionamento industrial e a protecção alfandegária. Quem quiser saber mais sobre isto, terá que ler o meu livro.

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Mas então o que é que hoje distingue um rico dos outros? 

MFM: O dinheiro, à cabeça, e ainda o status, ou seja, o prestígio que advém de se pertencer a uma família com uma linhagem antiga.

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Lembra o “clubismo” de espaços como o Turf ou o Tauromárquico. Recentemente, a filha de Américo Amorim (empresário que destaca no livro) afirmou, em entrevista ao jornal Expresso, que vai abrir um clube privado em Lisboa. Um clube que, diz, falta ao país... São as expressões do riquismo actual português a manifestar-se? 

MFM: Não faço ideia de como irá organizar o clube. Mas basta ser recente – e resta saber como irão ser escolhidos os sócios – para «valer» menos do que o clube Tauromáquico, por exemplo. 

pequenoDiz que precisava de uma "pinça" e não de uma "faca" para fazer este livro. De que forma a "pinça" serviu ou a "faca" fez falta? 

MFM: Falei de pinça, no sentido de que precisava de estar atenta a sintomas de pertença de classe, muitas vezes não perceptíveis a um observador comum ou a um historiador económico. Veja-se, por exemplo, o tipo de vocabulário usado. Ou a mobília da casa. A este propósito, leia-se o que o Ministro inglês A. Clark disse sobre o seu colega de governo M. Heseltine.

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Nesse sentido, concluiu que as famílias ricas não prezam diários nem reúnem memórias. Querem esconder, preferem apagar ou não estão despertas para a sua importância?

MFM: É um pouco de tudo. Muitas têm uma cultura deficiente, escrevem mal e nem sequer têm orgulho nos seus antepassados. Isto, no caso dos nobres. Os novos-ricos, por seu lado, tiveram que se dedicar a tempo inteiro às empresas que criaram, não tendo muitos deles oportunidade nem capacidades literárias para redigir memórias.

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No livro lembra o episódio da forma como Salazar entendia o poder da Coca-Cola, recuperando uma carta ao então responsável da multinacional na Europa. Revela bem o Salazarismo, carregado de medo. Considera a opção inteligente? 

MFM: A carta revela o que era o Salazarismo, um regime que se baseava, não só nas Forças Armadas e na Igreja, mas na existência de uma campesinato pobre que nunca seria capaz de se erguer contra o poder. A declarada opção de Salazar de ter diante de si um país «pobre» foi catastrófica.

pequenoCompara, também, os velhos contratos de tabaco às Parcerias Publico-Privadas (PPP). 

MFM: Em ambos era e é o Estado que estipulava e estipula as «rendas» a dar aos concessionários. No caso dos tabacos, era ainda mais flagrante do que nas PPP, visto que naquele, que funcionava em regime de monopólio, era a via real para alguém se tornar milionário.

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Depois de Os Pobres e Os Ricos, há uma trilogia a completar ou não irá por aí? 

MFM: Não, não vou por aí, isto é, não vou escrever sobre as classes médias. Estou ainda a meditar sobre o que fazer a seguir. Se a minha saúde me deixar.