“É difícil equilibrar a vertente da história com o peso da História”

A Lisboa de 1918 é o ponto de partida do novo romance da alumna Carla M. Soares. O Ano da Dançarina, editado pela Marcador, recupera na narrativa episódios como a participação portuguesa na I Guerra Mundial ou a gripe espanhola.

Sem ser historiadora, a alumna, que se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas na FLUL, e onde iniciou o Doutoramento em História da Arte, revela ser exaustiva na investigação. São quase 400 páginas de um romance que coloca a família Lopes Moreira no centro da acção, e que o FLUL Alumni foi descobrir na companhia da autora. 

- O que a levou a escrever um romance que tem em pano de fundo a Lisboa de 1918?

Carla M. Soares (CMS): O livro decorre quase todo em Lisboa, durante esse ano terrível de 1918. Estamos mais ou menos cientes das dificuldades da nossa participação na Primeira Guerra, mas muito menos do efeito devastador que a epidemia de influenza, a “gripe espanhola”, teve no país ou no resto do mundo. Matou milhares, atingindo quase da mesma forma os mais fracos e os mais fortes e, em Lisboa, gerou uma série de acções e reacções, muitas movidas pelo medo e nem todas bem informadas. Um exemplo foi o uso da cal, que de nada servia para a desinfecção das ruas e casas. Para além disso, há condições políticas e sociais muito interessantes, o sidonismo, alguma agitação sindical, muita pobreza e ignorância, entre outras, e, porque um assunto desses não poderia estar ausente de um livro meu, a situação das mulheres na época. Claro que a guerra é inescapável no contexto da época e o armistício o acontecimento mais marcante desse ano; como tal, pareceu-me fazer todo o sentido que acabasse por ser um dos factores determinantes na narrativa.

- Como descreve o tenente-médico Nicolau Lopes Moreira?

CMS: É um homem de coração e coragem, com muito amor pelos seus, mas atormentado pelos fantasmas da guerra, pelas limitações físicas, pelos erros do passado e pelas impossibilidades do presente. Tem, como temos todos, um lado mais obscuro e menos limpo, e é determinado, diria quase obstinado, o que tem tanto de bom, como de mau. Ou seja, é humano.

- Este é também um livro sobre o regresso de alguém que a guerra transformou… Um dos objectivos foi esse, espelhar os efeitos da guerra?carla m soares site

CMS: Creio que é uma consequência natural de ter como personagem principal alguém que regressa ferido da guerra. Pareceu-me impossível que a experiência de Nicolau não deixasse marcas, não fosse transformativa, para ele como para qualquer ser humano sujeito a uma violência tão extrema.

- De alguma forma fica demonstrado que a maioria daqueles que combateram não estavam preparados para os seus efeitos. Mesmo para alguém que era tenente-médico…

CMS: Ou acima de tudo para alguém com essa função, que assiste à ela não só na Frente, mas nos hospitais de guerra, onde com pouco se tem de fazer muito. Não sei se alguma vez um combatente está preparado para os efeitos da guerra, por bem treinado ou equipado que esteja, e os portugueses não estavam nem uma coisa, nem outra. A maioria dos soldados levava uma preparação escassa e as condições a que estavam sujeitos eram muito más, desde o vestuário ao armamento.

- “Sabia que Raoul se lançara para dentro da trincheira fumegante ainda o chão estremecia”. Falou com alguns combatentes portugueses que passaram pela guerra para melhor se ajustar a este tipo de descrições?

CMS: Li várias descrições de combate e ouvi alguns testemunhos em programas que me foram recomendados, mas, no tempo curto de que disponho para as pesquisas, foi preciso organizar bem as prioridades e, na verdade, estas cenas de guerra ocupam um espaço reduzido, numa narrativa que inclui muitos incidentes desse ano de 1918 em Lisboa… Usei de alguma liberdade criativa, claro, mas creio que não estarei demasiado longe da realidade. 

- Como é que se equilibra a vertente da história que se quer contar com o peso da História que nela se quer colocar? É um trabalho difícil, condicionante até?

CMS: É difícil, de facto, porque é preciso manter o ritmo da narrativa e fazer “viver” as personagens, e ainda assim criar um tecido factual suficientemente bem urdido para que a época transpareça de forma plausível… Mais do que isso, tem de ser sólido. É preciso que o leitor se sinta imerso na época, mas o principal é a história, embora esta só faça sentido dentro do contexto histórico e seja condicionada por ele. Os Lopes Moreira não existiram, mas algumas das personagens com quem interagem são reais e conhecidas e certos acontecimentos que estão no livro de facto sucederam. No fundo, o que pretendo não é que ficção seja um pretexto para mostrar a História… Mas que esta também esteja nas páginas, e da forma mais interessante e fiel possível.

- Conferir aos irmãos Lopes Moreira caminhos profissionais tão diferentes ajuda a colocar em perspectiva a História da melhor forma possível, ou foi uma escolha aleatória? 

CMS: Fazer de Nicolau médico, quando se quer falar da gripe espanhola, surgiu de forma tão imediata que mal pensei nisso e, assim que a personagem começou a crescer, compreendi que era a única opção para ela. Os restantes irmãos têm caminhos que me pareceram lógicos dentro do contexto familiar e do caminho que queria desenhar para cada um deles, sendo todos filhos de uma mulher à frente do seu tempo – ainda que surja, nesta história, já um pouco fragilizada. Quis que Bernarda tivesse uma profissão que me permitisse, ao mesmo tempo, mostrar a sua força e a situação de franca inferioridade das mulheres à época. Não sei, porém, até que ponto estas soluções são deliberadas – costumam surgir-me de forma muito espontânea, como se certas personagens nascessem já adultas. 

- Não sendo historiadora, que investigação fez para a obra?

oanodadancarina kfr siteCMS: Não sou, e essa é uma limitação que por vezes me deixa um certo temor, o de cometer pequenos (ou grandes) erros. Tento ser exaustiva, mas não estou livre de falhas… Há primeiro uma investigação de base, sobre aspectos sociais, económicos, políticos da época, sobre os governos, os acontecimentos dominantes. Neste caso, também sobre a doença e como se lidou com ela lá fora e em Portugal. Depois são os detalhes, onde se comia e o quê, que clubes se frequentava e como eram, os transportes públicos e privados (o que havia, como funcionavam), a moda, o aspecto de certas ruas, o que se dizia na imprensa sobre determinados assuntos e um sem número de outras pequenas coisas. Pormenores como, por exemplo, que os armazéns Grandella venderam vestuário de luto e outros artigos do género a preços de saldo, durante a epidemia. Essa é uma investigação que pode ir acompanhando a escrita, e vai, porque surgem sempre novas questões. Sendo possível, visito os lugares e ando pelas ruas onde a acção vai decorrer, mas nem sempre. Por vezes, confesso, sou salva no imediato pela Internet, e guardo para mais tarde a confirmação pessoal. Organizo-me e documento-me o melhor possível, até porque preciso de rentabilizar muito bem o pouco tempo que tenho e quero minorar a possibilidade de falhas. 

- Em que momento surge o título O Ano da Dançarina?

CMS: Se contar, revelo o que se deve descobrir lendo! Mas desde cedo, durante uma pesquisa. Começou por ser um título provisório, que ganhou raízes e, a partir de certo momento, já não era capaz de conceber o livro com outro nome. Fiquei muito contente por também ter agradado à editora. 

- Depois dos anos da I e II Guerras Mundiais terem servido de base a dois dos seus romances, já escolheu o episódio/período da História que vai servir de base ao seu próximo livro?

CMS: Na verdade, estou em processo de escrita de um livro que decorre entre o ano de 1961, em Moçâmedes, onde nasci, e a actualidade, mas que, mesmo tendo feito já muita pesquisa e recolha de alguns testemunhos, avança lentamente e poderá não ser o meu próximo projecto concluído. Tenho andado a coligir informação sobre os anos trinta, porque tenho uma ideia, ainda muito incipiente, quase só semente, para uma narrativa. Tenho, digamos, uma personagem a precisar de fazer nascer a sua história.

Entrevista: Tiago Artilheiro | Fotografia: Pau Storch