“A fome podia ditar o desfecho de qualquer operação de cerco a Lisboa”

Com muito trabalho de investigação feito sobre a conquista de Lisboa em 1147, o alumnus Miguel Gomes Martins quis ir mais longe. Com o objectivo de dar uma perspectiva panorâmica deste episódio ao leitor, o antigo aluno da FLUL descobriu e redescobriu algumas fontes da história para publicar agora 1147 A Conquista de Lisboa – Na Rota da Segunda Cruzada, editado pela Esfera dos Livros.

Alumnus do curso de História da FLUL, Miguel Gomes Martins procurou saber neste novo livro como decorreu, de facto, a conquista de Lisboa aos muçulmanos. E como foi efectivamente essa conquista? A resposta está nas próximas linhas.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

 

pequenoO que é que ainda há para revelar sobre a Conquista de Lisboa que não seja conhecido?

Miguel Gomes Martins (MGM): De facto, as fontes narrativas e documentais de que dispomos em 2017 para estudar a Conquista de Lisboa são rigorosamente as mesmas de que dispunham os autores que, desde Alexandre Herculano, se debruçaram sobre este tema. Na verdade, importa ter em atenção que, graças aos progressos historiográficos verificados ao longo das últimas décadas – e recordo apenas os inúmeros e valiosos contributos da História Militar ou da Arqueologia urbana em Lisboa –, dispomos, hoje, de ferramentas e de conhecimentos que permitem sujeitar essas fontes a um questionário diferente. Além do mais, esses mesmos progressos possibilitam interpretar as informações veiculadas pelas fontes sob uma outra perspectiva e, inclusivamente, reequacionar algumas questões habitualmente rejeitadas pela historiografia, como é o caso do célebre episódio de Martim Moniz ou da lenda da Batalha de Sacavém.

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Diz que este é um trabalho de âmbito panorâmico...

MGM: Desde logo, porque não pretende observar apenas um ou outro aspecto da conquista de Lisboa, mas sim as suas diversas dimensões e vertentes. Aliás, só o facto – expresso no próprio título – de se pretender enquadrar a conquista de Lisboa no projecto político, militar e religioso que foi a segunda Cruzada é, por si só, um sinal desse carácter alargado que pretendemos conferir à análise. Este é também um estudo de carácter panorâmico porque procura enquadrar a conquista de Lisboa, por um lado, num quadro mais vasto de expansão territorial do jovem reino de Portugal e, por outro, no contexto da Reconquista Cristã Peninsular, temas que procurei abordar. Mas essa perspectiva panorâmica do cerco de 1147 é, acima de tudo, o resultado do alargamento do nosso campo de visão a questões que muitos dos estudos anteriores não deram a devida atenção, tais como a componente naval, o abastecimento dos exércitos, a composição das forças portuguesas, o armamento, ou o destino dado aos que morriam em combate, entre muitos outros temas.

pequenoExistem muitas fontes sobre a conquista de Lisboa que se caracterizam pelas lacunas que apresentam. O trabalho de investigador surge aqui mais dificultado? alumni miguel gomes martins

MGM: Na realidade, as principais fontes de que dispomos fornecem-nos uma imagem bastante rigorosa do cerco de Lisboa. E para além disso são relatos que encaixam quase na perfeição, já que apresentam perspectivas diferentes dos acontecimentos vividos durante o cerco. Claro que, por muito detalhados que sejam, são inúmeras as questões que esses textos deixam em aberto, nomeadamente as que dizem respeito ao papel das forças portuguesas que, em qualquer um deles, surge muito secundarizado e, por vezes, propositadamente esquecido. Nesse sentido, talvez a maior dificuldade do historiador seja mesmo compreender o papel desempenhado no cerco pelo exército de Afonso Henriques. No entanto, aquilo que hoje sabemos, por exemplo, a respeito da organização militar portuguesa do século XII, permite-nos reconstituir – ainda que de modo conjectural – algumas das questões a que os relatos dos Cruzados não dão resposta.

pequenoQue papel têm as Crónicas e os relatos dos Cruzados neste aspecto?

MGM: Na falta de fontes documentais sobre o tema, as fontes narrativas constituem, claramente, os alicerces de qualquer estudo sobre a conquista de Lisboa. Ainda assim, são fontes muito desiguais. Muitas delas não passam de notícias curtas e meramente informativas. É um cenário em tudo semelhante àquele com que nos deparamos quando observamos as fontes elaboradas fora do espaço português, isto para não falar dos poucos textos muçulmanos que abordam a conquista de Lisboa. Claro que existem fontes narrativas que descrevem o cerco de 1147 com um considerável grau de detalhe. Mas por muito importantes que sejam estas fontes, as que mais úteis se revelam para a compreensão da forma como decorreu o cerco de Lisboa são, inquestionavelmente, os relatos deixados por alguns dos Cruzados intervenientes nesse episódio. Extremamente ricos em informações, pormenorizados e, sobretudo, fidedignos, são, por isso, a principal base de estudo de todo e qualquer trabalho que tenha como objecto de análise o cerco de 1147.

pequenoA conquista de Lisboa contou com a participação de um grande número de estrangeiros. Qual o papel da Segunda Cruzada?

MGM: Uma das questões que procurei sublinhar foi a relação entre a conquista de Lisboa e a Segunda Cruzada, expressa não só na circunstância de os combatentes estrangeiros que auxiliaram Afonso Henriques serem cruzados em trânsito para a Síria-Palestina, mas sobretudo no facto de esse auxílio ter sido previamente planeado e, desde cedo, preparado como uma parte integrante da Cruzada. Os 10.000 efectivos – e relembre-se que Afonso Henriques não terá mobilizado muito mais de 3.000 homens – são importantes pelos seus conhecimentos de poliorcética, designadamente das técnicas de construção de engenhos de cerco ou de abertura de minas, algo que as forças portuguesas ainda não dominavam. A participação dos cruzados na conquista de Lisboa viria, de facto, a revelar-se absolutamente decisiva para o desfecho do cerco.

pequenoConsidera que a Segunda Cruzada foi ou não um fracasso de acordo com os resultados atingidos?

MGM: Se avaliarmos o sucesso da Segunda Cruzada apenas à luz daquele que foi o objectivo que presidiu à sua convocatória – a reconquista de Edessa – ou mesmo daquele que acabou por ser o Plano B, ou seja o objectivo estratégico alternativo – a conquista de Damasco –, então o balanço desse empreendimento é inequivocamente negativo. E mesmo que introduzamos na equação as campanhas no Báltico ou as bem-sucedidas conquistas de Lisboa, em 1147, e de Tortosa, em 1148, nada altera o facto de esse empreendimento se ter revelado, à luz dos seus objectivos iniciais, um fracasso. Contudo, se nos recordarmos que a participação de Cruzados na Conquista de Lisboa foi algo previamente acordado e planeado, então talvez o balanço não seja assim tão negativo. É, se quisermos, um cenário um pouco semelhante ao da Terceira Cruzada, que apesar de não ter alcançado o objectivo a que se propôs – a reconquista de Jerusalém –, logrou conquistar a ilha de Chipre e as cidades de Acre e de Jaffa, pelo está longe de poder ser considerada um fiasco.

pequenoQue maiores diferenças se encontravam entre guerreiros cruzados e guerreiros portugueses?

MGM: As diferenças mais visíveis residiam, por um lado, no facto de só as forças portuguesas disporem de combatentes a cavalo, já que os cruzados – mesmo os cavaleiros – não transportavam consigo as suas montadas e, por outro, na circunstância de só os contingentes estrangeiros contarem com especialistas na construção de engenhos de cerco. De resto, nem sequer no armamento se observavam diferenças substanciais, já que Portugal acompanhava de perto as novidades que, a esse respeito, iam surgindo nas regiões além-Pirenéus.

pequenoO abastecimento e a subsistência dos combatentes merece destaque no livro. Como era feito? Sabemos que os próprios combatentes portugueses adquiriam eles mesmos os mantimentos para os momentos iniciais do combate…

1147 a conquista de lisboaMGM: Essa era, de facto, uma questão que podia ditar o desfecho de qualquer operação de cerco, ora devido ao esgotamento dos armazéns dos sitiados, o que inevitavelmente acelerava a sua capitulação, ora porque se revelavam insuficientes para assegurar a subsistência dos sitiadores, obrigando-os a desistir dos seus intentos. Por isso mesmo, na eventualidade de um cerco era essencial, quer a um lado, quer ao outro, assegurar víveres em quantidade suficiente de modo a aumentar as suas possibilidades de sucesso. No caso concreto de um exército em campanha em território hostil, era comum a presença de trens de apoio com alguns víveres, o que somado à “taleigas” que cada combatente levava consigo, deveriam ajudar a suprir as necessidades durante alguns dias. Contudo, porque era impossível transportar alimentos para toda uma campanha e para todos os combatentes nela envolvidos, o mais comum era “viver da terra”, ou seja pilhar, roubar ou confiscar os mantimentos necessários nos locais por onde a coluna de marcha ia passando, ou, no caso de uma operação de cerco, na região em torno do alvo cercado.

pequenoMas a fome era transversal aos exércitos?

MGM: Pedro Gomes Barbosa, afirma, com toda a razão, que “o espectro da fome perseguia os exércitos”. Na verdade, a impossibilidade de fazer transportar num trem de apoio todos os alimentos necessários levava a que tivessem que ser encontradas outras formas de assegurar o abastecimento, sendo que a mais comum era “viver da terra”. No entanto, nem sempre era possível fazê-lo.

pequenoA escada era um dos artefactos mais usados nos combates. Que outros engenhos e construções fizeram parte do combate? Eram de difícil e morosa construção?

MGM: O cerco de Lisboa de 1147 é uma verdadeira montra da poliorcética do século XII. Na verdade, os sitiadores recorreram a praticamente todos os meios conhecidos para tentar conquistar a cidade: trabucos de tracção humana, torres de assalto, abertura de minas e assaltos directos através de uma porta ou de uma brecha nas muralhas. No entanto, como em muitas outras situações semelhantes, foram as torres de assalto que acabaram por decidir o desfecho do cerco. Mas apesar de comuns em operações de cerco, nem por isso estas estruturas eram de fácil construção, exigindo não só tempo, como muita mão-de-obra e materiais de boa qualidade, para além de terem que ser edificadas de acordo com especificidades técnicas que nem todos dominavam.

pequenoE depois do combate, a perda populacional que existiu em Lisboa foi superada pelos Cruzados que optaram por aí ficar? Como é que a cidade se repovoa?

MGM: Ao contrário do que sucedeu, por exemplo, em Almeria, cuja população foi maioritariamente chacinada ou sujeita ao cativeiro, em Lisboa os conquistadores limitaram-se a expulsar a população muçulmana. Nesse sentido, nos dias imediatamente a seguir à sua capitulação, a cidade estava habitada exclusivamente por combatentes portugueses e estrangeiros. No entanto, a pouco e pouco, essas forças foram partindo ficando em Lisboa apenas um grupo relativamente reduzido de homens, boa parte dos quais cruzados que optaram por não seguir viagem. A estes cedo se somaram mais homens e mulheres oriundos do norte e centro de Portugal atraídos pelas perspectivas que esta nova conquista lhes oferecia. Só que por essa altura já muitos dos muçulmanos tinham começado a regressar, autorizados pelas novas autoridades da cidade, porquanto a sua presença era essencial para a manter em funcionamento, ou seja, para assegurarem algumas actividades produtivas básicas, como o comércio ou a panificação. A comunidade muçulmana da Lisboa cristã seria de tal forma numerosa, que em 1170 o rei se viu na necessidade de regulamentar os direitos e deveres desses homens e mulheres.

pequenoO que é que mais o surpreendeu pela novidade na pesquisa que fez?

MGM: Talvez o que mais me surpreendeu tenha sido, por um lado, a ampla difusão internacional que, logo na altura, foi dada à conquista de Lisboa e, por outro, o papel destacado das forças portuguesas e de Afonso Henriques no desenrolar do cerco, já que estas são questões a que as fontes disponíveis – em particular os relatos dos cruzados – dão pouco relevo e que, por consequência, tem tido pouca atenção por parte da historiografia.