"Com este romance pretendi medir a espessura da nossa memória histórica"

O homem comum é o grande protagonista do romance de estreia do alumnus Rodrigo Ramos, que escolheu o tema das Invasões Francesas para escrever Terra de Sangue.   

O autor, que se formou em Línguas e Literaturas Modernas pela FLUL, reconhece o seu interesse pessoal por este episódio da História de Portugal e diz que o romance deve, ao mesmo tempo, ensinar e entreter. Com o FLUL Alumni, o alumnus Rodrigo Ramos falou sobre o acto de escrever, a História e a faculdade: "o cânone literário que a FLUL fomenta é o maior instrumento para quem quer ser ourives de palavras".

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoEste é o seu romance de estreia. Foi um “parto” difícil ou a história surgiu de forma natural?

Rodrigo Ramos (RR):  Parti da premissa de que a História é o resultado de um esforço conjunto de pessoas anónimas. Olhei para um evento histórico determinante - e já sobejamente retratado na literatura nacional - e procurei descobrir que histórias havia por detrás da História. Surgiram-me estas personagens, poderiam ter-me surgido outras. A partir do momento em que as soube escutar, o caminho abriu-se à minha frente, não tive de o ir rasgando, de foice em punho. Nascida a premissa, a narrativa foi-se desenvolvendo e espraiando a seu bel-prazer, como uma árvore que se vai fazendo ao céu, até que chega um ponto em que pára de crescer e está pronta, assim fica. Também este romance foi crescendo sozinho, como se tivesse uma vontade própria para existir, até que chegou o momento em que me fez saber que estava terminado. O processo doloroso só veio depois, aquando das releituras, num desejo de emendar que se parece prolongar ad infinitum. Ainda hoje não consigo reler o romance sem ser de lápis em riste, é uma maldição. Creio que o mais difícil foi a eliminação de algumas passagens. É muito difícil para mim cortar a palavra nascida, mas é imperativo fazê-lo, porque daquela que se retira uma outra brotará, mais forte, em maior consonância com o texto. De qualquer forma, demorei uns três ou quatro anos a escrever o livro. É preciso ter paciência, não forçar a escrita, um romance precisa de tempo para se formar.

pequenoPorquê a escolha pelo tema das Invasões Francesas?

RR: É um período muito interessante da História de Portugal. Desde logo porque foi a última vez que o território português esteve ocupado por uma força estrangeira hostil, de cuja circunstância resultou uma guerra; depois porque - e creio que poucos se darão conta - esta foi a primeira vez que a França napoleónica foi derrotada numa guerra. Já o tinha sido na batalha de Trafalgar, em 1805, contra a armada inglesa de Lord Nelson, mas a derrota numa guerra, só lhe conheceu verdadeiramente o sabor aqui. Vários historiadores internacionais são unânimes em considerar a derrota da França na Rússia, em 1812 - numa época brilhantemente retratada no ilustre romance Guerra e Paz, de Tolstoi -, como o princípio do fim do império, que de facto, acabou por ruir. Mas a verdade é que antes de Napoleão ser derrotado lá, foi cá. E também por isso cumpre perguntar quem eram aqueles portugueses, que palmilhavam quilómetros e quilómetros de terra, camponeses humildes, tão ignorantes da geografia de Portugal para lá das aldeias de onde vinham que, se fossem dispensados para regressar a casa, não saberiam que caminho tomar, não sabiam onde era a casa, e seguiam em fila para se baterem por razões que não compreendiam perfeitamente. E, por contraste, quem somos nós, hoje? O romance histórico ajuda a contextualizar o passado e também a compreender o presente. Escrevi-o porque pretendi saber de que matéria histórica somos feitos, ou melhor, pretendi medir a espessura da nossa memória histórica.

pequenorodrigo ramos

O elemento “terra” apresenta alguma utilização nos títulos da literatura relacionada com este tema. A dimensão territorial inerente às invasões francesas esteve também na origem do título? Como foi o processo de escolha?

RR: Terra de Sangue tem uma temática portuguesa muito acentuada, tem muita portugalidade. E não podia ser de outra maneira, esta luta nunca foi apenas pela preservação do território, mas de uma identidade muito própria, que na época estava mais virada para o hemisfério sul do que para a Europa. É verdade que não fomos capazes de construir o quinto império de que falava Pessoa, mas sempre soubemos defender as linhas do nosso território, muitas vezes através de alianças com nações mais poderosas, como a Grã-Bretanha. É bom recordar que somos um dos países com as fronteiras mais antigas do mundo. Há uma relação quase visceral com a terra, que alimenta o corpo e a identidade e que, também por isso, sustenta uma relação ambígua com o poder. Esta terra tinha já em gestação o país que hoje conhecemos e sobre relações de poder, creio que o livro dá boa conta, ao colocar frente a frente a força bruta do maior a pretender estrangular a ousadia do menor, o qual, não obstante, soube resistir. O meu desejo é que o livro, para além do valor literário, possa servir de testemunho dessa resistência.

pequenoQue pesquisa fez para conseguir dar consistência de romance a um evento histórico marcante?

RR: Houve naturalmente uma pesquisa intensiva antes e durante o processo de escrita. Ainda assim, resisti a colocar qualquer entrada bibliográfica nas últimas páginas. Desde logo, para fugir aos romances denominados kitsch, em que os autores validam as informações veiculadas no texto com longas listas bibliográficas. Na verdade, essas listas não são de todo importantes. Não cabe ao romancista dizer "isto foi assim". Esse é o papel do historiador e mesmo assim nem este o cumpre com exactidão, porque a objectividade pura não existe. Mas é o historiador que tem de passar o teste da verdade histórica, ao passo que o romancista tem de passar um outro teste, o da estética. O romance deve ensinar, como se compreende, mas não devemos ignorar que o princípio básico da literatura, desde o período clássico e na sua vertente oral e tradicional, era o entretenimento. Não é possível escrever um romance histórico sem uma pesquisa aprofundada, mas quero que o leitor se aperceba dela enquanto lê, nas linhas da narrativa, e não num rol de arrogância final. Agora, importa também ter presente que nenhum contador de histórias conta a mesma história da mesma maneira; uma história é um rio, com os seus afluentes e defluentes, que segue o curso que muito bem entende. Este rio, mesmo se estiver no mesmo lugar durante milhares de anos, nunca é exactamente o mesmo, porque a água que passou nunca mais passará. Assim, também eu contei esta História com as minhas palavras e com a minha voz. No fundo, o que fiz foi apresentar uma proposta ao leitor, uma possibilidade da História, que até pode ser irreal ou improvável, mas que eu não tenho de tornar possível, porque a literatura nunca poderá ser uma cópia perfeita do real, nunca o conseguirá substituir, nunca será real; não consta que O Banquete, de Platão, por mais bem escrito que esteja, tenha alguma vez matado a fome a um leitor! O que importa não é o real, é a aparência de real, a verosimilhança.

pequenoFilipe seguia dentro de uma jaula com quatro rodas, instigadas por duas mulas estafadas, conduzidas por uma criatura nauseabunda que cuspia gosma esverdeada e coçava os sovacos com fervor”. As descrições ajudaram-no a tornar a história mais plausível?

RR: Há uma diferença, talvez subtil, entre contar uma história e mostrá-la. Para a contar, fragmenta-se a narrativa em várias acções, com as quais se alimenta o leitor. Ou seja, a narrativa é levada ao leitor, que a recebe, na qualidade receptor passivo. Mostrar, implica fazer o inverso, convidar o leitor a deixar-se embrenhar na narrativa e esperar que ele concorra para a compreensão do texto com as suas próprias experiências. Pelas descrições, apelamos aos diferentes sentidos do leitor, fazemo-lo recordar do cheiro da terra quente, do som das rodas de uma carroça sobre as pedras de uma rua de aldeia, o protesto metálico do ferro a ranger nas suas junções, etc. Claro que há excelentes escritores na literatura nacional e internacional que são sintéticos e deixam espaço ao leitor para completar a informação que falta com a sua imaginação. Mas eu acredito que é pela descrição que o convocamos a ser um constituinte efectivo da comunicação, a ser co-autor da história, porque, ao recordar-se das suas próprias experiências, acaba por transportá-las para dentro do livro. Ao entrar em descrição, eu abro um diálogo com o leitor e fico a aguardar que ele me comunique de volta as suas sensações, que dê continuidade ao discurso.

pequenoÉ perceptível que quis dar um destaque concreto à população, nomeadamente, à sua resistência.

RR: Sim. A História é uma tela, sobre a qual eu pinto o meu próprio quadro. Ora, tal como a tela por detrás de um quadro é só uma tela e não sabe que é uma pintura, também a História de Portugal por detrás das minhas personagens não sabe que é História, são apenas eventos passados, ocorrências sobre as quais coloco três personagens, que se conhecem em situações de derrota pessoal, mas que descobrem como fazer dessas derrotas alavancas para a acção. Na verdade, creio que o protagonista deste romance não é nenhuma das três personagens centrais. A personagem principal é o homem comum. Estes homens e mulheres de 1808 são iguais a nós, somos nós. Evidentemente, temos melhores meios de transporte e de comunicação, melhor tecnologia, vivemos num país aberto à Europa e ao mundo, mas somos exactamente os mesmos na alegria, na tristeza e na dor. O que quero dizer é que há muitas diferenças acessórias, mas naquilo que é extremo, somos iguais, sentimos o mesmo. E é precisamente este homem comum que é preciso resgatar das sombras da História. Os reis já têm o seu panteão real e o seu lugar cativo nas crónicas, nas cantigas e nos romances, mas é ao homem comum que devemos o que hoje somos.

pequenoÉ assim que surge a personagem Joana?

RR: A Joana vive o horror e, em virtude disso, entrega-se à guerra de forma intuitiva, sem reservas. Não o faz por não ter medo ou por se achar invencível. Fá-lo porque, embora não o seja, ela está presa a um tempo, a um espaço e a uma circunstância próprias, que hoje esquecemos. A partir de 1808, Joana ajuda-nos a fazer uma auto-avaliação do homem contemporâneo e da sociedade em nos inserimos. Actualmente, vivemos num simulacro de paz e creio que perdemos alguns valores importantes, como uma certa capacidade de mobilização, ou coragem para nos batermos por algo maior do que nós. A literatura e a vida seguem juntas, palavra a palavra, na procura de um espírito que já não existe, ou está muito adormecido. Portanto, se há alguma ética no romance, é a ética da responsabilidade. Não apenas Joana, mas também Lourenço e Filipe são portadores dela, porque compreendem que só se bate pela paz quem não a tem. A Europa vive o maior período de paz da história da humanidade, mas para isso tivemos de ultrapassar duas guerras mundiais e mais um sem número de conflitos diplomáticos. Para ter paz é preciso primeiro fazer a guerra e depois saber sair dela.

terra2pequenoFoi aluno da FLUL na licenciatura em LLM. O que recorda desses tempos?

RR: Recordo-me perfeitamente da FLUL, do saudoso Pavilhão Novo, que era na verdade um verdadeiro forum romanum de encontros sociais, os corredores amplos, as escadas que nunca subíamos nem descíamos sozinhos porque sempre encontrávamos um sorriso ou um cumprimento em sentido contrário. Refiro-me à infraestrutura porque também ela é feita de pessoas; o Pavilhão Novo, por exemplo, era feito de cheiro a café e de alaridos descontraídos, a escadaria principal tinha degraus de estudantes estendidos ao sol, pelo átrio ecoavam vozes, em ambição ou desilusão e foi também, em tempos, feita de mim. Hoje, para uma universidade centenária, a minha passagem de pouco ou nada vale, mas para mim, a FLUL inscreveu-se no meu código genético, é a minha casa académica, é um abrigo. Ainda vou algumas vezes à biblioteca, ler ou trabalhar um pouco, quando tenho oportunidade. Revisitar o passado é recuperá-lo para os nossos dias e gosto de me abandonar naquelas memórias, em que conhecia praticamente todas as pessoas e todos os recantos. Hoje, não conheço ninguém, mas ainda assim não estou sozinho. Marco encontro com essoutro que eu fui em tempos e ficamos os dois a conversar, a coexistir num espaço que nos é comum. Há uns tempos, passei um olhar curioso pelos cursos e pelos planos de estudos e confesso que reconheço pouco da minha faculdade. Bolonha chegou pouco depois de eu sair e foi um furacão que revolucionou os estudos académicos. Ainda assim, os professores persistem, o que me faz acreditar que a exigência é a de sempre, a qualidade é a de sempre e, para quem teve o privilégio de percorrer aqueles longos corredores, sabê-lo é um conforto.

pequenoEm que medida a sua formação na FLUL o influenciou e o fez despertar para a escrita?

RR: Lembro-me de pensar, quando entrei na FLUL, que era muito fácil fazer amigos, mas muito difícil mantê-los, porque nas primeiras semanas conheci várias pessoas com quem criei uma boa relação e que, ao fim de pouco tempo, decidiram mudar de curso ou mesmo de universidade. A explicação pouco variava: no curso de Línguas e Literaturas Modernas, lia-se muito, demasiado. Seis ou sete cadeiras, cada qual a indicar um livro por semana. Não sei bem quais eras as expectativas destes alunos, mas não era bem isso que esperavam encontrar. Sempre me causaram algum pasmo os estudantes de literatura que não gostam de ler. Pois claro que é importante ler, é pela literatura que desenvolvemos o nosso sentido humanista, que nos formamos enquanto cidadãos, que nos apercebemos do outro e aprendemos a compreendê-lo. Há muitas vozes a confluir na literatura, muitas vezes dissonantes e é pelo meio delas que vamos encontrando o nosso caminho e a nossa própria voz. Primeiro nasce a vontade de ler e só depois há-de surgir a vontade de escrever. Quem não lê não pode ser bom escritor. A FLUL foi determinante, neste aspecto, porque embora eu fosse já um ávido leitor, foi lá que me pus em contacto com obras incontornáveis da história literária. Por exemplo, já tinha lido Platão, Kant ou Nietzsche, mas nunca tinha lido a Poética, de Aristóteles. E ninguém devia escrever um romance sem primeiro passar por ela. Gostava muito de Vergílio Ferreira, Saramago, Mário de Carvalho, mas não conhecia a obra de David Mourão-Ferreira, José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís, Jorge de Sena e tantos outros. O cânone literário que a FLUL fomenta é o maior instrumento para quem quer ser ourives de palavras.