"No Bar de Letras íamos todos salvar o mundo. Foi a nossa verdadeira universidade nesse tempo."

Por ocasião do lançamento do novo livro de Alice Vieira – Só Duas Coisas que, entre tantas, me afligiram –, o FLUL Alumni falou com a alumna da FLUL sobre o acto de escrever e pensar, o lugar do jornalismo e o papel da Faculdade de Letras na sua vida.

Recordando momentos, lembrando professores e revivendo lugares, Alice Vieira, que se formou em Filologia Germânica depois de entrar na FLUL “sem grande entusiasmo”, conta como o Bar de Letras teve um papel crucial na sua formação. Um exercício de memória, num tempo em que a actualidade a aflige…

Entrevista: Tiago Artilheiro       |         Fotografia: Alice Vieira 

pequenoSó duas coisas, entre tantas, a afligiram… No livro concluímos que foram (são) bem mais. O que é que verdadeiramente a aflige?

Alice Vieira (AV): Tantas coisas me afligem…E já nem falo das que nos afligem a todos nestes dias de incertezas e ameaças. Falo de coisas aparentemente mais banais: a falta de memória das pessoas, a indiferença, a solidão para que atiram os velhos, por exemplo.

pequenoeu na cidade universitaria 1962No livro estão presentes vivências de um tempo que ficou mais ou menos para trás, mas que recupera para o presente para, de alguma forma, conseguir compreendê-lo. O livro também é isso, uma reflexão inserida num tempo voraz? 

AV: Num tempo cada vez mais voraz. É impressionante a velocidade com que tudo passa! Por isso acho que é importante deixarmos um pouco de nós, o testemunho daquilo que vivemos. “Confesso que vivi”, diria o Neruda. 

pequenoSendo jornalista, a crónica permite colocar no papel aquilo que a postura mais isenta do jornalismo não deixa? Ou essa isenção não existe?

AV: Não há jornalismo neutro, como logo me ensinaram os meus primeiros mestres do “Diário de Lisboa”, quando ainda nem se sonhava com escolas de jornalismo. Não é o mesmo dizer 500 mil ou meio milhão. É o velho exemplo do copo meio cheio ou meio vazio. Mas tentamos sempre ser isentos. Por isso, quando queremos assumir a nossa posição, escrevemos uma crónica ou um artigo de opinião e assinamos. Assumimos a responsabilidade.

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No livro são algumas as passagens que abordam a vida pessoal - familiar, amorosa,… - da Alice. Este também é um livro de memórias? Porquê?

AV: Livro de pequenas memórias, talvez. Porque se chega a uma altura da nossa vida em que temos sempre a tentação de olhar para trás e fazer balanços… E eu acho que fui uma mulher de sorte: por ter vivido no tempo (e nos lugares ) em que vivi e conhecido as pessoas que conheci.

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O Bar de Letras foi um desses sítios? 

AV: O Bar de Letras era onde tudo se discutia, onde tudo acontecia, onde nos conhecíamos a todos. No Bar de Letras encontrávamos os nossos colegas de outras faculdades (sobretudo Direito, mesmo em frente). No Bar de Letras íamos todos salvar o mundo. Foi a nossa verdadeira universidade nesse tempo! capa 1 

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O que recorda? Sei que entrou para a Faculdade sem grande entusiasmo…  

AV: Não entrei para a FLUL com grande entusiasmo, é verdade, porque sempre soube que a minha vida não iria fazer-se por ali… Entrei exactamente no mesmo ano em que entrei para o “Diário de Lisboa”. Mas apanhei logo a greve académica de 61/62. Foi um tempo extraordinário!

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Professores como David Mourão Ferreira influenciaram-na na forma de pensar e de escrever? 

AV: Tive dois grandes professores: o David Mourão Ferreira, em Teoria da Literatura, e o Monteiro Grillo (mais conhecido pelo pseudónimo de Tomaz Kim, com que assinava a sua poesia) em Literatura Americana. Um no primeiro ano do curso, o outro no último. Mas o David, que depois se tornou num grande amigo, foi fundamental. Eu digo sempre que foi ele que me ensinou a ler. A entender um texto, a descodificá-lo.

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Com mais um livro editado, o que anda agora a escrever?

AV: Tenho o meu quarto livro de poesia já pronto. Mas ainda estou a revê-lo, a modificar algumas coisas. Vai chamar-se Olha-me Como Quem Chove, um verso retirado de um poema de Ruy Belo, grande amigo que conheci no Bar de Letras!

 

Consulte a Biografia de Alice Vieira e o seu Testemunho sobre a passagem pela FLUL.