"Quase sempre a memória colectiva é a memória construída pelo vencedor"

A história estava por contar e o antigo aluno da FLUL Ribeiro Cardoso dá-lhe voz no livro O 25 de Novembro e os Media Estatizados: como e porque foram afastados mais de 150 trabalhadores da comunicação social estatizada de Lisboa em 1975.    

O FLUL Alumni falou com o alumnus, que se licenciou em Filologia Germânica pela FLUL, e é jornalista profissional desde 1971. Diz que tem uma obsessão pela memória colectiva e que a ignorância em relação a este momento da história e dos média em Portugal era notória.

Ribeiro Cardoso fala de episódios concretos, apontando os nomes envolvidos. Para que não se esqueça algo que, diz, muitos não querem lembrar.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoQuando começou a investigar para o livro, a percepção de que estava muita coisa por revelar sobre os acontecimentos de há 42 anos ainda se adensou mais?

Ribeiro Cardoso (RC): Aprofundou-se, sem dúvida. Ao reler tudo o que os órgãos de comunicação social registaram na época, ao consultar os debates que sobre a matéria se verificaram na Assembleia da República, ao ler os numerosos processos existentes nos Tribunais e respectivas sentenças e, sobretudo, depois de ter entrevistado muitos dos 152 trabalhadores da comunicação social que na época haviam sido defenestrados sem dó, sem piedade, sem culpa formada, sem processos disciplinares e apenas através de listas ad hoc forjadas tempos antes por motivos político-partidários, percebi a dimensão da ignomínia e fiquei a conhecer pormenorizadamente duas coisas: os nomes dos principais responsáveis, os seus métodos e os partidos políticos que estiveram por trás. Tudo gente fina. E alguns, direi mesmo muitos, ainda andam por aí. Travestidos de democratas, obviamente.

pequenoO que é que mais o surpreendeu nos processos que consultou e em todo este processo?

RC: O nível de perversidade de gente que desempenhava cargos políticos de topo, a ingenuidade (para ser meigo) de muitos militares a quem devemos o 25 de Abril mas que ‘alegremente’ se dividiram e, sobretudo, a profundidade da intervenção dos serviços secretos estrangeiros, que se fez sentir em todas as áreas-chave da situação política portuguesa, comunicação social incluída. As histórias que estão por contar…

ribeiropequenoFala em “ignorância” geral sobre este acontecimento concreto. 

RC: A ignorância, infelizmente, não é só sobre este acontecimento concreto. É geral. E não é por acaso. A questão da memória colectiva é, para mim e desde há muito, uma questão central. Quase obsessiva. Por uma razão: por aí passa a anestesia dos povos, construída, ao pormenor, por quem detém o Poder – político, económico, educativo e informativo. Com este quarteto na mão a mentira pode transformar-se em verdade. Como abundantemente acontece. Dito de outro modo: a memória colectiva de um povo quase sempre tem muito a pouco a ver com o que, no passado, aconteceu. Quase sempre a memória colectiva é a memória construída pelo(s) vencedor(es). Como disse em Coimbra a historiadora Manuela Cruzeiro, que aí apresentou este meu livro, "a memória não é um processo natural e muito menos pacífico. É sim uma batalha permanente entre os que não querem lembrar e os que não podem esquecer". Acontece que eu estou no grupo dos que não podem esquecer. E também no pequeno grupo dos que querem lembrar.

pequenoDiz que na rádio e na televisão foi onde se verificaram os danos maiores. Mas os jornais não ficaram de lado... Insiste na explicação do caso do Diário de Notícias.

RC: A razão é simples. Ao longo de 42 anos, a generalidade dos órgãos de comunicação social portugueses sempre insistiu, por motivos óbvios, que Saramago despediu 24 trabalhadores do DN no chamado Verão Quente. Como eu demonstro com factos, essa é uma mentira construída e repetida deliberadamente com a finalidade de fazer crer que o culpado foi o PCP e Saramago o executor. Ora, quem despediu, e por esmagadora maioria, foi uma Assembleia Geral de Trabalhadores, face ao comportamento, inaceitável a todos os títulos, desses 24. E quanto às 'responsabilidades' do PCP, o que sempre se ocultou é que no decorrer desses tempos de brasa - como relata Fernando Pires, então chefe de redacção do DN, no seu livro Os meus 50 anos no Diário de Notícias, publicado em 2012 "o histórico dirigente do PCP Francisco Miguel falou à porta do DN com dois camaradas da célula comunista do jornal, dizendo-lhes: trabalhadores não saneiam trabalhadores". Isto é, a meu ver: também aqui a memória colectiva, meticulosamente construída pelo poder político e mediático de turno, nada tem a ver com aquilo que, na realidade, se passou…

pequenoTemos, também, o caso d’O Século. Até houve “pedrada”…

RC: Pois houve pedrada… Pois houve muito mais coisas. Dediquei ao Século cerca de 80 das 430 páginas do livro. Foi talvez a parte que mais trabalho e mais prazer me deu investigar e escrever, tal o significado de que se revestiu a luta verificada na rua de O Século. Como digo no livro, "de todos os órgãos de comunicação social que existiam em Lisboa antes do 25 de Abril de 1974 e viveram por dentro, de uma forma louca e arrebatadora, o período de 19 meses que os levou até ao 25 de Novembro de 1975, O Século é, de longe, a meu ver, aquele onde mais apaixonada e turbulentamente se viveu o dia-a-dia da mais pacífica e transformadora revolução que se conhece: a revolução dos cravos, a revolução dos homens sem sono, a revolução do povo português, de repente imaginariamente fardado da cabeça aos pés, abraçando sofregamente a liberdade que muito tempo antes lhe tinha sido retirada. O grito e o rasgo de um povo amordaçado. O que ali, na rua e no enorme edifício do jornal O Século, se passou desde o 25 de Abril é uma história de mil faces e de acesa luta política sob forma de papel impresso. Uma luta abrasadora pela informação - sector decisivo num momento revolucionário, mas também em todos os momentos da vida de quem pretende um país livre, justo e decente. Uma luta que, sublinho, envolveu muito mais do que jornalistas: para além de multidões de manifestantes na rua, administrativos, gráficos e, como mandava a lei, tipógrafos de ganga vestidos, ali estiveram, dentro de portas, empenhados de corpo e alma na sua luta pela liberdade de informar. Muitas vezes uns contra outros, alinhados grosso modo em dois grupos político-partidários opositores: por um lado, numa aliança estranhíssima (ou talvez não, como a vida mostrou), PS/MRPP/PSD, juntos como os dedos da mão; por outro, PCP e, tinha dias, alguns partidos mais à esquerda. Pelo meio, trabalhadores sem filiação partidária que se iam dividindo conforme as situações em causa".

o 25 de novembro e os media estatizadospequenoDepois de ter publicado o livro, que leitura faz do caso?

RC: Tratou-se de um caso político e não militar. Nunca se esqueçam que, na própria noite do dia 25 de Novembro, o major Melo Antunes, um dos mais influentes capitães de Abril e do Grupo dos Nove, sentiu a necessidade, respaldada pelos seus camaradas de armas, de vir falar em directo à RTP para lembrar que o PCP era um partido fundamental e indispensável para a democracia. Nesse então já havia facas afiadas a pensar no 24 de Abril… A consequência nos média foi brutal: as direcções dos jornais, rádios e televisão foram ocupadas por comissários político-partidários; 152 trabalhadores dos média estatizados de Lisboa, entre os quais muitos eram jornalistas, foram saneados logo na manhã do dia 26… Isto é: com outras roupagens voltou a censura. Já sem lápis azul… Como não podia deixar de ser, outra consequência, igualmente brutal, verificou-se na opinião pública. Na prática, com pequenas excepções, a informação passou a ser de uma nota só… Característica essencial a destacar: tudo foi programado, com muita antecedência, ao pormenor. Por mãos e cabeças partidárias. Com a ajuda prestimosa de serviços secretos estrangeiros.

pequenoO que fica por contar?

RC: Obviamente, muita coisa. Por exemplo, quantos 25 de Novembros houve… E houve muitos…Falta revelar muitos nomes que actuaram na sombra. E o que os motivou. Mas tudo acabará por vir, mais coisa, menos coisa, à luz do dia.

pequenoO que recorda da FLUL? Em que medida a Faculdade o influenciou na sua vida e na sua carreira?

RC: Antes de chegar à cidade grande, fui, durante vários anos, aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de onde saí na sequência da Crise Académica de 1969. Em Lisboa inscrevi-me como voluntário e, como precisava de ganhar a vida - tinha-me casado com uma colega de curso na Lusa Atenas e nenhum de nós era de famílias ricas - fui dar aulas na Escola Preparatória Francisco Arruda, onde o director, o inesquecível pedagogo Calvet de Magalhães, sempre à frente do tempo, me arranjou um horário completo de 22 horas semanais a dar aulas de substituição! Quanto à FLUL, senti o contraste existente na vida académica entre as duas cidades, mas adaptei-me facilmente e conheci gente fantástica, culta e aberta. Por exemplo, o professor João Barrento, que era na prática um jovem da minha idade com quem se podia dialogar e dava gosto ouvir. Não esqueço, também, que foi aí que conheci e fiz amizade que durou para a vida, com vários alunos, dos quais destaco, a título de exemplo, o Zé Barata Moura, magnífico guarda-redes da equipa de futebol da nossa Faculdade, onde eu também jogava, mas ao ataque… Quem diria que, a jogar à defesa naquele campo, o Zé Barata se transformaria num atacante exemplar noutros campos da vida bem mais relevantes…