"Caminho para o nada do esquecimento. Não me considero um grande romancista"

Com cerca de 60 títulos publicados, num puzzle de escrita que cruza ficção, ensaio, crítica e dramaturgia, Miguel Real acaba de lançar o romance Cadáveres às Costas.   

Com o FLUL Alumni, o alumnus do curso de Filosofia da FLUL falou sobre o acto da escrita, teceu considerações sobre si próprio enquanto autor e sobre o brexit enquanto ensaísta. Porque não esconde influências várias de outros escritores, Miguel Real, pseudónimo literário de Luís Martins, sabe para onde vai e onde não quer permanecer. Fátima está presente no novo romance, mas o retrato satírico de Portugal diz ser ainda mais evidente. 

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoNo seu mais recente romance Cadáveres às Costas revisita as aparições de Fátima. O tema surgiu-lhe como aparição ou reflexão?

Miguel Real (MR): Como reflexão, ou seja, integrando as vertentes sobre a cultura portuguesa que tenho estudado, neste caso a diferença entre Devoção e Superstição. Fátima é, hoje, o maior centro de idolatria supersticiosa em Portugal. Sem negar nem afirmar a realidade das aparições de 1917, foi o que se quis dizer ao leitor – Fátima, o altar da superstição de um povo que, não se realizando desde o século XVII, desloca messianicamente para um imaginário Céu a hipótese de realização. Neste sentido, “Fátima” é um processo recorrente em Portugal desde o século XVI, faz parte integrante da cultura de um povo que “não se cumpre” depois de ter descoberto que os continentes eram ilhas de um arquipélago chamado Terra.

pequeno No romance há uma crítica à vida nacional que é, ao mesmo tempo, um retrato do país. 

MR: Sim, Cadáveres às Costas é um retrato satírico do Portugal de hoje. Denuncia-se brincando, usa-se processos jocosos, a caricatura, o envolvimento social vetusto das elites (o quarto de d. Consolação, as duas criadas velhas de preto), a multidão aturdida que rodeia o solar-palacete aquando das aparições, as próprias aparições (Lúcia de Vidente a Aparecida), as recordações traumáticas da Guerra Colonial, os recursos financeiros ilegais dos Prestrêllo, hoje como ontem (a escravatura), o pícaro do jovem narrador…

miguel realpequeno Quanto do Carlos da Maia de Eça existe neste jovem que aluga um quarto nesse palacete do Parque Eduardo VII, que quer escrever um romance mas acaba a viajar para Paris?

MR: Há muito de Eça em Cadáveres às Costas. A estrutura do romance, o desenho das personagens, o centro da intriga, a denúncia das elites, a impossibilidade de mobilidade social desde o século XVII, a visão irónica e satírica… Sou um leitor compulsivo de Eça. É, portanto, normal a influência. Como é normal a influência de Saramago (os longos parágrafos, uma escrita barroca) ou de Raul Brandão (sobretudo nos episódios da Guerra Colonial), mas também da visão decadentista dos sonetos de Antero Quental ou do pessimismo civilizacional de Oliveira Martins. 

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 No livro acaba por se autonomear, quando Sancha se oferece para dar a conhecer ao critico literário "Luís Martins" a obra que o jovem escritor está a produzir. 

MR: É uma característica dos meus romances – aparece quase sempre um “Luís Martins”. Constitui expressão literária do processo esquizofrénico da minha própria existência.

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É, também, crítico literário. A escrita do outro funciona como barreira ou trampolim para a sua criação literária?

MR: Como trampolim. Tudo o que leio me influencia, absorvo o que os outros escrevem e transformo ou recrio. Sou deveras permeável à escrita alheia, mas não a copio. Absorvo a ideia descrita ou narrada e transformo-a. 

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No puzzle em que se constitui a sua obra, e com cerca de 60 títulos editados, para onde caminha o escritor Miguel Real?

MR: Para o Nada do esquecimento. Outros ficarão na história do ensaio e do romance. A minha qualidade é média e a História é implacável para os medianos. Não houve um plano, houve uma determinação, um acto originário da consciência, e os livros foram-se sucedendo um pouco circunstancialmente, ao abrigo de convites para participação em congressos académicos, em viagens culturais a África, à América Latina, à Índia,... Mas hoje, olhando para trás, percebe-se terem sido constantes. A exploração de temas ligados à filosofia, uma escrita de natureza estético-ficcional e, ainda, sobre questões vinculadas à identidade ou cultura nacional. Não me considero um grande teórico da filosofia e da identidade cultural portuguesa, como não me considero um grande romancista. Mas também não me vejo, nestas vertentes, como habitando em vales medíocres e lamacentos. Considero-me – apenas – como um autor mediano, não genial nem medíocre, e fraco se comparado com os grandes (em Portugal, José Saramago, António Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço ou Fernando Gil, por exemplo), ainda que possuidor de qualidade suficiente para ser lido por uma imensa minoria de leitores.

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Em que medida a Ficção e a Filosofia se tocam ou se afastam?

MR: A Ficção é a Filosofia transmitida por sentimentos e paixões e a Filosofia é a Ficção idealizada por conceitos. Porventura, a Filosofia será a suprema Ficção, desencarnada (sem as categorias de espaço e tempo) e universalizante. Mas a mais perfeita das ficções é, indubitavelmente, a Religião, a substituta da antiga Mitologia. Tão perfeita que passa por discurso verdadeiro. Tenho por hábito cruzar estas três dimensões, tanto nos romances como nos ensaios. Por exemplo, no conjunto das “Novas Teorias” (sobretudo nas relativas a o Mal e o Pecado). 

cadaveres as costaspequeno

Qual o lugar da poesia em Miguel Real enquanto leitor? Como escritor preferiu não caminhar por aí.

MR: Leio muito poesia, mas sou incapaz de a compor. Quando o fiz (na adolescência e juventude), depressa percebi, em comparação com a de verdadeiros poetas, não ter a mínima qualidade.

pequenoDe que forma o Luís Martins dá lugar a Miguel Real? Existia um Luís Martins descontente ou um Miguel Real com ânsias de se dar a conhecer?

MR: “Miguel Real” nasceu no dia em que o Luís Martins se zangou consigo mesmo, dando conta disso em Carta de Sócrates a Alcibíades, seu vergonhoso amante (1987), o seu primeiro livro. O Luís Martins era marido, pai e professor de filosofia no ensino secundário. O Miguel Real separou-se do Luís Martins, achou que não era suficiente ser como todos são, e, aos 34 anos, começou a escrever segundo três dimensões – a da ficção, que iniciara ainda como aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, a da investigação sobre a cultura portuguesa e a da filosofia. 

pequenoDepois de ter escrito O Último Europeu, agora que temos o Brexit a aproximar-se, como olha para a “velha Europa”?

MR: Espero sinceramente que o descrito sobre a “velha Europa” n'O Último Europeu nunca se realize, uma sociedade guerreira, governada por clãs territoriais, sem serviços públicos, reatando a antiga escravatura. Para falar verdade, penso que estamos num equilíbrio tenso entre a “velha” e a “nova” Europa – no século XXI, tanto podemos estar numa como em outra, depende das políticas que adoptarmos no nosso século. Claro que a descrição da “nova Europa” no romance obedece ao registo utópico como a “velha Europa” obedece ao distópico. São, portanto, visões extremas, até caricaturais, que, em si, nunca se realizarão. Correspondem, portanto, a tendências históricas e político-sociais que, estas sim, poderão realizar-se doravante.

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O que recorda da FLUL?

MR: Uma bela, plural e agitada instituição do conhecimento entre 1973 e 1979. De tudo, dela aprendi que não se pode fingir que se sabe, que é preciso estudar e investigar muito, imenso, para se entrar no reino do saber. E que há professores e alunos, ontem como hoje, que fingem saber mais do que sabem. 

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Há um Professor que recorda em especial...

MR: Padre Manuel Antunes, de quem fui aluno durante quatro anos. Este ano comemora-se o centenário do nascimento de Padre Manuel Antunes e sinto-me honrado por pertencer à Comissão organizadora de um congresso internacional sobra a sua vida e obra.