“Existia entre mim e o Zeca Afonso uma verdadeira fraternidade que me marcou para a vida.”

São páginas sobre alguém que partiu, mas que o livro agora publicado quer ajudar a perpetuar. Zeca Afonso – O que faz falta: Uma memória plural, da autoria de José Jorge Letria, traça um perfil a várias mãos. O autor, alumnus do curso de História da FLUL e actual Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, escreve em modo biográfico o percurso do cantautor, e outras 22 personalidades complementam a informação em testemunho.

Numa conversa sobre a obra agora publicada pela editora Guerra e Paz, descobrimos episódios sobre Zeca Afonso perdidos no tempo: ele que partilhava a “azia” com José Jorge Letria, e a quem o alumnus da FLUL dava guarida depois das aulas de judo. 

- “Este é um livro sobre José Afonso, sobre a sua vida e a sua obra.” Começa assim o livro Zeca Afonso – O que faz falta: Uma memória plural. Ficou tudo escrito ou ainda há muito por revelar?

José Jorge Letria (JJL): Na realidade nunca fica tudo escrito. Há sempre, mesmo com base num intenso exercício de memória, mais coisas para descobrir e dizer, porque o talento de José Afonso era imenso e a sua vida dava pelo menos um grande livro, com ficção e tudo. Foi uma vida de luta, sofrimento e combate. Única.

- O livro pode ser dividido em duas partes: a descrição do trajecto pessoal e profissional do cantautor, e os 22 testemunhos que a compõe. Uma parte completa a outra?

JJL: Uma parte completa, claramente, a outra. Os testemunhos na sua diversidade, cobrem todos os aspectos da vida de José Afonso em Coimbra, no Algarve, em Setúbal, no mundo e no seu tempo.

- É um lado desconhecido de Zeca Afonso aquele que ficamos a conhecer na obra.jose letria 2

JJL: O lado desconhecido é-nos dado pela totalidade que os depoimentos representam, de Luís Goes a António de Almeida Santos, passando pelos seus contemporâneos no final dos anos 50 e 60 do século XX. Valem pelo que são na totalidade.

- Também o José Jorge Letria viveu com ele muitas histórias...

JJL: Sim! Um dia íamos no carro conduzido pela Zélia, mulher do Zeca, a caminho de Santiago de Compostela. Já perto da fronteira norte de Portugal, abrimos a mala do carro e descobrimos que transportávamos alguns milhares de panfletos denunciando as condições em que se verificara o assassinato de Amílcar Cabral. Se nos apanhassem com eles, seríamos logo detidos. O Zeca era mesmo assim: distraído, combativo, corajoso e sempre imprevisível. Mas era ele! E era imensa nossa amizade e a nossa admiração por ele.

- Foi fácil decidir quem incluir neste livro para dar o seu testemunho? Ouviu alguns “nãos”?

JJL: Por acaso não enfrentei respostas negativas quando pedi os depoimentos, mas somente um ou dois casos de reserva de pessoas que não sabiam bem o que haviam de dizer e que fosse relevante. Quando falamos do Zeca e quem pede os depoimentos é credível, é sempre difícil dizer que não. E ainda bem.

- Como é que conheceu Zeca Afonso?

JJL: Conheci o Zeca em Novembro de 1968 num convívio de estudantes na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde eu era aluno. O Zeca apareceu e eu fiquei comovido por estar ali com ele. Tinha comigo a viola e ia cantar ao seu lado. Isso aconteceu. O Zeca gostou do que ouviu. Ficámos em contacto e na semana seguinte eu já estava, longe dali, no mesmo palco que ele. Tornámo-nos grandes amigos, como bem sabe quem então nos acompanhou. Foi assim, com muita intensidade e risco, nos anos seguintes, incluindo o 25 de Abril e tudo o que a data representou para nós.

- E a partir daí, foram mantendo a proximidade…

capa zeca afonso2JJL: Mantivemos um forte contacto regular, todas as semanas, quase todos os dias. Tornámo-nos amigos num dia a dia intenso e imprevisível. Também falávamos muito ao telefone. Ele vinha a Lisboa fazer judo ao Judo Clube de Portugal e por vezes pernoitava na minha casa para não ter de ir para Setúbal de madrugada. Existia entre nós uma verdadeira fraternidade que me marcou para toda a vida.

- Zeca Afonso, que lhe chega a dedicar um “poema-carta” quando estava na prisão de Caxias.

JJL: O poema que ele me dedicou é dirigido ao Zé Letria que também sofre de azia e é um pouco surreal e certeiro, tanto do ponto de vista social como político. Ambos sofríamos desse incómodo diário. Foi-me entregue depois de ele ser libertado. Pode ser lido no livro com os seus textos e canções.

- Ainda é preciso fazer muito para destacar a importância de Zeca Afonso para a sociedade e cultura portuguesas?

JJL: É sempre preciso fazer muito, portanto mais, para que a sua obra esteja presente e não se limite a ser um referencial de memória. Para que tal aconteça é necessário que a sua obra discográfica seja reeditada e esteja acessível, sem depender da situação das editoras discográficas, na maior parte dos casos extintas. Mas isso implica um programa, uma acção concertada e equilibrada, com o indispensável apoio dos poderes públicos. A Sociedade Portuguesa de Autores está disponível para apoiar este processo, caso ele evolua no sentido justo.

- Em que ponto está a conversação com o Ministério da Cultura sobre a reedição da obra discográfica de Zeca Afonso e sobre o estatuto de património cultural?

JJL: O Ministério da Cultura apenas pode, segundo sei, apoiar a declaração de interesse cultural, mas esse acto não depende da Sociedade Portuguesa de Autores nem dos cantores que foram companheiros do Zeca em discos e nos palcos. É preciso uma acção e uma decisão política que nos transcende e desafia. Espero que tal se concretize.

Entrevista: Tiago Artilheiro | Fotografia: Direitos Reservados