"Um aluno médio de 15 a 17 anos tem sérias dificuldades em ler e interpretar um texto medianamente académico"

É com um livro com mais de 200 palavras que ajudam a falar e a escrever melhor que Sérgio Luís de Carvalho quer contribuir para a melhoria do léxico dos portugueses.  

O alumnus, licenciado em História pela FLUL e professor de História de Arte do ensino secundário, lembra o papel das escolas nessa aprendizagem e nota diferenças nas gerações mais recentes de alunos: “a diminuição do léxico é acentuada”, revela. 

Mais do que estabelecer estratégias, o autor de Na Ponta da Língua, recentemente publicado, defende que a verdadeira aprendizagem se faz agora fora dos muros das instituições de ensino.

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoComo é que se pensa e se faz um livro que fala de palavras?

Sérgio Luís de Carvalho (SLC): Foi uma proposta do editor, que pretendeu replicar em Portugal experiências afins que têm surgido no mundo anglo-saxónico. Apesar de inicialmente eu me ter achado pouco capaz para este projecto, julgo que, no fim, não levei a nau a mau porto… O editor deu-me um voto de confiança e, enfim, a coisa lá se fez. Podemos usar a frase batida segundo a qual, em relação a este projecto, eu 'primeiro estranhei e depois entranhei'.

pequenoOs portugueses têm pouco léxico?

SLC: Tem havido um decréscimo nos derradeiros anos. Noto isso de forma acentuada nos meus alunos do ensino secundário. Um aluno médio de 15 a 17 anos tem sérias dificuldades em ler e interpretar um texto medianamente académico. Isto é, um manual de História de Arte, por exemplo. A expressão escrita, então, é muito fraca. Há dez anos eu permitia-me usar nas aulas um léxico que hoje nem sonho poder usar. E nem quero recuar mais em termos temporais.

18447509 1656740301021643 4478901890170325851 npequenoEm Portugal fala-se mal?

SLC: Provavelmente não estamos melhor ou pior que outras nações. Seja como for, a diminuição do léxico é acentuada, como se disse, com o consequente preço em termos discursivos. E há coisas curiosas. A segunda pessoa do plural está a desaparecer rapidamente. Já não se diz nós vamos ao cinema, mas a gente vai ao cinema. Outro exemplo: os nossos alunos raramente dizem eu levo-o a casa ou eu empresto-lhe o livro. Em vez disso dizem eu levo ele a casa ou eu empresto o livro a ele. Já mal se usa a conjugação de um verbo no futuro: eu escreverei, eu farei, eu viajarei; em vez disso usa-se eu vou escrever, eu vou fazer, eu vou viajar. O mais preocupante é que isto não é apenas a consequência ou o fruto de uma estruturação deficiente do pensamento por parte do falante; tudo isto condiciona o próprio pensamento. Nós não pensamos, nós somos pensados pela linguagem, como digo no livro. Se a linguagem é fraca, o pensamento não pode ser grande coisa.

pequenoComo professor, como avalia o papel das escolas no ensino da língua portuguesa? 

SLC: As escolas têm tentado muitas coisas. Nem sempre de forma coerente, nem sempre de forma consequente, por vezes casuisticamente, mas sempre em esforço: mais horas de Português, mais horas de apoio a Português, concursos nacionais de leitura, clubes de leitura, concursos de declamação e/ou de poesia, clubes de debate, incentivos nas bibliotecas escolares, oficinas de escrita, palestras de escritores nas escolas… Eu próprio já propiciei e participei em várias destas iniciativas. Contudo os resultados são escassos. As verdadeiras aprendizagens fazem-se cada vez mais fora dos muros da escola. O facto de constantemente se pressionar as escolas e os docentes para se terem taxas de reprovação tendencialmente nulas (sobretudo no ensino básico) redunda num constante nivelamento por baixo para se cumprir tal objetivo. Em derradeira instância é um problema global e eu sinto que as escolas navegam hoje contra a corrente, combatendo a massiva influência do universo das redes sociais e afins.

pequenoPorquê organizar as palavras por período e não alfabeticamente? É o lado de Professor de História a falar mais alto?

SLC: Provavelmente, será o lado professoral, sim... Depois, é verdade que uma entrada por mera ordem alfabética me pareceu um facilitismo intolerável (como nos exemplos anglo-saxónicos, aliás). Associar palavras às épocas correspondentes permitiu-me (e ao leitor) uma análise mais diacrónica e - claro - historicista. Logo, mais cultural.

capa na ponta da linguapequenoQue período da história lhe exigiu mais investigação?

SLC: Curiosamente foram as épocas mais recentes. Para as épocas clássica e medieval, há maior cópia de informação, tanto mais que essas palavras têm uma raiz mais cultural, mais académica, mais livresca e mais eclesiástica. Logo, são mais facilmente discerníveis e detectáveis. Nas expressões mais recentes há mais variáveis, nomeadamente estrangeirismos, influência de termos técnicos, etc.

pequenoDas mais de 200 palavras que constam na obra, qual a que lhe merece maior destaque? Porquê?

SLC: É difícil escolher… Mas confesso que há uma palavra que me tem azucrinado o espírito nestes tempos de turismo e de bolha no mercado habitacional. Essa palavra é gentrificação… Porquê? Bom, é ler os jornais e ver os noticiários.

pequenoHá menos de um ano, viu um livro seu para crianças traduzido para inglês. Como decorreu esse processo?

SLC: Foi um processo curioso, levado a cabo pela respetiva editora portuguesa. O livro saiu nos EUA, na segunda metade de 2017, sem que eu soubesse, apesar de - devo dizê-lo - a editora ter a minha autorização para tentar essa tradução desde 2014. Entretanto os anos passaram e eu nada mais soube do processo. E só soube do facto de o livro ter sido publicado nos EUA quando um jornalista português me ligou para casa em agosto de 2017 para eu comentar. Foi uma surpresa, como se imagina. Uma boa surpresa, claro.

pequenoTem andado também pelos caminhos da ficção. O que anda a preparar?

SLC: De momento estou a trabalhar numa gravura do pintor alemão Durer que é muito cara a Portugal e que tem uma história… interessante e bizarra. Veremos como correrá!