"Esta é uma homenagem justa e uma homenagem possível a grandes autores"

Em Tão Perto de Mim - Lembranças de autores com quem convivi, o alumnus José Jorge Letria aborda a relação de amizade que manteve com 24 autores, contando episódios que com eles viveu.  

José Jorge Letria, alumnus do curso de História da FLUL, percorre a singularidade de cada um desses autores, lembrando vivências e momentos em que a sua vida com eles se cruzou. É pela mão deste jornalista, actual presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, que ficamos a saber um pouco mais sobre outros alumni da FLUL. E são vários os que têm presença garantida no livro agora editado pela Guerra & Paz. Só revelando aquilo que quer, e sempre pouco para convidar à leitura do livro, José Jorge Letria não hesitou em falar de Fernando Lopes-Graça, Urbano Tavares Rodrigues, Matilde Rosa Araújo, David Mourão-Ferreira, Mário Soares ou Álvaro Guerra.  

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Neusa Ayres (Direitos Reservados)

 

pequenoPorque é que este “não é um livro de memórias, mas sim um livro com memória”, como diz no prefácio?

José Jorge Letria (JJL): Na realidade, é um livro com memória, muito mais do que um livro de memórias. Um livro de memórias seria mais extenso e teria uma diferente dimensão. Também emocional.

pequenoDiz que escreveu este livro para “evitar que alguns nomes caíssem no esquecimento”...

JJL: O tempo é sempre implacável. Quem hoje conhecemos bem pode amanhã estar esquecido, o que não queria que acontecesse com estas personalidades em geral. Por isso decidi escrevê-lo.

jjlpequenoFernando Lopes-Graça é logo a segunda personalidade que destaca. Em que momentos o “preconceito ideológico” se sobrepôs “à visão serena do homem amável”, que utiliza para caracterizar este antigo aluno da FLUL? 

JJL: Lopes-Graça era um criador notável e um ser humano frequentemente áspero e pouco afectuoso. Com frequência verificávamos que as suas convicções como militante do PCP se sobrepunham a uma visão mais distanciada e menos inflexível. Mas foi um grande autor e uma figura intelectual notável.

pequenoPara quando a publicação da biografia de Fernando Lopes-Graça da autoria de Mário Vieira de Carvalho, que a SPA patrocinará?

JJL: Creio que ele está a trabalhar nesse projecto de que em breve me dará notícias. O livro que agora foi publicado antecipa o prazer de vermos essa biografia pronta.

pequenoNo livro recorda também Urbano Tavares Rodrigues. Ele que sempre quis um Prémio que não viria a receber: o Premio Camões. Como é que ele lhe foi manifestando esse sentimento de espera por algo que teimava em não chegar?

JJL: Como éramos muito amigos foi-me manifestando essa tristeza de forma discreta mas recorrente. Eu sabia bem o que ele sentia sobre o assunto.

pequenoPassado um ano do falecimento de Mário Soares, lembra algumas conversas com Maria Barroso. Afinal, como dizia ela, “o Mário nunca deixou de querer ser escritor”? Que papel tinha a cultura para ele?

JJL: A cultura era muito importante na vida dele, porque era um grande bibliófilo e um apaixonado pela pintura. Quando estava com os criadores e com as suas obras sentia-se feliz e preenchido.

livro tao pertopequenoNo livro conta também episódios concretos da sua vivência com alguns autores, como aquele que viveu com Matilde Rosa Araújo, que se licenciou em Filologia Românica na FLUL, durante uma visita à Fundação do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro... 

JJL: Para que não fossem os brasileiros a liderar a presença portuguesa no International Board on Books for Young People, ela decidiu passar um cheque, no Rio de Janeiro, para saldar as quotas em dívida há vários anos pelos portugueses. E fez isso com grande dignidade e reserva, porque não era assunto para se especular.

pequenoComo lembra David Mourão-Ferreira?

JJL: Lembro-o sempre com muita saudade e respeito, porque éramos amigos e ele era um homem e autor admirável.

pequenoPela leitura do livro, percebe-se que Álvaro Guerra foi outra das figuras que o marcou pessoal e profissionalmente.

JJL: Marcou-me muito como amigo, como escritor, como jornalista e por ter sido a pessoa que me envolveu na preparação do 25 de Abril, sempre com coragem e emoção.

pequenoO livro é para todos os nomes nele retratados uma homenagem justa ou a homenagem possível?

JJL: É sempre uma homenagem justa. Por nalguns casos não me ter alongado mais foi também a homenagem possível. O livro era pequeno e não devia acolher extensas evocações.