"O nome do estádio do Benfica surge da história de um milagre"

Na companhia do alumnus Anísio Franco partimos em busca da Lisboa Desconhecida e Insólita.  

O mais recente livro deste antigo aluno, que se licenciou pela FLUL em História da Arte, revela histórias que provavelmente nunca se ouviram falar, mesmo que todos os dias milhares de pessoas passem ao pé de vários locais que pintam a capital portuguesa e que o autor dá a conhecer na obra. 

Anísio Franco é conservador do Museu Nacional de Arte Antiga e foi com ele que conversámos com vista para Lisboa.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

 

pequeno A cidade de Lisboa ainda esconde muitas histórias desconhecidas e insólitas ou o Anísio já as revelou todas?

Anísio Franco (AF):  Naturalmente que sim! Lisboa ainda esconde muitas histórias desconhecidas! É uma cidade misteriosa, com muitas camadas de história que vão escondendo, pela sobreposição temporal, vários enigmas cuja revelação poderá ser verdadeiramente surpreendente.  

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São 40 as histórias que ficamos a conhecer no livro. Ainda acredita que algum dia vamos descobrir onde está a tiara da princesa Estefânia? Que história é esta?

AF: Espero que sim! Há quem continue a investigar esse caso. O arquitecto Eduardo Alves Marques, por exemplo. Mas a questão é complicada porque não sabemos se a tiara foi realmente fechada dentro do túmulo ou se foi levada para fora de Portugal pelos herdeiros da princesa Estefânia. O problema é que mesmo esses herdeiros, os príncipes de Sigmarigen, deram várias jóias que pertenceram à rainha portuguesa, como dote, a outras princesas desta família que casaram pela Europa fora. É preciso continuar a procurá-la. Mas será muito difícil sabermos exatamente onde se encontra o diadema.

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Não será, no entanto, preciso procurar muito por uma capela em concreto que fala no livro e que é desconhecida por muita gente, apesar de estar num dos sítios mais centrais de Lisboa.

AF: A Capela de São Roque do Arsenal da Marinha está, de facto, mesmo ali no centro da cidade, ao lado da Câmara Municipal de Lisboa. Foi fundada neste lugar por causa de uma dissidência interna de uma parte da confraria de São Roque, que esteva instalada no local onde é hoje a Igreja de São Roque. Os Carpinteiros de Machado não quiseram aceitar a condição de ficarem anexos à casa professa dos jesuítas e foram instalar-se numa capela no Convento do Carmo. Com o terramoto de 1755 ficaram sem capela sede. Pediram ao rei Dom José, com o apoio muito directo de Pombal, para se instalarem o mais próximo possível do seu local de trabalho: o arsenal de Lisboa. A função desta confraria era assistencial e estes carpinteiros, cujo emprego principal era afeiçoar a madeira para a construção marítima, tinha neste local verdadeiro apoio. É preciso não esquecer que estes profissionais estavam em permanente risco de contrair peste, que entrava na cidade através das embarcações. São Roque era considerado um santo pestífero. Acreditava-se que ele era o maior taumaturgo contra a peste. Por essa razão se instalaram ali tão perto do rio. A questão é que esta era uma capela particular e sempre foi, como ainda hoje é. Primeiro era da confraria dos Carpinteiros de Machado. Hoje é da Marinha. Daí que ainda seja completamente desconhecida da maioria dos lisboetas. Não é qualquer pessoa que pode entrar no espaço militar, pois existem protocolos de segurança próprios destes sítios.     

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Mais fácil será entrar no Hospital de Bonecas, do qual também fala no livro.

anisio noticia2AF: Esse é um dos lugares mais tradicionais de Lisboa, mas nunca deixa de ser surpreendente. É uma história que tem raízes muito antigas naquela zona da cidade que ficava nas imediações do Mercado da Figueira, onde havia lugar, pelo menos desde o século XVIII, também para as crianças. Ali existiam dois estabelecimentos que se dedicavam a encantar os mais pequenos: o hospital das bonecas e a loja que hoje se chama do Carnaval. Nesta compravam-se bonecos, particularmente figurinhas de presépio e na segunda recuperavam-se as bonecas desconsertadas. Não podemos esquecer que, ao contrário do que acontece hoje, não se deitavam fora as bonecas por terem uma perna ou um braço deslocado. Um boneco era quase uma preciosidade. Foi por isso que nasceu o Hospital de Bonecas. Primeiro a fundadora começou por fazer bonecos de barbas de milho e só depois começou a arranjar bonecos, uma necessidade imposta pelos tempos modernos, quando as bonecas começaram a ser comercializadas de forma mais vulgar. A questão é que, mesmo assim, esses objectos continuavam a ter o estatuto de raridade e quando se estragavam teriam de ser consertadas. Extraordinário é o facto de ainda hoje, no tempo dos bonecos descartáveis, se manterem abertas estas duas lojas: talvez porque a fantasia ligada às memórias de infância nunca morra!

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Também conta uma história para os amantes de futebol e de um clube em particular… “De onde vem a luz do estádio?”

AF: Vem de Carnide. Poucas pessoas sabem, mesmo a maioria dos benfiquistas, que o nome do seu estádio surge da história de um milagre do aparecimento da Virgem, em luz, perto de uma fonte de água em Carnide. O nome do estádio não lhe vem do facto de ter muitos holofotes, mas deste acontecimento longínquo, passado no século XIV.  

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Que história mais o surpreendeu?

AF: Talvez a das múmias da Igreja do Sacramento. É a história mais assustadora! O lugar é de arrepiar. Descobri-lo foi de facto surpreendente. Tinha ouvido falar no lugar, mas a experiência de lá entrar foi única.

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Gostar de caminhar teve influência no gosto por conhecer e revelar os segredos da cidade de Lisboa?

AF: Não se conhecem as cidades quando nos deslocamos de automóvel! Só a pé se consegue observar cada detalhe das cidades. Há uma regra fundamental, para a qual me chamou a atenção um colega inglês: as cidades devem ser observadas posicionando o nosso olhar a um metro e meio do chão. São as estruturas edificadas que formam as cidades, não tanto aquilo que o marketing comercial nos impõe.  

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A sua infância e adolescência também contribuíram para o descobrir destas histórias.

AF: Tudo começou nos anos da infância quando fui “abandonado” à minha sorte, por uma prima e pelo meu irmão, nas ruas de uma cidade que me era desconhecida. Esse desafio, que os meus familiares me lançaram, foi a verdadeira pedra de toque para o meu futuro. Jurei a mim mesmo que haveria de conhecer cada rua, viela ou beco deste labirinto que é Lisboa.     

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Para si assume maior valor o acto de descobrir um segredo relacionado com a história ou revelá-lo ao público?

AF: A descoberta provoca-me uma espécie de êxtase, um prazer enorme, uma espécie de síndrome de Stendhal, uma vertigem inexplicável. Mas o meu altruísmo obriga-me à partilha. Tenho verdadeiro prazer em comunicar todo o conhecimento que vou acumulando ao longo da vida.

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Já há um próximo livro previsto? Lisboa é o seu cenário de eleição?

AF: Efectivamente estou a trabalhar num novo livro. Só posso dizer que não estará directamente ligado a Lisboa. O resto ainda é segredo!

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Formou-se pela Faculdade de Letras de Lisboa em História da Arte. Como recorda a FLUL?

AF: Foi uma experiência extraordinária. Poderia dizer que foram os melhores anos da minha vida. Aí fiz os meus melhores amigos, com quem ainda hoje convivo quase diariamente. Tive óptimos professores e com muitos deles desenvolvi laços de amizade. Aprendi imenso em todos os campos. Recordo também com prazer o próprio edifício da faculdade, ao mesmo tempo grandioso e acolhedor em muitos dos seus recantos, construído com materiais duráveis de grande qualidade. Um edifício que só poderia ter sido concebido por Porfírio Pardal Monteiro, o melhor arquitecto português do século XX.