A Amália que ainda está por conhecer

Diz que a maioria dos portugueses "não se aperceberam da sua importância". Chama-lhe "génio indefinível". Fernando Dacosta, jornalista e alumnus da FLUL formado em Filologia Românica, fala de Amália Rodrigues.

18 anos depois da sua morte, chega Amália: A Ressurreição. Um livro, que vive de das memórias guardadas por amigos da fadista, e de silêncios que Fernando Dacosta quis ouvir para contar. Que Amália era mais. Muito mais do que aquilo que mostrava. Imensamente mais do que aquilo que o mundo julgava conhecer de si.

Ela que amava a filosofia, e se tinha apaixonado pela poesia, surge agora num livro que não é uma biografia. Em entrevista ao FLUL Alumni, Fernando Dacosta prefere chamar-lhe uma "narrativa memorialista"...

- Se esta não é uma biografia de Amália, como insiste em dizer, o livro é exactamente o quê?

Fernando Dacosta (FD): Uma narrativa memorialista sobre a cantora, sobre o meio, as pessoas, os acontecimentos que a acrescentaram, que ela acrescentou. Tive o privilégio de conhecer Amália Rodrigues pessoalmente na década de 60, contactando com ela durante mais de 30 anos. Como viajava muito nessa altura, não perdia as suas actuações no estrangeiro, algumas antológicas. A maioria dos portugueses não se apercebeu da sua importância, da sua projecção, do seu prestígio na cultura mundial do Século XX.

- Era impossível biografar Amália? fernando dacosta

FD: Os génios que são tocados pela grande inquietação, como era o seu caso, tornam-se indefiníveis. Extremamente complexos e contraditórios. Revelam-se imbiografáveis. Não cabem em datas, acontecimentos, hierarquias, famílias. “Se eu não me compreendo, como podem os outros compreender-me?”, interrogava ela!

- O que o surpreendeu nessa pesquisa da "incompreensão" de Amália?

FD: Pouca coisa, pois o meu conhecimento de Amália foi longo, lento, reflectido. A pesquisa feita traduziu-se, sobretuto, na escolha de memórias guardadas de convívios, de silêncios. Ela dizia mais pelo olhar do que pela palavra. Cumpliciar Amália exige mais do que factos e declarações, teses e fichas. Para se entrar na alma de uma pessoa como ela, a objectividade tem de ceder lugar à subjectividade. É a grande limitação das biografias convencionais. Por isso não as frequento.

- Há vários episódios que são revelados neste livro, como aquele em que a irmã Lúcia fez a Amália um pedido muito concreto. Mas também aqueles que apelida de “comportamentos insólitos”... De que comportamentos falamos?

FD: Não os revelei porque eram muito circunstanciais, uns. Muito íntimos, outros. Platão, sobre quem Amália gostava de reflectir (ela era uma apaixonada pela filosofia, quase tanto como pela poesia), avisava que as coisas verdadeiramente importantes não são para divulgar. Os outros não as entenderiam. Esse foi o drama de Amália: a solidão intelectual. Ela era muito mais culta, lúcida, imaginativa, sábia, inquieta do que mostrava e a maioria de nós julgava. Por isso não dizia o que pensava. Fazê-lo era inútil, contraprudocente mesmo.

- Porquê o título de “Ressurreição”?

amaliabookFD: Porque estamos a assistir a um ressurgimento de Amália, 18 anos depois da sua morte e a três do centenário do seu nascimento. Porque o fado foi designado Património Imaterial da Humanidade (se não fosse ela, tal seria impossível). Porque as novas gerações se apaixonaram por ele (fado), por causa dela (Amália). Porque um estudioso seu, Vitor Pavão dos Santos, lhe tem dedicado ensaios, perfis preciosos. Porque um jovem de cultura e talento, Frederico Santiago, descobriu, recuperando-os, valorizando-os, divulgando-os, inéditos de Amália gravados, décadas atrás, nos estúdios da Valentim de Carvalho, que permaneciam desconhecidos. Graças a ele, uma nova Amália está a surgir, numa ressurreição irreversível.

- É por isso que o livro se divide em três partes, A Sagração, A Inquietação, A Ressurreição?

FD: É... Torna-se, no entanto, difícil racionalizar o irracional, e toda a criação o é. Amália sentia uma dimensão religiosa no mistério da sua voz. Religiosidade ritualista de forte componente pagã e cósmica que, por vezes, a aterrorizava.

- “A saudade dela continua a doer do fundo da terra e da planura do mar”, escreve o Fernando. Escrever este livro teve em si um efeito apaziguador, catártico?

FD: Não. Aumentou a minha admiração por ela, e a minha saudade dela.

- Diz também que “Amália era um corpo feito de muitos sangues e mistérios”. O que ainda há para descobrir sobre Amália?

FD: As esfinges desocultam-se para melhor se ocultarem. Quem o pode saber?

Entrevista: Tiago Artilheiro | Fotografia: Direitos Reservados