"Talvez seja mais um livro de personagens e não tanto de acção"

Porque "precisava de uma mudança", a alumna Carla M. Soares procura no último livro que publicou, Limões na Madrugada, distanciar-se da vertente histórica que seguiu nos livros anteriores.    

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela FLUL, Carla M. Soares conta-nos agora a história do regresso a Portugal de Adriana, personagem que regressa também à proximidade da família, no Porto, para se descobrir e destapar um pouco mais sobre as suas origens.

A alumna diz que o enredo lhe surgiu de "um fôlego" e fala em intimismo para o definir. Com ela, o regresso ao romance com pinceladas de História segue dentro de momentos. 

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Pau Storch 

 

pequeno Com Limões na Madrugada, o peso da História é menor do que nos seus outros livros. É um novo caminho que quer percorrer ou um afastamento casual?

Carla M. Soares (CMS): Comecei por publicar livros com narrativas suportadas pela História ou, pelo menos, inseridas numa época cujas características e factos foi preciso respeitar – livros a exigir muita pesquisa, estruturação, verificação constante de factos, uma interligação cuidadosa entre a ficção e a realidade, sempre com o cuidado de minorar a hipótese de erro e foram, portanto, livros de uma escrita lenta, com paragens constantes para verificar factos, para corrigir, para reformular. Dá-me um gosto particular fazê-lo, sobretudo quando resulta um livro centrado na história e não na História, com personagens credíveis, uma narrativa fluida, e os factos históricos integrados de forma natural, para que nenhuma página soe a uma lição, mas esteja tudo lá. Depois de O Ano da Dançarina, o mais denso dos três que escrevi, precisava de uma mudança. Preciso de mudar de vez em quando, a mudança estimula e desafia. Este livro, Limões na Madrugada, foi o resultado: com uma pesquisa mínima, o livro fluiu muito rapidamente, de forma quase espontânea, de um fôlego. Escrevê-lo foi um prazer diferente, mais intuitivo e desprendido. Os processos são diferentes, gosto de ambos e não creio que vá abdicar de nenhum destes caminhos.

pequenoLimões na Madrugada é um daqueles títulos que parece só fazer sentido quando se lê a história. É esse o feedback que tem recebido dos leitores?

CMS: Este título foi uma escolha muito pessoal e, de facto, só ganha sentido com a leitura do livro. Acontece algo semelhante com O Ano da Dançarina. Limões na Madrugada tem suscitado opiniões diversas, de estranheza, de agrado, de desagrado, há quem o ache bonito e adequado, há quem o considere fraco. Acontece o mesmo com a capa, essa da responsabilidade da editora. Embora seja sempre mais agradável ler opiniões simpáticas, o ego agradece. Não faz sentido querer agradar a toda a gente. Não nos pautamos todos pelos mesmos valores, não recebemos a mesma formação, nem adquirimos os mesmos gostos. E ainda bem.

 dsc7942 editpequenoComo classificaria, então, este livro? Procura apresentar um maior intimismo na história…

CMS: É um livro de maior intimismo que os anteriores, como diz, evidente no facto de toda a história, a história de Adriana, a protagonista-narradora, e da sua família, ser contada na sua voz, revelada ao seu ritmo e da sua perspectiva. Nós, leitores, nada sabemos a mais do que Adriana. Só vamos conhecendo o que ela aprende e o que ela recorda. Cria alguns vazios, que não são acidentais, uma vez que também o seu passado e a sua memória estão cheios deles. É uma história de descoberta do passado individual e familiar, de exploração das suas consequências e de reconciliação com aquilo que nos constrói e nos destrói.

pequenoColocando personagens e a acção de Limões na Madrugada numa balança, qual pesaria mais: o perceber e o sentir das personagens ou a acção da história?

CMS: Aqui, a acção faz-se sobretudo de segmentos do passado, intercalados no presente de Adriana no Porto, ao sabor da sua memória e das pequenas revelações que lhe vão sendo feitas, directa ou indirectamente, e é essa sequência inconstante, sem linearidade, que faz avançar a narrativa. O pequeno núcleo de acções, como a vinda de Adriana para o Porto, a aceitação dos quadros do tio, tão relevantes, a visita à casa de família e mais dois ou três acontecimentos fundamentais, vão dando a conhecer a história violenta da família, os motivos da partida dos pais para Buenos Aires, o presente e o passado que Adriana tem de aprender a aceitar – ou não – e as pessoas que dão forma e sentido à sua vida. Não há um encadear de acontecimento linear e desenfreado e, embora a história tenha importância e o segredo da família encerre uma temática importante e actual, é Adriana quem sustenta a narrativa. Nesse sentido, talvez seja mais um livro de personagens e não tanto de acção.

pequenoSó uma Adriana que se completa nas suas complexidades e questionamentos faziam sentido para esta história? É uma personagem muito crua…

CMS: Conforme se vão desconstruindo as ideias de Adriana sobre a família e derrubando os muros com que se protege da herança da família portuguesa, vai-se expondo mais e creio que acaba por mostrar-nos mais do que ela própria gostaria. Mas não tem tudo a nu. Há espaços de sombra na história, ou, se quiser, há um espaço fora da tela que nós não vemos, porque Adriana não o quer ver ou revelar. É o que fazemos com a nossa história. Procuramos lembrar alguns episódios, enterrar outros para que não nos assombrem, fechar os olhos ao que nos desfeia, lutamos para aceitar ou esquecer os momentos de tormento e as piores acções, nossas e dos nossos, e falhamos com frequência. Alguns convivem bem com as culpas e arrependimentos, os ressentimentos, as ausências, os medos, as sombras, outros não. Quis que Adriana estivesse na narrativa com a mesma complexidade, as mesmas certezas e dúvidas, a mesma obscuridade e luz que cada um de nós tem. Quis que nos pudéssemos reconhecer, em momentos, nas suas indecisões e nas suas decisões, nos seus pavores e nos sentimentos mais doces e mais amargos, que ela não esconde. Nesse sentido, espero ter conseguido uma Adriana muito humana.

pequenoAinda assim, procurou que Adriana não ofuscasse as outras personagens?

CMS: Nos meus livros anteriores, os protagonistas dividem o palco com outras personagens e com a História. Acontece com frequência com Nicolau, em O Ano da Dançarina, integrado num núcleo familiar denso, repleto de personalidades fortes, com perspectivas e vidas suas. Em Limões na Madrugada, é sobre a família e a vida de Adriana que lemos e o leitor só conhece as restantes figuras da narrativa através do seu olhar. É inevitável que seja dominante na narrativa. Mas desejo sempre que os meus livros tenham dentro gente para quem pudéssemos imaginar uma existência fora das páginas. As outras personagens não podem ser desprovidas de densidade, maior ou menor conforme a sua relevância na história, ou, neste caso, a sua importância para a narradora. Se o tiver feito bem, Javier, Chloe e o pai de Adriana serão personagens mais fortes do que, por exemplo, Diogo, embora este esteja mais próximo no tempo do que os outros.

pequenoSão comuns as descrições do Porto. Conhece bem a cidade para descrevê-la daquela forma? Foi aos locais?

CMS: A perspectiva pela qual apresento o Porto é a de quem chega e, sem conhecer as ruas, sem ali ter estado antes, se sente em casa. Adriana é uma estranha na cidade, quase uma turista, como ela mesmo diz, e é assim que eu também conheço o Porto: já lá estive várias vezes, conheço os locais, gosto muitíssimo da cidade, parte da família é de lá e vive lá, mas não deixo de ser uma turista que o descobre e se fascina com ele a cada vez que o visita. Estou sempre a recuperar esse primeiro encanto, que espero que nunca se esgote. Espero também que tenha transparecido para as páginas deste livro.

pequenoPorquê a opção por capítulos pequenos?

CMS: Não foi uma escolha deliberada. Conforme a história se foi construindo, foi assumindo essa forma. Os capítulos têm a dimensão justa para cada memória e cada acontecimento, em relances curtos, que começam e terminam como e quando senti que era momento de terminá-los. Acabam por tornar a viagem mais móvel, mais rápida, e conferem uma certa leveza a esta história de perdas, medos, ressentimentos, violência, alguma reconciliação.

capa limoes na madrugada highpequenoÉ um livro mais amadurecido? O que tem mudado em si enquanto escritora?

CMS: Tenho aprendido muito e espero que cada livro seja mais amadurecido do que a anterior. Por exemplo, tenho-me apercebido dos temas que atravessam as minhas narrativas e, por reconhecê-los, fico mais atenta a uma possível monotonia na escrita. Não quero que os meus livros tenham um padrão, embora me agrade que tenham uma voz própria e reconhecível e me pareça natural que esses temas sejam transversais. A pessoa, a escritora, não é outra de um para outro livro. Escrever sem o suporte – e a obrigação – dos factos históricos também me ajudou a soltar-me um pouco e a deixar a história e as personagens tomarem um rumo seu, com mais arrojo e menos linearidade Com o tempo, estou também menos relutante em fazer cortes e ajustamentos implacáveis, por muito que doam. Faço-o antes de e com a colaboração do meu excelente editor. Tenho muito a fazer ainda, porém, muito a amadurecer e a melhorar.

pequenoQue personagens tem agora “a precisar de fazer nascer a sua história”, como me disse na última entrevista que lhe fiz em Abril do ano passado?

CMS: Creio que a Bernarda Moreira Lopes, de O Ano da Dançarina, merecia uma história sua. Mas o que quero para ela precisa de um enorme trabalho de pesquisa. A acontecer seria um projecto a longo prazo. Tenho um outro, que acontece entre Portugal e a cidade onde nasci, em Angola, que já iniciei. Escrevi meia dúzia de páginas de uma espécie de distopia, que não sei se avançará, porque o género ainda me é estranho… Estes e outros projectos, completamente divergentes uns dos outros, pouco passam de embriões e nenhum tem previsão de desenvolvimento. Escrever faz parte da minha vida, faz-me bem, mas é preciso tempo. É preciso que o dia-a-dia me deixe espaço e energia para cumprir as rotinas de escrita que tento impor-me e, mais ainda, a tranquilidade e concentração de que necessito para me dedicar às palavras, porque não escrevo em tumulto. Preciso de alguma paz, interior e em meu redor. Tenho sempre personagens a precisar de respirar. Quando e como, o tempo o dirá.