"Peregrinação é o traçado de uma vida, da minha vida"

Peregrinação pode significar muito, dizer pouco, ou até não mostrar nada… Leonor Xavier procurou, por isso, 70 pessoas, e pediu-lhes que falassem sobre o tema. A poucos dias da comemoração do Centenário das Aparições de Fátima, o resultado está no livro agora publicado pela Oficina do Livro: Peregrinação.

O FLUL Alumni fez o inverso, e pediu à autora que explicasse o que era para si “Peregrinação”.

Maria Leonor Gomes de Oliveira, assim era o nome pelo qual a jornalista Leonor Xavier era conhecida na FLUL, onde se formou em Filologia Românica, aceitou o repto, mesmo que isso tenha implicado uma mudança de papel… Por algum tempo, passou para o lugar de entrevistada.

- Com o centenário das aparições à porta, todas as semanas é lançado (pelo menos) um livro novo sobre Fátima. Em que é que Peregrinação é diferente?

Leonor Xavier (LX): Fátima é Fátima. O Centenário das Aparições, fenómeno religioso. E "Peregrinação" é peregrinação, caminhada, viagem, experiência espiritual, crónica de casos e tempos, aventura. Peregrinação pensa a palavra, a ideia, o tema a partir de testemunhos de crentes e não crentes, unidade na variedade de personalidades e ideologias.

- Como é que explica que naquele “dia claro de Verão”, tenha acordado “com a palavra Peregrinação a divagar” dentro de si?

LX: Muito naturalmente… Não sei, na verdade, como. Talvez porque a palavra estivesse a germinar dentro de mim… Acontece, na criação.

- Esteve muito tempo a pensar como podia assinalar a vinda do Papa Francisco a Portugal... Porquê avançar com Peregrinação?leonor xavier site

LX: Porque pensei logo em peregrinos e acreditei na confiança que as pessoas me têm demonstrado, sempre que faço perguntas ou peço opiniões ou testemunhos. Sou jornalista há 37 anos.

- E agora que coligiu esses testemunhos, peregrinação é “mais ideia, mais palavra, mais experiência ou tudo isso”?

LX: É tudo isso, na versatilidade de cada uma das pessoas a quem falei.

- Porque é que diz que o tema peregrinação “é tão português”?

LX: Porque em Fátima assisti à expressão de uma vivência religiosa que é a nossa, dos mais plurais e variados portugueses. Expressão comovida e comovente, intensa, que passa pelos sentidos e explode pelo coração.

- José Jorge Letria (Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores) conta que uma certa ideia de peregrinação o “levou a descobrir aspectos inesperados e fascinantes e outros terríveis e execráveis nos seres humanos”. Já Irene Pimentel (Historiadora) revela que “é devido a essa necessidade de peregrinação que eu tenho uma apetência pela História”. É comum esta ideia de peregrinação inerente a uma forma de ser, de estar, de descobrir?

LX: Justamente, aqui estão dois exemplos possíveis para a minha ideia de diversidade, nos discursos directos. 

- Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, é citada inúmeras vezes por aqueles que deram o seu testemunho. Era impossível escapar à lembrança de uma obra que está na memória de tantos?

capa peregrinacao siteLX: Não só à lembrança... A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é uma obra genial na nossa História, na nossa Literatura, na nossa Cultura. E eu, sem o dizer aos 70, tenho Fernão Mendes Pinto, ao lado do Padre António Vieira, como os meus heróis portugueses.

- A Leonor também foi uma peregrina em certa medida. Que papel tem o Brasil nesse trajecto?

LX: Um papel importante! No Brasil aprendi a cuidar de mim, a sobreviver aos perigos, a discernir prioridades, a perceber a fronteira invisível entre a vida e a morte, a ter consciência dos privilégios que tenho recebido, até hoje.

- Pediu a 70 pessoas que escrevessem sobre peregrinação. Para a Leonor Xavier, o que é a “peregrinação”?

LX: Não pedi que escrevessem… Pelo telefone, pedi que falassem. Algumas quiseram escrever. Para mim, a “peregrinação” é o traçado de uma vida, da minha vida.

- A formação na FLUL – foi aluna de Lyndley Cintra, no curso de Filologia Românica – tem impacto na forma como escreve, na forma como entende o acto de escrita? Como?

LX: Claro que sim! A ele, a David Mourão-Ferreira, a Jacinto do Prado Coelho, a Vitorino Nemésio, ao Padre Manuel Antunes, ao Padre Honorato Rosa, devo o sentido da harmonia, do rigor, da importância do pensamento, do significado das palavras. Pelo que deles aprendi, tenho a escrita como disciplina fundamental para a comunicação com os outros e para o entendimento do mundo.

 

Entrevista: Tiago Artilheiro | Fotografia: Direitos Reservados