“Este livro tenta colocar o dedo na discriminação de género”

No novo livro do alumnus Nuno Gomes Garcia embarcamos rumo a uma distopia. Francine e Jean protagonizam o romance O Homem Domesticado, edição Casa das Letras, no qual a bioengenharia e a discriminação de género assumem um lugar destacado.

Numa conversa com o FLUL Alumni a partir de Paris, Nuno Gomes Garcia, alumnus do Mestrado em História da FLUL, especialidade de História dos Descobrimentos e da Expansão, conta como o livro acabado de publicar pode ser contracorrente e como o trabalho académico pode ser um veneno ou um eldorado para a criatividade.

Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados 

pequenoQue história é esta, a de O Homem Domesticado? É, de facto, uma distopia?

Nuno Gomes Garcia (NGG): É uma distopia, sim. E, como tenho esta convicção, que parece que vai em contracorrente, de que a literatura tem a obrigação de alertar consciências, nada melhor do que o género distópico para levar essa missão a bom porto. A história centra-se num universo em que os homens, ou machos, tal como são referidos no romance, estão submetidos, a todos os níveis, ao poder das mulheres. Uma mulher, Francine, vê-se a braços com um marido, Pierre, que nada acrescenta à sociedade e, para cumprir a lei, é obrigada a escolher um segundo marido, Jean. Ora, esse Jean foge ao padrão, tanto físico, como moral, estipulado pela lei, o que gerará os dilemas que os personagens terão de resolver.

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Porquê a opção pela distopia?

NGG: Em primeiro lugar, tinha o objectivo pessoal de escrever uma distopia. Passei a minha adolescência a ler Philip K. Dick, Orwell, Huxley, Zamyatin. E esse meu desejo veio daí. Em segundo lugar, o mundo de hoje está cada vez mais próximo da Distopia. As pessoas andam alienadas pelo vício da velocidade e do efémero e nem dão importância a valores tão importantes como a privacidade, a convivência pacífica entre culturas e religiões ou o direito a ter um trabalho digno que não nos obrigue a viver na precariedade. Então, achei que a melhor maneira de combater esta proto-distopia real fosse escrever uma distopia ficcionada. As distopias são capazes, pela liberdade que permitem ao escritor, de dar um certo tremendismo ao universo criado. E estas nossas sociedades actuais que, creio, já não ligam à História, precisam desse tremendismo, de uma terapia de choque através do contacto com o sórdido. A literatura é um bom veículo para fazermos esse exercício. 

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Como define os papeis de homem / mulher neste livro? nuno gomes garcia

NGG: O Homem Domesticado partiu de uma necessidade minha de, como feminista convicto, tentar gerar no leitor masculino uma espécie de empatia pelo sofrimento que é infligido às mulheres do nosso tempo. Forçá-lo a ver-se na posição de género oprimido, porque só quando experimentamos o ponto de vista do outro é que sentimos uma verdadeira empatia. E não pensemos apenas nas mulheres que são excisadas ou obrigadas a andar vestidas com uma burqa. As mulheres ocidentais ainda são discriminadas. Fazem o mesmo trabalho por salários mais baixos, sofrem na pele a violência doméstica. Ora, neste romance o sofrimento infligido aos machos é, em muito, semelhante ao sofrimento que é infligido às mulheres do nosso tempo. Este livro tenta colocar o dedo na ferida da discriminação de género.

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A bioengenharia é também um conceito chave para compreender a história.

NGG: Eis algo que me assusta e me fascina, a bioengenharia. Eu sempre estudei ciências humanas. O mais próximo que estive profissionalmente da biologia, por exemplo, foi a exumação metódica de amostras antropológicas que foram aparecendo nas escavações arqueológicas onde participei. Mas a medicina, a engenharia, a astronomia são temas que, dentro das minhas capacidades, tento acompanhar. E, desde há uns anos, que se fala muito do Homem Aumentado, do transumanismo. Pelo menos em França, onde vou vivendo. Esta ideia de, através de componentes tecnológicos, sejam exosqueletos, sejam câmaras de visão nocturna implantadas na córnea, por exemplo, construirmos uma espécie de super-homem preocupa-me. A possibilidade de um ser humano rico poder pagar para se transformar num Homem Aumentado, enquanto outro, pobre, tem de se reduzir apenas à sua própria biologia, permanecendo um Homem Reduzido… tudo isto é muito assustador. Neste romance, a bioengenharia transforma a mulher num Humano Aumentado e torna o macho num Humano Reduzido. Nesse sentido, vai tudo muito além de uma simples guerra de sexos.

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O romance histórico e a distopia têm lugares diferentes na sua existência enquanto autor?

NGG: Não creio. Sou o mesmo actor. Mais velho, talvez mais maduro, mas com as mesmíssimas convicções. Este é o meu terceiro romance. Os anteriores – O Soldado Sabino passa-se durante a Grande Guerra de 14-18 e O dia em que sol se apagou no final do século XV – podem ser considerados romances históricos, mas eu, que não percebo nada de crítica literária, não concordo muito. São romances passados em períodos históricos concretos – ao contrário de O Homem Domesticado que tanto pode ser num passado recente como num futuro próximo –, mas cuja realidade histórica, principalmente no segundo, está de tal forma deturpada que a História do final do séc. XV está praticamente irreconhecível. Eu aceito que o meu primeiro livro seja considerado um romance histórico, já o segundo, não concordo. De qualquer forma, o meu objectivo é sempre o mesmo: alertar o leitor. Seja para o ridículo da guerra, seja para o verdadeiro lugar de Portugal no mundo ou para a condição feminina.

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A descrição visual é um dos elementos presentes. E há descrições visualmente muito fortes no livro.

NGG: Embora seja um ávido consumidor de cinema, não acho que os meus livros sejam muito cinematográficos, embora haja quem os considere assim. Para tal, deveriam ser mais lineares na estrutura, menos estruturados em camadas de multiperspectiva. Embora também haja filmes que seguem esse registo. Mas, sim, acho que tem imagens fortes. Faz parte do tremendismo de que falei antes. Ver mulheres a assumir comportamentos e até corpos que, de certa forma, nós atribuímos naturalmente à condição masculina, pode ser chocante. O oposto também acontece. O macho feminizado é uma constante no livro. Um romance tem de ter descrições visualmente fortes, como diz, senão não conseguirá agarrar o leitor ou competir com a atracção que a televisão e a internet exercem sobre as pessoas. Esse é, na minha opinião, um dos dilemas com o qual a literatura se debate.

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Acaba por ser um livro que permite leituras múltiplas. Também era esse o objectivo?

o homem domesticado 1NGG: O meu objectivo foi o de contar uma boa história, capaz de proporcionar umas boas horas de entretenimento ao leitor, e, ao mesmo tempo, alertá-lo para uma problemática. Agora, não existem dois leitores com a mesma leitura. A propósito deste livro já me acusaram até de não respeitar a mulher. Já é um clássico. Quando saiu o meu primeiro livro, em 2012, O Soldado Sabino, acusaram-me de não respeitar a memória dos soldados chacinados na Flandres. Em 2015, com O dia em que o sol se apagou acusaram-me de ser um antieuropeu, quando os meus filhos têm nacionalidade luso-lituana e nasceram e vivem em França. Portanto, tudo é possível. No meu próximo livro, talvez me chamem herege. As leituras serão sempre tão múltiplas como o número de leitores.

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A sua formação académica, nomeadamente na FLUL, influencia-o na forma de escrever? O que retira da prática de investigação académica para os livros que escreve?

NGG: Tive de me libertar, de me desformatar do registo académico. E foi difícil. O trabalho académico, por um lado, poderá ser um veneno para a criatividade literária, mas por outro, pode ser um eldorado, uma fonte inesgotável de ideias. Eu, como nunca passei cinco anos a trabalhar num doutoramento, acho que me safei a tempo e, mesmo assim, consegui trazer montes de ideias. O meu segundo livro é fruto do trabalho académico em História. O que me influenciou na forma de escrever foi, sem dúvida, a Arqueologia. Os doze anos que trabalhei na área fazem com que seja mais fácil para mim escrever como se escavasse, estrato por estrato, do mais recente para o mais antigo, de começar no depois e acabar no antes. Já tentei escrever de forma linear, mas, com honestidade, não consigo, nem gosto.

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Sei que no caso de O Dia em que o Sol se Apagou, muita da pesquisa que fez para um trabalho na FLUL acabou por lhe servir para montar a história…

NGG: Sim, O Dia em que o sol se apagou começou a germinar na FLUL. Comecei a escrevê-lo no comboio entre o Porto e Lisboa nos dias em que tinha seminários na FLUL. Embora, por ter de sair de Portugal, nunca tenha conseguido concluir os estudos a que me propus, consegui aproveitar muitos dos ensinamentos que os nossos professores nos transmitiram. Foram tempos muito felizes.

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O que podemos esperar no futuro do Nuno Gomes Garcia escritor? Já está a escrever algum novo livro?

NGG: Mais livros, espero. Estou a terminar um romance – ao qual, já sei, chamarão histórico – que decorre na Palestina do século I. Aparecerá, calculo, nas livrarias algures em 2018.