"No Estado Novo, o turismo já era um desígnio da Nação"

Olhar para o Estado Novo a partir da perspectiva do turismo, é o que propõe o livro "A Bem da Nação - As Representações Turísticas no Estado Novo entre 1933 e 1940", da alumna Cândida Cadavez, que acaba de chegar às livrarias.

O livro, editado pela Edições 70, é fruto da Tese de Doutoramento em Estudos de Cultura, na especialidade de Ciências da Cultura, que a autora defendeu em 2013 na FLUL. Sempre com o turismo como fundo, viajamos aos Estoris da década de 30 do século XX em Portugal, mergulhando também nos valores ideológicos do Estado Novo que as vivências turísticas deixam observar. Em entrevista ao FLUL Alumni, Cândida Cadavez nota que existia um fenómeno claro de "manipulação do discurso".

Entrevista: Tiago Artilheiro       |         Fotografia: Direitos Reservados

pequenoDepois de todo este trabalho de investigação, qual o significado de ser turista nos primeiros anos do Estado Novo? 

Cândida Cadavez (CC): Os primeiros anos do Estado Novo foram tempos de intensa actividade propagandística, cujo propósito era apresentar o novo chefe político e justificar como natural o paradigma de governação que ia sendo implementado em Portugal. Nesse contexto, mais e mais áreas da sociedade iam sendo convocadas, de modo a que a dinâmica do “convencimento” acontecesse de forma “natural” e resultasse. O turismo foi um dos sectores que, também, terá sido usurpado para esse fim e talvez um dos mais utilizados com esse propósito, graças à coincidência de discurso com o registo nacionalizante de propaganda do regime de Salazar. Enaltecer o “típico”, o “autêntico” ou o “tradicional” era uma estratégia comum a ambos os dialectos, o que permitiu que “ser turista” nos primeiros anos do Estado Novo fosse muito mais do que simplesmente participar numa actividade de lazer ou fazer uma viagem. Estamos perante um fenómeno de manipulação do discurso que, de certa forma, nos faz evocar o poder dos poderes simbólicos e invisíveis, tal como os disseca Bourdieu. 

pequenoOs valores ideológicos estiveram sempre presentes… O Turismo era um desígnio do Estado Novo?frente abemdanacao

CC: Os valores ideológicos estão sempre presentes, mas naturalmente que num regime como o que contextualiza o meu estudo, é de prever que esses valores que refere estejam mais presentes, já que tudo é válido para transmitir mensagens e lições, ou seja, para criar e suster o paradigma ideológico pretendido. Nesse sentido, creio que se pode afirmar, sim, que o turismo era um “desígnio da Nação”. Era frequente aludir-se ao “problema do turismo”, pretendendo-se com isso indicar que a actividade merecia a maior atenção e o maior cuidado por parte da “Nação”, por parte de políticos, agentes de turismo e população em geral. Além de um eventual aumento de receitas, a enfâse no sector era ainda, e sobretudo, justificada por convidar à recuperação e à divulgação das “tradições da Nação”, que tanto serviam narrativas turísticas, como a narrativa propagandística do Estado Novo. Talvez seja curioso, a este propósito, referir que o I Congresso da União Nacional, que aconteceu em Lisboa no ano de 1934, e cujo principal propósito era enaltecer o percurso político de Salazar até então, tinha na sua agenda sete “teses” dedicadas ao turismo. Creio que tal comprova que havia um papel muito claro que o turismo devia cumprir na dinâmica propagandística do Estado Novo. Aliás, já um ano antes, em Outubro de 1933, no discurso “Propaganda Nacional”, proferido por Salazar por ocasião da inauguração do Secretariado de Propaganda Nacional, o político referira que as fronteiras e a vida pública portuguesas estavam abertas e que, além disso, a hospitalidade portuguesa era sempre obsequiosa. Creio que se pode afirmar que o turismo era um dos desígnios nacionais, sim. 

pequenoTambém porque os portugueses desprezavam Portugal, como refere quando cita um artigo do Diário de Notícias de 1933?

CC: O apelo a que se olhasse para as “tradições da Nação” era tal que acabava por se criticar aqueles que “desprezavam” Portugal, optando por viajar para o exterior, negligenciando, dessa forma, o que era “nosso”. Argumentava-se que esta pequena fatia da sociedade portuguesa desconhecia as “tradições nacionais” em detrimento das estrangeiras, o que, no registo oficial de então, era condenável. Conhecer Portugal, enquanto turista, era para o Estado Novo conhecer locais simbólicos e que transmitiam lições importantes sobre a “Nação”, como Alcobaça, Batalha ou Guimarães. 

pequenoExistia, no entanto, uma clara divisão entre as vivências turísticas de grande parte da população portuguesa e outra, com vivências radicalmente opostas. 

CC: Sim, no final da década de 30, só uma escassa minoria da população tinha já direito a alguns dias de férias pagas, tal como sucedia em França, desde 1936, e a legislação portuguesa apenas determinava que os patrões que tivessem um certo número de trabalhadores nas suas empresas deveriam conceder quatro, oito ou doze dias de férias remuneradas. Foi também por essa altura que os fins de semana, ou pelo menos o domingo, passaram a ser entendidos como um tempo que deveria ser dedicado ao descanso e às actividades de lazer. Esse dia era consagrado aos passeios pelos parques e aos piqueniques em família. Alguns começaram a frequentar as praias, seguindo a moda trazida pelos visitantes estrangeiros e respondendo, ao mesmo tempo, ao apelo oficial em prol de um Homem ideológica e fisicamente Novo. Havia, por outro lado, essa outra minoria com capacidades financeiras que lhes permitiam praticar outro tipo de lazer e de vilegiatura, que incluía a prática de turismo externo, mas também a frequência de locais mais requintados e que proporcionavam outras actividades e distracções, como os casinos ou as termas existentes em território português. 

pequenoPorquê o período de sete anos que escolheu para analisar? 

CC: Uma das dificuldades que este estudo me colocou foi precisamente o estabelecimento de barreiras temporais. Numa área de estudo como esta é difícil, e até frustrante, pensar nesses limites, pois sente-se que se está a esquecer os antecedentes e a negligenciar as consequências, inviabilizando, assim, um estudo sério. Para tentar contornar esta questão, pensei que deveria escolher como balizas indicativas datas que albergassem em conjunto momentos significativos quer para o turismo, quer para o regime. Por isso seleccionei 1933, o ano que acolheu a nova Constituição Política da República Portuguesa, que fazia referências à importância do património, esse motor que move fluxos turísticos, e o mesmo ano que tornou António Ferro o secretário do SPN, pensando nas intervenções que o Secretariado da Propaganda Nacional viria a ter no turismo. 1940 é a outra baliza temporal que justifico com as Comemorações do Duplo Centenário, sobretudo com a Exposição do Mundo Português que, não sendo um acontecimento dirigido ao turismo, conforme refere a vária documentação oficial que a institui, acabou por ter um impacte considerável no que respeita, por exemplo, à criação de uma série de infra-estruturas turísticas.

 

"Os primeiros anos do Estado Novo foram todos eles muito importantes para o turismo"  

 

 

pequenoMuitos desconhecem que o I Congresso Nacional de Turismo ocorreu, precisamente, durante esse período.

CC: O I Congresso Nacional de Turismo aconteceu em 1936, curiosamente o ano em que, do outro lado da fronteira, Espanha lutava numa guerra civil. Para o regime de Salazar terá sido importante organizar esse encontro numa época de instabilidade tão próxima, e que se temia poder vir a contagiar Portugal. Recordo que este encontro foi o que, até então, reuniu mais congressistas a propósito de um mesmo assunto em Portugal, e que apresentaram teses sobre temas que ainda hoje em dia são discutidos, e que incluem questões como a formação profissional, o restauro, a criação de itinerários e de produtos, ou a necessidade de um porto de cruzeiros em Lisboa. Creio, contudo, que o mais significativo no âmbito da minha investigação foi constatar que quase todas essas teses apresentadas na Sociedade de Geografia de Lisboa, local onde aconteceram as sessões de trabalho do congresso, louvavam Salazar, pois teria sido o seu modo “protector” e “diferente” de tomar conta da “Nação” a permitir que, por cá, se pudesse pensar em desenvolver um sector como o turístico – uma actividade que só podia ser praticada em ambientes de paz e de estabilidade.

pequenoE 1936 acaba por ser um ano chave para a própria indústria do turismo. No livro refere, por exemplo, as inúmeras reportagens do Diário de Notícias e O Século sobre o tema.

CC: Os primeiros anos do Estado Novo foram todos eles muito importantes para o turismo, por terem sido o palco que albergou todas as iniciativas arquitectadas por António Ferro logo a partir de 1933, ano que assistiu à criação do SPN. Enquanto secretário do SPN, e ainda antes de o turismo ter passado a ser pelouro do secretariado em 1940, Ferro promoveu uma série de actividades de cariz turístico, em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente através de algumas Casas de Portugal. É certo que 1936 foi um ano importante por causa do congresso, mas os primeiros anos do Estado Novo foram ricos não só em eventos e iniciativas mais direccionadas para a prática turística, como em termos da criação de legislação, por exemplo, que ia cada vez mais dando regras a um sector que até então (e até bem mais próximo de nós) era servido principalmente por amadores e se encontrava omisso de muitas regulamentações necessárias. Além disso, a imprensa generalista existente viu-se acompanhada de novas publicações dedicadas ao sector e, em concerto, raro era o dia em que não havia pelo menos uma publicação sobre turismo, que podia descrever uma visita de um grupo da Kraft durch Freude a Portugal (Esforço / Vigor pela Alegria), a abertura de um novo alojamento, algum fait divers relacionado com uma “tradição nacional” ou qualquer curiosidade a propósito de um destino simbólico para validar a “autenticidade da Nação”.

candida cadavez

pequenoEm tempo de rankings, não deixa de ser curioso que já nessa altura se recorria à adjectivação e enumeração: “a mais linda praia”, “uma linda iniciativa”, …

CC: O turismo é o sector dos superlativos! Já era nessa altura, e continua a ser. Ainda hoje se viaja para se conhecer a zona mais antiga de uma cidade, para se provar a gastronomia mais típica de determinada região e para se visitar o museu mais representativo de determinada cultura – nesse aspecto a comunicação entre os diversos actores da prática turística não mudou assim tanto... A meu ver, o que é curioso é constatar que as narrativas de regimes políticos como o Estado Novo português também têm uma certa preferência pelo uso desses mesmos superlativos. Foi esta convergência e a sobreposição existente no tipo de mensagem emitido por agentes turísticos e por vozes de regimes políticos que se apresentam e justificam como sendo sempre os mais típicos, autênticos e reais que me fez pensar que este poderia ser um tema interessante para investigar.

pequeno Este tipo de discurso / propaganda servia também para captar os turistas estrangeiros?

CC: Sim, tal como ainda hoje acontece! Porém, a especificidade do contexto dos anos 30 e princípios de 40 do século passado que escolhi investigar obriga-nos a referir mais algumas linhas curiosas. Por um lado, falamos ainda de um tempo de surpresas existentes no destino de acolhimento não desvendadas a anteriori, como acontece actualmente graças à velocidade da comunicação; por outro lado, a “Nação” era apresentada aos mercados estrangeiros como um espaço diferente, protegido de guerras e de outros tipos de distúrbios (como, por exemplo, greves), onde, além disso, se podia observar “tradições” e “autenticidades” perenes e com origens em tempos não datáveis. Se considerarmos os conflitos que começavam a alastrar-se pela Europa fora é fácil compreender que esse tipo de discurso fosse bem acolhido por quem vivia nesses ambientes e dispunha de condições para continuar a ser turista – atenção, que não refiro aqui os fluxos de refugiados ou os famosos espiões que circulavam sobretudo pela área de Lisboa e dos Estoris. A diferença do turismo praticado em Portugal nos primeiros anos do Estado Novo reside igualmente no facto de se poder identificar duas realidades paralelas de turismo. Havia, por um lado, o chamado “turismo médio” destinado aos nacionais e que, em iniciativas da CP ou da FNAT, por exemplo, os levava a visitar locais de aprendizagem do significado da “Nação”, o que incluía, entres outros, excursões ao “berço da Nação” ou visitas a exposições de arte popular. Esta prática tinha este propósito muito claro para os portugueses, mas, ao mesmo tempo, era mostrada aos estrangeiros que por cá andavam e a quem, em nome da neutralidade anunciada por Salazar em 1939, era permitida uma rotina turística “mundana”, nos Estoris, por exemplo, mas que, ao mesmo tempo, observavam este povo “pobre, mas feliz”, por quem também eram observados, a partir de uma distância conveniente que não profanasse nenhum dos grupos.

pequeno No prefácio, o Professor Manuel Frias Martins destaca a sua “curiosidade”, e o facto de a considerar uma “analista cultural muito perspicaz”. Era impossível desenvolver este tema se não fosse detentora dessas duas características?

CC: As palavras que o Professor Manuel Frias Martins usou definem as características de qualquer investigador nas áreas em que trabalho. A curiosidade desencadeia e alimenta o processo de investigação, a análise cultural e a perspicácia dão a forma e o sentido possível ao que se vai encontrando. Além de ser o académico brilhante que todos reconhecem, o Professor Frias Martins é uma pessoa de uma generosidade imensa, que me orientou em todos os momentos deste trabalho, fazendo-me acreditar na pertinência da investigação.

pequeno O percurso académico na FLUL ajudou a “apurar” essas facetas?

CC: Sem qualquer dúvida. Tudo começou aqui com uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas e foi aqui que voltei quando decidi fazer um mestrado e, depois, seguir para um doutoramento. Apesar de pertencer a dois centros de investigação de outras universidades, a FLUL é a minha “casa académica”.