“Para o romance histórico irei privilegiar a escrita em nome próprio”

E.S. Tagino, ou melhor, António da Costa Neves leva-nos ao outro lado do Tejo para uma viagem histórica pel’O Implacável Cerco de Almada. Alumnus do curso de História da FLUL da década de 80, António da Costa Neves, que tem vasta obra publicada sob o pseudónimo E. S. Tagino, coloca-nos no século XIV.

No romance, que acaba de chegar às livrarias numa edição da Saída de Emergência, assistimos de camarote ao Cerco de Almada, lado a lado ao de Lisboa. Heróis e anónimos debatem-se nesse importante episódio da História de Portugal pela escrita de um alumnus, que ainda não vai deixar para trás o pseudónimo com que começou na literatura…

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

 

pequenoO Implacável Cerco de Almada é escrito em nome próprio. O pseudónimo E. S. Tagino ficou, definitivamente, para trás?

António da Costa Neves (ACN): Sou um escritor que chegou tarde à literatura publicada e, quando o fiz, foi através de um concurso literário, daqueles que exigem o anonimato. E. S. Tagino foi, na altura, o pseudónimo que utilizei, construído mediante a junção dos termos Tagus e Sadino. E. S. Tagino pretendia dizer tão-somente que “eu sou de entre o Tejo e o Sado”. Acontece que o meu editor, quando leu o livro e decidiu publicá-lo, achou o pseudónimo original e perguntou-me se não desejava utilizá-lo como nome literário. Eu próprio achei a ideia interessante e, por isso, o romance Mataram o Chefe de Posto foi publicado com esse pseudónimo. Depois disso, publiquei mais seis romances, sempre com o mesmo pseudónimo. O Implacável Cerco de Almada é o meu oitavo romance com que inicio esta nova fase dedicada ao romance histórico assinado com nome próprio. Contudo, não gosto de me cingir apenas a uma área ou a uma temática. Se alguma coisa tem caracterizado a minha obra é, essencialmente, a diversidade. Como tenho, neste momento, três romances anteriores terminados e prontos para publicação, é quase certo que dois deles, a serem publicados, ainda o serão com o pseudónimo E. S. Tagino. A partir de agora, porém, para o romance histórico irei privilegiar a escrita em nome próprio.

pequenoPorquê só agora assumir a escrita em nome próprio?

ACN: Cheguei à edição quando já tinha 60 anos. É certo que, durante toda a minha vida, fui publicando poesia, em revistas e jornais regionais. Sem quaisquer conhecimentos no meio editorial, apesar de premiado logo no primeiro livro, sempre soube que só o mérito da obra poderia motivar um editor a publicá-la. E foi isso, felizmente, que aconteceu. Tive a sorte de encontrar um editor com sensibilidade para as questões coloniais e disposto a gastar tempo e dinheiro para arriscar num desconhecido. A assunção do nome próprio é, pois, também, o resultado de um compromisso com o meu editor, tal como já o tinha sido a utilização do pseudónimo E. S. Tagino.

pequeno Vamos ao livro O Implacável Cerco de Almada… 

jose nevesACN: O Implacável cerco de Almada conta a história da Revolução de 1383, vista a partir de Almada e contada por quem a protagonizou. Uma narrativa, em forma de romance, sobre a grandeza da gente miúda, dos homens bons, dos mesteirais dos ofícios, dos comerciantes e do povo anónimo que, contra a oposição generalizada da nobreza, tomou as vilas e os castelos do Reino e os colocou ao serviço do Mestre. Vilãos sem fortuna que, sob a orientação dos concelhos e o comando dos magistrados eleitos, são os protagonistas de uma gesta ímpar no dealbar do Portugal medieval. A partir da acção do regedor Afonso Galo, que personifica a fibra dos almadenses, vamos assistir ao Cerco de Almada, paralelo ao de Lisboa, mas de consequências bem mais gravosas. Esta é uma obra que nos transporta para a realidade política, social, económica, cultural e religiosa do Portugal do século XIV, servida por uma linguagem coloquial, ao serviço duma história alicerçada no coração do Povo, onde perpassam o heroísmo e a traição, o sofrimento e a esperança, a vida e a morte, a resistência e a superação. Mas que também retrata o modo de vida de uma sociedade em mudança, pautada pelo declínio da agricultura e o advento do comércio, nomeadamente o de além-mar, antevisão de uma nova sociedade feita de filhos segundos, bastardos e homens sem pergaminhos – uma nova classe de gentes que estaria destinada, no futuro, a grandes cometimentos. Tudo evocado e narrado pela pena do escrivão João Galo, o filho do regedor Afonso Galo.

pequenoPorquê a escolha de uma temática dentro do “Cerco a Lisboa”?

ACN: Em nenhum momento me preocupei com o Cerco a Lisboa, a não ser enquanto contraponto ao Cerco de Almada, na medida em que este foi muito mais cruel e opressivo do que aquele. Enquanto que em Lisboa a intenção, desde o início, foi a de tentar estrangular a cidade pela fome, Almada foi objecto de um assédio permanente. Ao ponto de, face à resistência dos almadenses em não fazerem o que Lisboa não fizesse, ter levado o próprio rei castelhano a atravessar o Tejo, com dois dos seus melhores capitães, para um assalto que se queria final. Nessa refrega, em que foram utilizadas as armas mais poderosas, o rei quase foi morto, o que o fez regressar a Lisboa com rancor dos almadenses e ordens para que todos fossem passados a fio de espada. Rancor que se materializará quando, no final do cerco, exigiu a entrega, como reféns, de 20 crianças, as mais pequenas com menos de quatro anos, filhas dos melhores da vila.

pequeno O que é que aconteceu e o que é ficcionado na história?

ACN: Tudo o que aconteceu está fixado na Crónica de D. João I e na Crónica do Condestável. Limitei-me a contar a mesma história, essencialmente do ponto de vista do homem comum. Afinal, aquele que, em primeiro lugar, sofre os efeitos nefastos da guerra: é morto ou mutilado, passa fome, roubam-lhe os bens, violam-lhe a mulheres e as filhas, destroem-lhe a casa e as fontes de subsistência. Naturalmente, que uma narrativa, desenvolvida através duma observação mediada por diálogos, pode sempre completar situações que o cronista apenas enunciou. Lembro-me, a propósito, do almadense anónimo que, na última semana do cerco, atravessou o Tejo seis vezes, a nado, para trazer e levar mensagens de e para o Mestre de Avis, ou do traidor almadense, referido de passagem, que denunciava os barcos de víveres que vinham de Santarém e não chegavam a abastecer Lisboa. Em qualquer destes casos, como noutros, dou-lhes espessura e identidade e consistentemente integro-os na trama do romance.

pequeno Para compor o livro, que pesquisa fez?

ACN: Li e reli as crónicas já mencionadas. Para além disso, preocupei-me em consultar toda a documentação publicada pelo Arquivo Histórico de Almada respeitante aos séculos XIII, XIV e XV, nomeadamente escrituras de venda, as doações e as relações de posturas camarárias. Nada melhor para percebermos as preocupações das populações e das autoridades, como as multas que eram aplicadas. Porque as personagens circulam, algumas vezes, entre Almada e Lisboa, tive também a preocupação de me documentar sobre a Cerca Fernandina de Lisboa; sem dúvida, a única linha de defesa da capital, para além da estacada que o Mestre mandou construir na frente ribeirinha. E estudei ainda alguns autores portugueses cujas obras analisam a vivência quotidiana das cidades dos finais da Idade Média: em especial, os que abordam questões como a alimentação e o vestuário, o amor e o prazer, os jogos e as distracções, as superstições e as devoções.

pequenoMoita Flores, porta-voz do júri do “Prémio de Poesia e Ficção de Almada”, que venceu em 2016 com Trinta Sonetos Triviais, destacou o “domínio perfeito da técnica do soneto, no que respeita à substância e originalidade”. Poesia, romance, romance histórico, o que prefere? Porquê?

implacavel cerco a almadaACN: Não tenho preferências, tanto como escritor como leitor. Tudo depende do momento. Enquanto autor, nestes últimos dez anos, confesso que tenho descurado um pouco a poesia, mas apenas porque a escrita de um romance é muito mais absorvente. Por outro lado, reconheço que padeço de um mal irreversível. Quando escrevo um romance, apaixono-me pelas personagens e não descanso enquanto não sei o final de cada uma. É que escrevo sempre, mas sempre, com os finais em aberto.

pequenoDe que forma a sua formação em História tem implicações directas na sua escrita e nos temas que escolhe?

ACN: Tem mais implicações do que, no princípio, poderia pensar. Comecei com um romance sobre a Guerra Colonial, a que se seguiu Nem por Sonhos, uma sátira de costumes, e Mea Culpa!, onde, ainda que titubeante, a inclinação para a historiografia já estava presente. Depois, escrevi dois livros em que privilegiei a memória, O Pequeno Incendiário, quase autobiográfico; e Abaixo de Cão, um livro negro capaz de fazer de Bairro da Lata, de John Steinbeck, um livro para adolescentes. Por fim, sem subterfúgios e quase sem me dar conta, O Amor nos Anos de Chumbo, sobre a guerrilha do Remexido, ocorrida depois da Convenção de Évora Monte; Adamastor, em que abordo a passagem de Camões pela Ilha de Moçambique; e, finalmente, O Implacável Cerco de Almada. De todos estes, apenas Adamastor foi um desafio do meu editor, que viu em mim qualidades que eu próprio desconhecia. Hoje, reconheço que a minha formação académica tem muito a ver com tudo o que escrevo porque eu, como quase todos os escritores, escrevo, essencialmente, sobre o passado. Curiosamente, num livro, ainda inédito, fiz um exercício extraordinário: escrevi-o todo no presente do indicativo. Trata-se de uma história actual em que o narrador é quase personagem da sua própria narrativa. Uma aventura em que o narrador, a todo o momento, é surpreendido por um punhado de personagens que, completamente à solta, realizam as piores tropelias. 

pequenoO que está agora a escrever e para quando a sua publicação?

ACN: Neste momento, estou a escrever sobre o período das Lutas Liberais. Uma história que começa, historicamente, em 1828, no momento da usurpação de D. Miguel e que irá terminar em 1834, com a Convenção de Évora Monte. A partir de um núcleo familiar da pequena nobreza rural da época, vulgo morgadio, e da aldeia que gravita à sua volta, abordo a desagregação que a guerra civil vai produzindo no tecido social e familiar. Tudo, em simultâneo, com as opções e os percursos que os diversos intervenientes tomam durante o conflito, à imagem duma realidade que separava amigos e dividia famílias e, cegamente, abria caminho às piores vinganças. Pretendo, por outro lado, que a leitura deste romance permita um conhecimento aprofundado do que, politicamente, estava em jogo, assim como a dinâmica dos principais acontecimentos ocorridos: a Revolta do Porto, a fuga para a Galiza, os exilados e o barracão de Plymouth, os conflitos entre o duque de Palmela e o duque de Saldanha, a regência da Terceira, o cerco do Porto, o papel de D. Pedro, a campanha do Algarve, a tomada de Lisboa, as grandes batalhas de Almoster e Asseiceira e, por fim, a Convenção de Évora Monte e a partida, do porto de Sines, de D. Miguel para o exílio. E por lá passam, também, os principais protagonistas dessa época. Levo 350 páginas já escritas e, cronologicamente, estou no início de 1833. É, pois, previsível que este livro venha a atingir as 500 páginas. Quanto à sua publicação, nunca será antes de 2019. O mais provável é que, até lá, venha, primeiro, a publicar qualquer um dos outros três livros que já tenho prontos.