Os objectos que contam a História de Portugal

Como redescobrir a História de Portugal de uma forma diferente? O livro História de Portugal em 40 Objectos, do alumnus da FLUL Sérgio Luís de Carvalho, dá a resposta. Da mais conhecida história d’Os Lusíadas à Caneca da Cervejaria Germânia, são muitos os objectos que contam a História e fazem parte dela. 

O autor, que se formou em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa na década de 80, revela ao FLUL Alumni que 40 objectos não são suficientes para contar a História nacional e garante ser incapaz de prever que objectos vão fazer parte dela nos próximos tempos.

- 40 objectos chegam para contar a História de Portugal?

Sérgio Luís de Carvalho (SLC): Na verdade não… Poderíamos falar da nossa História em 50, 60 ou 100 objectos… O que não nos falta é património. Mas como sucede com todas as longas caminhadas, o melhor é sempre começar por um pequeno passo. Neste caso, por “apenas” 40 objectos. 

- Todos esses objectos são representativos de épocas ou acontecimentos históricos concretos…

SLC: Sim, essa foi a ideia desde o princípio. Cada objecto, além de valer por si, vale por ser representativo da sua época. Seja nas grandes coisas, seja nas pequenas…

- Porquê estes objectos e não outros dentro da mesma época ou acontecimento? sergio carvalho

SLC: Bem, poderíamos escolher outros objectos, é verdade. Mas a ideia foi variar, incluindo objectos comuns (epitáfios, canecas, pratos, moedas, folhetos) e objectos mais monumentais (pelourinhos, tapeçarias, retábulos). Depois tentei que fossem descritos objectos que qualquer pessoa interessada possa ver, seja por estarem em locais públicos, seja por estarem online.

- E tambem existiam objectos incontornáveis.

SLC: Sim, decerto. São incontornáveis por serem totalmente icónicos na nossa memória colectiva: a primeira edição dos Lusíadas, os Painéis de S. Vicente, a bula Manifestis Probatum… Estes objectos são parte incontornável da nossa existência enquanto nação. Não poderiam ser esquecidos.

- Que objecto o surpreendeu mais? 

SLC: Uma caneca de cerveja que está no Museu da Cerveja, em Lisboa. Trata-se de uma caneca de cerveja que chegou a Lisboa por volta de 1910-12. Pertencia a uma cervejeira chamada Germânia, uma das grandes cervejeiras portuguesas que mais tarde deu origem à famosa Portugália. A sua história é fabulosa. Bem, não vou contar… está no livro!

- No livro há espaço para “Os Lusíadas”, ou para objectos como a andorinha Bordalo Pinheiro. Há objectos que à primeira vista não seriam óbvios…

SLC: Creio que a graça está aí! Dos objectos evidentes é fácil falar! Mas dos outros… isso é que é interessante! Porque não são óbvios e parece que não têm História. Mas têm, claro! E falam da sua época.

- Destes 40, consegue identificar 2/3 que sejam os melhores representantes da História de Portugal?

capa livroSLC: Bem, temos os tais objectos incontornáveis. É por isso que são icónicos. E alguns até ficaram de fora, como a Mensagem, do Pessoa, por exemplo…

- Contar a História de Portugal em objectos é mostrar que a História pode ser vista de múltiplas perspectivas?

SLC: Claro que sim. Todas as perspectivas são válidas como se fossem peças de um todo. Tal como a realidade que também pode ser vista através de várias formas que confluem para a compreensão do todo. E a História é a realidade.

- O escudo é o último objecto referido no livro. Se o livro continuasse, que objectos não poderiam faltar? 

SLC: Sou absolutamente incapaz de prever que objectos poderão ser importantes nas próximas décadas. Da maneira como as coisas evoluem, é impossível. Imagine-se isto: há dez anos, quem poderia calcular as operacionalidades dos actuais telemóveis? E quem imaginava a importância das redes sociais? Nem me atrevo a imaginar o futuro. E francamente não me interessa muito imaginar o que aí vem. Importo-me mais em defender a decência do presente para que o futuro também seja decente. Está difícil…

- O seu trajecto enquanto autor segue, também, pelos caminhos da ficção. O que é que o romance histórico garante que outro tipo de narrativa não permite?

SLC: Acho que o romance histórico mais não é que uma forma complementar de entender e representar o passado, logo de entender o presente. Custa-me separar a investigação histórica do romance histórico. São duas faces da mesma moeda.

Entrevista: Tiago Artilheiro | Fotografia: Direitos Reservados