"Chorei ao ver a homenagem dos Metallica ao meu irmão"

Com nova edição acabada de publicar, Não sou o Único é a biografia de Zé Pedro dos Xutos e Pontapés escrita pela sua irmã, a antiga aluna da FLUL Helena Reis.    

Na conversa com o FLUL Alumni foi, sobretudo, de memórias que se falou. Andámos para trás no tempo e recordámos o músico, falecido em Novembro de 2017, que muito recentemente viu a banda Metallica fazer-lhe uma homenagem num concerto em Lisboa.

Helena Reis licenciou-se em Estudos Anglo-Americanos pela FLUL e revela em Não sou o Único o lado familiar de um músico que os portugueses se habituaram a ver em palco. O lado privado de Zé Pedro, que tantas vezes acompanhou a irmã à FLUL, chega-nos pela voz de alguém que tão bem o conheceu.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequeno O seu irmão disse que este era um bom título para o definir: Não sou o Único. Teve logo de início a ideia de que este era o melhor dos títulos para o apresentar? 

Helena Reis (HR):  O Zé Pedro nunca se sentia único ou melhor do que os outros... As recomendações para o livro foram sempre que não queria que eu lhe chamasse 'estrela de rock' ou que eu o 'endeusasse'. Chamava 'exagero' a tudo o que eu queria escrever que o fizesse sobressair. Quanto ao livro, o título foi a última etapa. Estava complicado, não havia inspiração. Então o Zé Pedro apareceu com a sugestão: "Eu fico muito orgulhoso se lhe quiseres chamar Não sou o Único". Eu tive muitas dúvidas: o que achariam os outros Xutos, se podíamos usar o mesmo título da música,…  "Aceita! É um presente meu”, disse ele. E assim foi. 

zp e eu pequenoZé Pedro disse também que este livro "é, sobretudo, uma história: uma história de família". 

HR: O livro é essencialmente uma história de família, porque ele achou que era preciso as pessoas ouvirem alguém dizer que a família é a nossa âncora quando perdemos o rumo. Eu quis mostrar que cada um de nós pode ter várias famílias, que são os amigos, os colegas de trabalho, seja quem for que nos apoie, perdoe, critique ou celebre alegrias e conquistas connosco, chorando também as nossas tristezas. O Zé Pedro teve variadas famílias. Ele soube tecê-las, criá-las, alimentá-las e mantê-las: irmãos e sobrinhos, os Xutos (e essa grande máquina que põe os músicos no palco há 39 anos), amigos, jornalistas, média em geral, classes médicas de todo o tipo que ele ajudou, associações de doenças que precisavam de ajuda, organizações de festivais, bandas novas à procura de alguém que os ouvisse, fãs de todas as idades,… O Zé Pedro achava que Portugal inteiro era a sua casa e que todos os portugueses eram da nossa família.

pequenoEra impossível escrevê-lo de outra forma? Porque optou por este registo?

HR: O meu irmão deixou bem claro que eu não podia escrever sobre os Xutos pois essa biografia estava a ser escrita por alguém. Mas eu não podia escrever sobre ele sem passar por aí, por isso usei muitas entrevistas e o livro da Ana Cristina Ferrão, o Conta-me HistóriasE, também, julgo que as pessoas gostaram de saber um pouco mais sobre a vida pessoal dele. A vida pública aparece sempre através dos média que cobrem os acontecimentos. Agora das redes sociais. Mas o lado mais privado não é tão exposto. Acho que muita gente nem sabia que ele tem tantos irmãos e sobrinhos… Penso que gostaram de saber que os músicos de rock também têm família e como passam o seu tempo quando não estão em cima do palco.

pequenoO que é que ele lhe disse a si, na intimidade da vossa relação, sobre o livro? 

HR: Ele adorou, agradeceu imenso. Ele agradecia sempre às pessoas, à vida. Ficava agradecido com as coisas que faziam por ele e, é claro, pelo facto de eu não ser escritora, ficava agradecido por eu me ter metido nesta tarefa que ele sabia ser difícil. Não quis ler nada e só leu o exemplar que lhe ofereci no dia em que foi posto à venda. Diz que riu e chorou, que havia imensas histórias que ele nem se lembrava e que gostou de o ler. E disse em várias entrevistas que estava encantado com a história dele, logo ele que gostava tanto de histórias. É mais comum as homenagens virem postumamente. O Zé teve a sorte de ser homenageado em vida várias vezes. Ele considerava o livro uma homenagem, também. Ainda bem que o leu. Hoje tenho o consolo de saber que fiz isso por ele e ele gostou.

pequenoO que mais recorda da sua relação com Zé Pedro?

HR: As viagens com ele! Era um magnífico companheiro de viagem e interessava-se por tudo. E, claro, pela música desses lugares. Fizemos o interrail juntos e só não me deixou ir a um festival punk em Mont-de-Marsan em França, porque disse que podia ser perigoso. Em Barcelona fomos ver o concerto do Carlos Santana, com o Paco de Lucía na primeira parte. No final, fizeram uma jam session juntos. O Zé e eu falamos muitas vezes desse concerto. Mais tarde fomos a Paris ver um concerto dos Metallica e foi o delírio! Também recordo as férias, as festas e as 'noites loucas', as inúmeras visitas a escolas em que lhe pediam para falar aos adolescentes sobre drogas, sexo e rock'n'roll e que eu acompanhei, vezes sem conta, depois deste livro sair. Como não recordar os natais! Ele era um dos nossos Pais Natal! Também lembro os 'lanches do tio'! O Zé adorava os sobrinhos. Quando eram pequenos, ele instituiu uns lanches com eles (nada de pais!) e eles podiam comer tudo o que quisessem. Quando cresceram, levava-os aos concertos dos seus ídolos!

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 E consigo sempre teve uma relação próxima...

Sobre a FLUL há uma história engraçada! Gostei muito dos anos que passei em Letras e muitas vezes o Zé Pedro acompanhava-me à Faculdade. Eu era muito jovem quando para aqui entrei e ele fazia questão!

pequenoReunir toda essa vida de Zé Pedro em livro não deve ter sido fácil.

HR: Foi dificílimo. O livro tinha o dobro do tamanho e a editora teve um grande trabalho a sugerir os cortes. Ficou muita coisa de fora. 

pequenoO livro foi lançado em 2007. Onze anos depois, pensa fechar o capítulo da vida de Zé Pedro continuando a obra com os dez anos que lhe seguiram? 

HR: Ao ritmo vertiginoso a que ele vivia, certamente que há muito para contar. Só o casamento e agora o velório, funeral e constantes homenagens, há material para outro livro… Assim haja vontade da editora e oportunidade para tal.

pequenoAcha que já lhe foi feita a justa homenagem? Porquê? 

HR: Não tenho palavras. Tenho chorado imenso, de comoção, de agradecimento pela ternura, amizade, admiração que mostram por ele. 

pequenoComo é que viu a recente homenagem dos Metallica ao Zé Pedro, num recente concerto dado em Lisboa? 

HR: Chorei... Começámos a receber as gravações de amigos que estavam no concerto e não percebi logo o que se passava, acho que nem queria acreditar! O meu irmão era grande fã deles… Uma homenagem feita pelos seus ídolos é... brutal!