“É estranho que Goethe nunca tenha merecido uma monografia em Portugal”

João Barrento, professor e antigo aluno do curso de Filologia Germânica da FLUL, dedica a Goethe um estudo aprofundado da sua obra e vida em Goethe – O Eterno Amador.   

O livro traça um retrato de Johann Wolfgang von Goethe, das tensões e polaridades daquele que é um nome incontornável da literatura alemã. Barrento diz que sobre Goethe lhe interessou, sobretudo, o pensamento.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoPorquê só agora uma monografia sobre Goethe em português?

João Barrento (JB): A "Germanística" portuguesa sempre se ocupou mais deste autor maior da literatura alemã em termos de algumas traduções, mas sobretudo pela necessidade incontornável de o tratar nas aulas. Mas não deixa de ser estranho que um dos autores mais presentes entre nós desde o século XIX nunca tenha merecido uma monografia que dê conta da sua obra e vida.

pequenoTraduz do alemão. Que peso tem o seu trabalho de tradutor na opção pela investigação mais profunda sobre a vida e a obra de Goethe?

JB: As duas coisas não se confundem, nem interferem directamente uma na outra. A minha ocupação mais sistemática com Goethe deveu-se essencialmente à grande edição de obras que coordenei no início dos anos noventa, para o Círculo de Leitores, que obrigou a traduzir e prefaciar nove volumes com o que me pareceu na altura ser o essencial da obra deste autor. Esta monografia nasce daí e de alguns outros momentos em que, por razões diversas, me ocupei de Goethe.

barrentopequenoEste é um retrato pessoal e literário de Goethe, mas o peso da dimensão literária é mais evidente do que o pessoal.

JB: A intenção nunca foi a de fazer uma biografia de Goethe, género para o qual não me sinto vocacionado. Interessa-me sempre mais o pensamento ou a escrita do que a vida, mesmo em autores como Goethe, em que a obra está de facto fortemente ligada a momentos particulares da vida do autor e da história do seu tempo.

pequenoPorque é que a aproximação Goethe deve ser “criticamente cautelosa” como classifica?

JB: A expressão que uso tem a sua razão de ser, se não quisermos cair na glorificação pura e simples de uma figura sempre vista como «olímpica», mas que na sua natureza e no seu percurso humano e político – que também teve, e não foi de somenos importância para a obra – é atravessada por muitas contradições. O que em si mesmo não tem de ser visto como traço negativo, mas entendido antes como algo que talvez seja próprio dos grandes génios, que sabem explorar produtivamente as tensões, as polaridades, a complexidade do ser humano e do fazer artístico.

pequenoGoethe é um daqueles casos em que para conhecermos a obra temos que conhecer o homem?

JB: Conhecer a obra não implica conhecer o homem e a sua vida. Qualquer obra de Goethe tem uma dimensão estética, humana, histórica, que fala por si, como tem de ser. Acontece que em algumas dessas obras — o Werther, muita da poesia, a Viagem a Itália e outros diários, até a obra científica – o fundo biográfico é importante como referência que pode explicar o próprio nascimento da obra, mas não é decisivo para se chegar à sua natureza intrínseca.

pequenoGoethe o eterno amador, mas também sedutor, como algumas mulheres a ele se referiam. Havia um lado hedonista em Goethe? Como é que se manifestava?

JB: O subtítulo que encontrei – «o eterno amador» – vem de um pequeno poema em que o autor se distancia de escolas e «Ismos» para se definir como «diletante» no melhor sentido da palavra, como «amador» dos homens e das coisas do mundo. Dos homens e, é certo, de algumas mulheres que o acompanham e que foram importantes também para o nascimento de algumas obras: os amores de juventude (presentes na poesia), o amor impossível que dá origem ao Werther, a relação ambígua com Charlotte von Stein em Weimar, o casamento tardio com o seu «pequeno Erotikon», Christianne Vulpius… O hedonismo narcísico será um traço quase natural em alguém que teve uma carreira ascensional, literária e também política, que sempre acreditou em si e nas suas capacidades criativas, e que por isso, nos últimos anos de vida, e por diversas vias, se preocupa em preparar a sua posteridade.

goethe o eterno amadorpequenoHá várias contradições na personalidade e na obra de Goethe. Era um homem de opostos, de uma certa polaridade?

JB: A polaridade é um dos princípios que explicam a personalidade, e sobretudo a obra múltipla deste génio camaleónico. Mas talvez o mais significativo a este respeito seja o facto de Goethe nunca se deixar dilacerar por essas contradições vivas que alimentam a sua acção e criação, mas, pelo contrário, ter a capacidade, numa dialéctica já hegeliana, de as superar, conciliando opostos. A conciliação dos opostos poderia ver-se, de facto, como o traço dominante da sua obra e do seu agir.

pequenoConsidera que Goethe foi mais resultado da época em que viveu, de profunda mudança no pensamento, ou foi mais desencadeador dessa mudança? Ou seja, Goethe é resultado ou origem da mudança?

JB: Penso que Goethe teve, como poucos grandes clássicos, essa dupla capacidade de ser um mar que acolhe muito do que se pensou e escreveu desde os Antigos, um grande momento de síntese, portanto, e ao mesmo tempo uma fonte aonde muito do que veio depois dele foi beber – em particular com obras maiores como o Fausto, verdadeiramente inaugural (apesar da tradição que vem do século XVI), e que representa um grande rio que continuou a correr até aos nossos dias. Goethe gostava de se ver como um autor que não inventou nada, grande receptor e assimilador de tradições, mas o facto é que é também um grande inventor ou reinventor de géneros e formas, e inovador, não apenas no âmbito literário, mas também no científico (na óptica, na botânica, no pensamento morfológico…).

pequenoComo tem sido a recepção de Goethe em Portugal ao longo dos anos?

JB: Como se pode ver pelo apêndice que fecha o meu livro – «Goethe em Portugal: Momentos da sua recepção» –, a recepção deste autor entre nós é uma das mais produtivas, desde as primeiras traduções e adaptações do Werther, no início do século XIX, até romances como o Doutor Fausto, de António Vieira, nosso contemporâneo. O Fausto é certamente a obra mais presente nesse processo de recepção, juntamente com a poesia traduzida, nalguns casos com dezenas de versões do mesmo poema. O Fausto desencadeou mesmo no século XIX, a partir da tradução de António Feliciano de Castilho, em 1872, uma «questão» e uma polémica (a «Questão do Fausto») que integram a grande discussão, reveladora do conflito de mentalidades na vida nacional desencadeado então na chamada «Geração de 70», e que ficou conhecida por «Questão Coimbrã».