“Uma boa ficção terá sempre um efeito catártico”

No inicio de um novo ano lectivo partimos em viagem… sem sair do lugar. Conversámos com Júlia Nery, alumna do curso de Filologia Românica da FLUL, sobre o seu mais recente romance Ei-los que partem, editado pela Sextante.

A autora fala em “contemporaneidade” para descrever o romance. Ela que durante anos foi professora do ensino secundário, diz ter encontrado aí a inspiração necessária. Razões diferentes levaram um grupo de amigos a emigrar para países distintos. Ao FLUL Alumni revela as razões na origem do romance: resolver a angústia, possibilitar uma catarse… 

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

 

pequenoUm grupo de jovens, destinos diferentes, emigração portuguesa a acontecer. A contemporaneidade é aquilo que melhor define este romance?

Júlia Nery (JN): A contemporaneidade é uma das características fundamentais de Ei-los que partem, mas em toda a narrativa se entretecem histórias de portugueses migrantes que, desde o século XVI, partiram para a Índia, das Beiras para o Alentejo, para o Brasil, o Ultramar e a Europa, buscando trabalho, fortuna. Também a reflexão das personagens sobre este fenómeno e os projectos de futuro de algumas delas revelam a intemporalidade deste romance.

pequenoOnde encontrou inspiração? Falou com muitos jovens “de cá” e “de lá” para escrever o livro?

JN: A inspiração encontrei-a numa realidade que começava a preocupar-me, pois via partir alguns dos meus melhores alunos e jovens que conhecia. Sim, falei com muita gente, li notícias, reportagens, estudos, pois temos de conhecer o melhor possível a realidade para construir, com verosimilhança, a ficção.

pequenoTem situações de emigração que lhe são próximas?julianery

JN: Só de amigos. Felizmente, nenhum dos meus filhos emigrou, ainda que para alguns deles uma enriquecedora experiência de circulação por vários países faça parte do trabalho.

pequenoA emigração é uma realidade que a angustia? 

JN: Angustiava-me, interrogando-me: valeu a pena o país ter investido tanto na educação de uma geração que vai agora criar mais valias noutros países? Curiosamente, esta tem sido uma questão transversal a todos os debates nas apresentações de Ei-los que partem. As opiniões de leitores, que se reconhecem em situações semelhantes às de algumas das minhas personagens, têm mudado este meu sentimento, especialmente o que disse uma jovem cientista, já com bom currículo internacional: “Os jovens cientistas portugueses são muito considerados, há muitos a regressar que trazem bons projectos financiados para serem desenvolvidos cá; o nosso país, através do trabalho deles, ganha respeito e é valorizado.”

pequenoA angústia do partir e a ânsia do voltar. São temas difíceis para um escritor?

JN: São desafiantes. Deram-me, neste caso, a possibilidade de múltiplos enfoques na criação de uma trama romanesca protagonizada por personagens que representam simbolicamente milhares de jovens que, nos últimos anos, deixaram Portugal e vão experimentar uma nova forma de viver, assente na mobilidade: têm uma atitude diferente face à emigração, considerando-se ”em circulação”, e resolvem de outa maneira os problemas que têm de enfrentar, até os afectivos. Pela actual facilidade e rapidez de deslocação e comunicação, a saudade já não é o que era. Mas, quase todos têm em comum com o emigrante tradicional a ideia de voltar.

pequenoEi-los que partem pode ser visto também como um mergulho nos sentimentos que a emigração faz notar?

JN: Tal como qualquer romance, Ei-los que partem, pela mágica da boa ficção deverá ter criado, imaginativamente, a similitude de uma experiência real que passa por trazer ao leitor as emoções e sentimentos de personagens emigrantes, em situação de desenraizamento dos seus espaços físicos e afectivos. Por conversas com leitores, penso que, pelo menos com alguns, essa mágica aconteceu.

pequenoEsta não é, no entanto, a primeira incursão nesta temática narrativa…

ei losJN: Como romancista sempre me interessou efabular sobre o encontro consigo, com o “outro” e com os diferente e novos espaços, de personagens em situação de desenraizamento. Assim fiz em Pouca terra…Poucá terra (Edições Rolim, 1984) e em Da Índia, com amor (Sextante Editora,2012).

pequenoNo livro há quem saia para cumprir um sonho, quem queira melhorar e mudar de vida, ou até quem volte a uma origem que ficou para trás. Fica a ideia que muitas vezes partir é uma fuga para a frente…. Foi também essa a ideia que procurou passar?

JN: Não posso ainda saber se houve muitos leitores que captaram essa ideia que esteve no meu espírito durante toda a escrita de Ei-los que partem. Ao ler um romance, deve procurar-se a história e nela encontraremos a mensagem ou mensagens que são, tantas vezes, diversas de leitor para leitor.

pequenoDaí que a emigração seja quase que substituída na obra por uma ideia de “circulação” de pessoas, de ideias, de perfis, de experiências: Lília estava “consciente de que a qualquer momento podia regressar a casa”…

JN: Aí reside uma certa “novidade” do romance em relação ao conceito de emigração; ela passa em toda a história contada e talvez leve o leitor a entender a nova emigração exactamente como circulação de pessoas, ideias, experiências, aprendizagens, partilhas.

pequenoQue feedback tem tido dos leitores? Há quem se reconheça neste grupo de amigos de Ei-los que partem?

JN: O feedback tem sido gratificante, especialmente por proporcionar interessantes debates. Alguns pais pedem-me para assinar livros para filhos que estão longe. A saudade é compensada, dizem, pelo reconhecimento de que eles estão a adquirir novas competências, são promovidos quando dão boas provas, melhorando a auto estima pelo reconhecimento do seu trabalho e esquecendo assim a frustração que os levou a partir.

pequenoSabemos que a diáspora portuguesa tem crescido nos últimos anos. Romancear uma realidade tantas vezes difícil de aceitar para quem fica pode ter um efeito catártico?

JN: Uma boa ficção terá sempre um efeito catártico. Espero que assim aconteça com Ei-los que partem.

pequenoTem um caminho feito no romance histórico, também na dramaturgia. O romance contemporâneo, é onde quer permanecer por agora?

JN: Obras começadas, tanto no domínio da dramaturgia como no da ficção, esperam na gaveta. Vou retomá-las e continuar aquela que se agarrar a mim sem me deixar pensar em mais nada.