“As faculdades foram lugares que mudaram as vidas e os destinos dos refugiados”

Num tempo em que se tornaram comuns as histórias e as imagens de refugiados, José Jorge Letria resgata da sombra o perfil de 50 pessoas que partiram para o exílio. Dos retratos que constituem “Refugiados – 50 Vidas sem Pátria e com História”, editado pela Guerra & Paz, constam nomes como Freddie Mercury, Albert Einstein ou Hannah Arendt.

Mas no livro encontramos, igualmente, o perfil de dois antigos alunos e professores da FLUL, António José Saraiva e Joaquim Barradas de Carvalho, também eles duas vidas que passaram pelo exílio. Falámos com o autor, alumnus do curso de História da FLUL, sobre o papel da Academia na abertura do pensamento e sobre a importância e urgência de uma reflexão sobre os refugiados.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

 

pequenoQual é o objectivo principal da obra? Recordar, como diz a eurodeputada Ana Gomes no prefácio da obra?

José Jorge Letria (JJL): O grande objectivo é recordar e fazer desse acto um pretexto para a reflexão adiável e motivadora sobre o tema.

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Entre as 50 vidas que coloca em destaque na obra, há vários casos de refugiados que viveram a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial. O que é que mais define os refugiados destes dois episódios? il jose jorge letria antonio manuel ribeiro e samuel a 15 04 2013 35

JJL: São pessoas que fogem da tragédia da guerra e do medo da morte e da perda da liberdade. Foi um tempo de grande sofrimento colectivo, de perda global e de miséria. Alguns conseguiram recomeçar e tiveram o êxito merecido pela resistência, pela coragem e pelo talento.

pequenoDiz que este “livro é uma viagem pela memória”. Num tempo em que tudo passa tão rapidamente, em que se tornaram quase banais as notícias sobre a fuga e salvamento de refugiados, o livro surge como algo contracorrente, que quer perpetuar a situação e o valor dos refugiados?

JJL: O drama dos refugiados é intemporal e sempre trágico. O livro acentua essa intemporalidade e apela aos leitores e à sua capacidade de mobilização cívica.

pequenoAlbert Einstein e outras tantas figuras destacadas da sociedade e cultura mundiais fazem parte dos retratos de refugiados que traçou no livro. A situação de refugiado ajuda a desenvolver as capacidades artísticas e intelectuais? É possível encontrar uma relação?

JJL: E muito difícil estabelecer uma relação. Mas estou convicto de que a adversidade fortalece o desejo de vencer e de cumprir um plano de vida e de obra que seja exemplar e motivador. Temos neste livro vários exemplos disso.

pequenoAntónio José Saraiva e Joaquim Barradas de Carvalho, antigos alunos e antigos professores da Faculdade de Letras, são outras das “50 vidas” que apresenta no livro, e que podem enquadrar-se no que acaba de dizer. As faculdades também foram espaços relevantes onde muitas purgas se efectivaram levando ao exílio. Muitas vezes esquece-se esse facto?

capa refugiados 300dpiJJL: As faculdades foram lugares de aprendizagem e de crescimento cívico e ideológico. Foram, por isso, lugares que mudaram vidas e destinos. Esses exemplos são excelentes.

pequenoEnquanto antigo aluno da Universidade de Lisboa, também recorda esses tempos quentes na Academia? O que recorda?

JJL: Recordo-os intensamente, tanto na Faculdade Direito como depois na Faculdade de Letras. Foram tempos únicos da minha vida e ainda hoje marcam as minhas emoções e combates culturais e cívicos. Nunca esquecemos a nossa escola, as nossas escolas.

pequenoNo livro retrata 50 casos de refugiados sem pátria mas com história. A selecção foi difícil? O que motivou a escolha destes e não de outros casos?

JJL: A selecção é sempre difícil quando escolhemos vidas e exemplos, sobretudo quando as comparamos com outros percursos igualmente únicos e marcantes. Levei em conta muitos factores, desde os humanos até a excelência da obra construída.

pequenoOlhando agora para o panorama actual, “a crise não é dos refugiados… esta crise é da Europa” diz Ana Gomes no prefácio da obra. O que é que está a falhar?

JJL: É estruturalmente uma crise profunda da Europa. O que está a falhar é a capacidade de diálogo e de compreensão estratégica do que deve ser o futuro no quadro de uma visão humanista e solidária do ser humano e da sua relação com o Estado e com as ideias.