“Quase que assumimos que o Caso Camarate foi uma vingança”

Ricardo Raimundo, alumnus dos cursos de Licenciatura e Mestrado em História da FLUL, não tem dúvidas que a morte de Francisco Sá Carneiro aconteceu por vingança. Camarate é, no entanto, apenas um dos mais de 40 episódios contados no livro Grandes Vinganças da História de Portugal.

Ricardo Raimundo revela que catalogar vinganças pode ser “redutor e perigoso”, mas no livro que acaba de publicar são as “vinganças políticas” que assumem destaque. Até porque, defende o autor, o desejo de vingança faz parte do ser humano…

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

 

pequenoPorquê a escolha do tema “vinganças” para este seu novo livro?

Ricardo Raimundo (RR): O desejo de vingança é inato ao ser humano, estando na base de múltiplas acções que tiveram terríveis impactos no decurso da História. Ora, foi precisamente o interesse em analisar a História de Portugal à luz deste móbil que me levou a investigar sobre as principais vinganças da nossa história.

pequenoEste é um livro que passa muito, também, por explicar as motivações na origem dessas vinganças. ricardo raimundo baixa

RR: Sim. Todas as vinganças têm um motivo, uma razão mais ou menos óbvia, o que a torna inteligível ao olhos de quem, passados tantos anos sobre os acontecimentos, olha para os factos.

pequenoNo livro temos vinganças políticas, religiosas, por mulheres, por amor, … Mas também há vinganças falhadas… 

RR: Procurei catalogá-las, o que acaba por ser um pouco redutor e perigoso… Mas foi por uma questão de economia discursiva e para orientar melhor o leitor, tornando-se mais prático. Em relação às vinganças falhadas torna-se particularmente interessante, pois resultam de uma conjugação de factores em que, muitas vezes, foi a sorte a ditar que corressem mal, ou um mau planeamento da mesma.

pequenoAs vinganças políticas são, no entanto, aquelas que têm maior destaque no livro: dá a conhecer dez delas. As razões políticas sempre foram mais fáceis para justificar as vinganças da História de Portugal?

RR: A história é feita pelo lado vencedor e aquilo que sabemos sobretudo para as épocas mais recuadas, é proveniente de figuras com uma íntima ligação ao círculo do poder. Ao mesmo tempo, grande parte da informação factual e documental de que dispomos tem um conteúdo político/institucional. Daí que não é de estranhar que as vinganças políticas sejam aquelas que predominam nesta obra.

pequenoQue vinganças mais o surpreenderam?

RR: As vinganças que mais me surpreenderam prendem-se com a sucessão de acontecimentos violentos ocorridos durante a Primeira República que culmina com a "Camioneta Fantasma". Não só pela violência e pelo terror dos acontecimentos, mas também pelo facto de terem sido assassinadas personagens que, anos antes, tinham desempenhado um papel crucial na cena política associada à implantação da República.

pequenoPorquê incluir o Caso Camarate como vingança, quando termina esse capítulo notando que “mas toda esta tese continua ainda hoje por provar…”?

grandes vingancas da historia de portugal realRR: Porque todos sabemos, e quase que assumimos, que se tratou de uma vingança, com todas as provas a apontarem para essa tese. No entanto, as comissões parlamentares insistem em dar o caso como inconclusivo. Daí terminar do modo como cita.

pequenoUma parte referente a “possíveis vinganças”, faria sentido neste livro?

RR: Sim. Seria possível incluir uma parte referente a “possíveis vinganças”. Existe alguma matéria que permite apontar para esse sentido, mais no domínio da história contemporânea e teríamos que reforçar o capítulo das vinganças políticas.

pequenoNo livro dá a conhecer 40 vinganças. Ficaram muitas vinganças da História de Portugal por contar? Há matéria para continuar?

RR: Poderiam ser acrescentadas mais umas quantas histórias, mas não o suficiente para produzir uma obra autónoma.

pequenoEm que medida a formação em História na FLUL aguçou o gosto pela investigação?

RR: Tive a sorte de ter alguns dos melhores professores que desde o início nos estimularam para a investigação e o facto de termos a Torre do Tombo aqui ao lado foi ouro sobre azul!

pequenoO que recorda dos seu tempos de estudante na FLUL?

RR: Essencialmente alguns professores pela forma estimulante como nos aguçaram o desejo de conhecer e de investigar.