“Neste livro há um romance dentro do próprio romance”

Romance de estreia da alumna Cristina Almeida Serôdio, A Casa das Tias é mais do que a história de uma família. Se as duas tias solteiras já seriam um ponto de partida que podia contribuir para um enredo sustentado, aquela “casa fechada” que serve de cenário ao livro é garante de muitas outras histórias.

Mas não se pense que o exercício de ficção fica por aí. Cristina Almeida Serôdio, licenciada e mestre em Literatura Portuguesa Moderna pela FLUL, instituição onde também exerceu como assistente convidada, procurou criar uma ficção dentro da própria ficção. Afinal, diz a autora, espera convencer-se que não é “uma autora menor, um pintor de domingo”…

 

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

 

pequeno Como é que surgiu a ideia para esta história? Onde é que se inspirou para criar uma Casa das Tias?

Cristina Almedia Serôdio (CAR): Não houve uma ideia prévia, apenas a imagem de uma casa e de uma família com muitas histórias. A partir daí comecei a escrever pequenos textos que se iam sobrepondo – uns quadros, que não sabia o que seriam – e que foram constituindo este livro.

pequeno Há elementos da sua própria biografia “escondidos” no enredo? O que é que o livro tem das suas vivências? Não lhe empresta apenas a imaginação... 3010

Sim. Há sempre. A nossa vida é o recurso mais acessível da criação literária e de outras. Não haveria literatura sem memória e experiência, directa ou indirecta, de vida. 

pequeno Quem é a M., afinal? Porquê a opção por apresentá-la como M.? 

M. é a personagem central, a ficção, a herdeira e dona da casa, que encomenda à amiga, desejosa de assunto, a história da família. Está, de certo modo, encoberta pelo nome que não se revela, como se dissimulasse a sua identidade. O encobrimento é uma graça literária.

pequeno Este é um livro que vive de descrições muito visuais. É fácil imaginar a espera pelo Tio Henrique que subia aqueles seis andares de elevador… E quase que ouvimos aqueles “gritinhos”…

Isso deve relacionar-se com a minha atenção, que deve ser visual, sobretudo. Retenho imagens e histórias. Depois, devo achar e gostar do que é concreto na narrativa, talvez.

pequeno “E no fim das coisas escritas – e do que M. achou que eu devia e não devia ter dito ou fingido saber – aqui estão, como os minúsculos vidros de uma bola de espelhos, os quadros de uma história que teci”. É assim que termina o livro… O livro acaba por criar uma própria ficção dentro do romance? É quase como termos um romance dentro do próprio romance?

Sim, penso que sim. Há uma primeira história – a que é contada por M. e resultado das suas lembranças e observação das coisas da casa, que é uma ficção, já. E há uma outra, a que tem as alterações que a narradora, desejosa de se mostrar, tece e cria.

pequeno Este é o seu primeiro romance. Tem mais algum livro já escrito ou em preparação para editar?

a casa das tias 1Coisas soltas... Mas livro mesmo, ainda não. Apenas ideias que poderei trabalhar ou abandonar, caso não resultem em conteúdo romanesco.

pequeno A formação na FLUL ajudou-a a descobrir o gosto pela escrita?

Entrei na Faculdade de Letras por gostar muito de literatura, de ler, recitar e escrever. Passei a ter, com os sabedores professores que encontrei, conhecimento de grandes e difíceis autores, e de alguns cuja genialidade era de certo modo atemorizante. Desenvolvi um espírito autocrítico que me inibiu durante muito tempo. Convenci-me que, se escrevesse, não passaria de uma autora menor, como um pintor de domingo. Mas aprendi muito, muito.

pequeno O que é que retém desses tempos? Também exerceu actividades lectivas…

Estive em momentos muito diferentes como aluna e como docente. Saí da Faculdade, licenciada, em 1981 e comecei a dar aulas de Português na escola, profissionalizei-me. Fui, dez anos mais tarde, convidada pela professora Margarida Vieira Mendes a leccionar um seminário de Didáctica do Português – Literatura no Ramo de Formação Educacional - que também tinha sido assegurado pela escritora Lídia Jorge. Uma responsabilidade acrescida! E, até 2006, estive como assistente convidada ligada à formação dos professores de português nesta área.

pequeno Deu aulas na FLUL e agora no ensino secundário. É assim tão diferente? O que é que descobriu no acto de leccionar com essa mudança?

Muito diferente. No ensino secundário é preciso ter mais energia e convicção. Os adolescentes têm, muitas vezes, uma atitude face à escola que não é de aceitação. E encaram o ensino do Português como uma redundância. Mas a curiosidade dos mais novos é preciosa, porque podem ser sensibilizados e tocados pela leitura, a escrita, a literatura.