Alumna Isabel Valadão revisita em livro a Macau da II Guerra Mundial

A década de 40 em Macau serve de pano de fundo do novo romance da alumna Isabel Valadão, que junta na mesma história a II Guerra Mundial com a realidade das “noivas chinesas de portugueses”.

Duas protagonistas – Maria e Luísa – rivalizam pela atenção dos leitores, contrastando pela sua personalidade. A autora, que teve um percurso profissional feito na área da análise química dos solos e decidiu, mais tarde, fazer a licenciatura em História de Arte na FLUL, fala num acto de “ressuscitação” para descrever o seu O Rio das Pérolas, que acaba de ser editado pela Bertrand.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados 

pequeno Que livro é este, com duas protagonistas?

Isabel Valadão (IV): Este é um livro sobre gente que existiu, gente real, que eu fiz ressuscitar e transportei no tempo para o cenário de uma Macau dos anos da II Guerra Mundial e para além dela… É um romance histórico em cujo enredo intervêm personagens fictícias, mas marcadas por uma certa tipicidade própria dos habitantes daquele antigo território então administrado por Portugal e, mais especificamente, durante o período em que a trama se desenrola. Macau sempre foi caracterizada por uma imensa variedade de culturas e de gentes de todo o mundo. São ‘apenas’ duas protagonistas, mas poderia ser uma história de muitas mais. Nesta, a d'O Rio das Pérolas, há mais algumas facilmente identificáveis: as religiosas, as professoras, as matronas das casas da Rua da Felicidade, a matriarca, a líder de tríades, a corsária,… Complementam-se e oferecem daquele tempo, no seu conjunto, uma imagem muito real do mundo feminino naquelas paragens. Em boa verdade, existem mais protagonistas que, pelo seu percurso na trama desenvolvida, oferecem entre si uma amostra mais completa e diversificada desse mundo feminino, misterioso e desconhecido, tantas vezes cruel e tenebroso.

pequeno Como é que caracterizaria cada uma delas? Maria é uma pessoa "revoltada"… isabel valadao

IV: Maria – ou Mei Lin – não é uma "revoltada" no sentido mais restrito da palavra. Não tem razões para o ser. Ela deseja apenas libertar-se de um mundo formal, regulado por instituições, comandado por homens. Deseja alcançar uma certa liberdade que apenas existe na sua imaginação. São os muros e as portas do colégio que ela deseja ultrapassar. E com isso se liberta de um mais do que provável casamento de escravidão. Para além de tudo isso existe um mundo que quer conhecer. E nela floresce uma confiança desmedida na sua capacidade de o conquistar. Mas, em boa verdade, ela não imagina o que nele vai encontrar. Já Luísa é caracterizada pela humildade e pela mansidão. Encontra nos seus silêncios todas as respostas para as suas dúvidas. É o contraste do que Mei Lin representa na história. Enquanto que uma vive uma aventura trepidante em cada dia da sua vida, a outra resigna-se numa felicidade relativa, sem ambição e sem sonho e espera confiadamente que o futuro a encontre por si.

pequeno Falamos também da realidade conhecida como "noivas chinesas de portugueses".

IV: As "noivas chinesas de portugueses" eram, invariavelmente, órfãs, muito jovens, criadas e educadas cristãmente em instituições de caridade, ao ponto de ficarem aptas para governar uma casa de família, serem prendadas em trabalhos manuais, especialmente em bordados, técnica dominada pelas "boas esposas" e muito apreciada pelos homens portugueses, bem como pelas culturas portuguesa e macaense. O objectivo fundamental era serem socialmente integradas na comunidade e terem a possibilidade de casar, preenchendo a falta de noivas no Território. No início, essa missão seria desenvolvida pela Santa Casa da Misericórdia, que criava as órfãs até à idade de casarem e investia nestas raparigas para que elas viessem a ser as potenciais noivas cristãs dos portugueses e dos macaenses. Mais tarde, essa missão passaria a ser entregue a vários organismos e instituições de caridade, entre os quais, à Ordem das Irmãs Canossianas e à das Irmãs Clarissas.

pequeno O papel das mulheres na China está, por isso, bem patente na obra… 

IV: Sim! Procurei caracterizar uma realidade presente naquele contexto mais vasto, dramaticamente influenciado por tradições em uso na China mais profunda que faziam da mulher um objecto descartável ou um ser humano dispensável. A mentalidade do próprio povo considerava-as financeiramente pesadas nas famílias mais humildes e de escassos recursos. Por isso eram abandonadas, eliminadas ou vendidas como escravas a seitas que se dedicavam à prostituição organizada. Ou pior… É preciso esclarecer, no entanto, que ‘esta’ China é muito diferente da que serviu de palco a O Rio das Pérolas.

pequeno Porquê a escolha de Macau para cenário? Já tínhamos tido África. Há uma relação biográfica na escolha dos lugares para a acção dos livros que escreve?

o rio das perolasIV: Vivi em Macau e gosto de escrever sobre os lugares por onde passei. E deles, Angola estará sempre em primeiro lugar. Quis, com este livro, fazer uma pausa. Em breve voltarei a Angola.

pequeno O livro é também um mergulho numa época histórica relevante a nível internacional…

IV: É! E também perturbante. A sempre periclitante e permanentemente ‘enjeitada’ presença de Portugal em Macau por parte da China, a diferença de mentalidades, os abismos criados pela língua: todas as ruas têm dois nomes distintos, um em Português e o outro em Cantonense. Mas não só… Existia um confronto permanente e contido entre chineses ‘submetidos’ a uma autoridade que não reconhecem, uma comunidade macaense fechada nos seus pergaminhos centenários, preterida na governação da sua terra pelos portugueses que ocupam os lugares de um poder medroso e inadaptado. Macau viveu várias guerras nessa época conturbada e por ali passaram muitos dos actores, de inúmeras origens e nacionalidades, com interesses antagónicos, que as alimentavam e influenciavam.

pequeno De que forma a sua formação em História de Arte contribui para a criação narrativa?

IV: Na investigação. Um romance histórico, como qualquer romance sério, precisa de um esqueleto a partir de uma ideia. A minha formação é em História e Museologia. A História da Arte ensinou-me a identificar épocas, a investigá-las profundamente, a conhecer as origens das coisas, a procurar explicações, a avaliar os momentos da História pelos testemunhos deixados ao longo do tempo por quem a foi fazendo. É com essas ferramentas que o esqueleto se transforma num ser vivo. Num livro. Num livro vivo.

pequeno E porquê História de Arte, licenciatura que fez na FLUL?

IV: Era um velho sonho! Passar da análise química de solos para a História da Arte foi um imenso salto de um universo para outro! A Descolonização teve nisso uma influência tão dolorosa como libertadora. De regresso a Portugal, à terra onde nasci, chamaram-me "retornada". Não gostei. Sentia-me muito mais "refugiada", mas o termo ainda não tinha sido inaugurado. Era preciso esperar quarenta anos por essa inauguração. Foi difícil. Não havia trabalho para nós. Bastava uma simples referência para que as portas se fechassem. Foi nesse ambiente, animada pela minha família, que resolvi voltar a estudar, transformando o sonho numa realidade prática, sobretudo. Tinha então quarenta e cinco anos e era mãe de duas filhas.