“Biografias não seriam do agrado da Sophia de Mello Breyner”

No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, a jornalista Isabel Nery escreveu aquele que é o primeiro retrato biográfico da poeta, antiga aluna da FLUL que frequentou o curso de Filologia Clássica na década de 1930.

Sophia, é um olhar mais próximo sobre a vida da poeta, onde a passagem pela FLUL não foi esquecida.

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DREI, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoEsta é a primeira biografia de Sophia. Diz que foi um atrevimento. Porquê?

Isabel Nery (IN): Essa expressão está na Introdução e vem no seguimento do testemunho de Eduardo Lourenço a propósito da estranheza pela falta de uma biografia de Sophia no panorama editorial português: «O estatuto social dela não era de grande proximidade. As pessoas não se atrevem a explorar esse mundo». Ao escrever uma biografia da poeta, assumi esse «atrevimento» de entrar no mundo da poeta. 

fotoin ensaio pbettencourtpequenoEntrevistou mais de 60 pessoas. Consultou inúmeros arquivos. 15 anos depois da morte de Sophia, teve caminho aberto durante a investigação?
IN: Acho que não há investigações com caminhos abertos, a não ser aqueles que o investigador abre, muitas vezes a pulso. Por exemplo, foi preciso esperar um ano e ser muito persistente para conseguir aceder ao arquivo académico de Sophia. Infelizmente, Portugal continua a criar imensas dificuldades a quem pesquisa, atrasando ou impossibilitando mesmo algumas investigações.

pequenoAos 10 anos, Antero já estava presente na sua vida. Os Lusíadas também. Esta ânsia pelo mundo, o despertar para a literatura, começaram cedo. Foi isso que também comprovou?
IN: Sim, começa ainda antes de saber ler ou escrever, através da oralidade e das histórias que lhe contavam as empregadas, por exemplo. Essa é uma das explicações da própria poeta para o facto de, em pequena, pensar que a poesia tinha uma existência própria, não precisava de alguém que a criasse ou produzisse.

pequenoNa sua pesquisa, descobriu alguns factos curiosos. Na Granja, descobriu uma gaveta onde estava o treino da primeira assinatura de Sophia.
IN: Não podemos dizer que é o treino da primeira assinatura, mas, tendo a gaveta várias vezes o nome da poeta inscrito na própria madeira, tudo indica que tenha tentado treinar aí uma assinatura.

pequenoSophia chega à FLUL em 1937. Refere que “a vida universitária (…) não cabia no espírito livre que cultivava”. Porquê?
IN: Sophia não chega a concluir nenhum ano e desiste cedo do curso. A excessiva formatação universitária, especialmente durante o Estado Novo, seria difícil de conciliar com a forma de estar da poeta, que não gostava de horários rígidos e orientações de pensamento.

sophia pequenoSophia não entrou na FLUL com uma média alta. Podemos ver neste facto, também, a influência da personalidade da poeta?
IN: Possivelmente, sim. Mas também é preciso ter em conta que no Portugal de há 80 anos as médias não atingiam os valores a que hoje nos habituámos e que não era forçosamente esperado de uma mulher que fosse para a universidade. De qualquer forma, parece claro que não se adaptou à experiência universitária e preferiu voltar para casa dos pais, no Porto.

pequenoO despertar para a política ocorre mais tarde. O casamento é nitidamente influenciador nesse sentido.
IN: Sim, sem dúvida. Francisco Sousa Tavares empenhou-se muito cedo na vida política portuguesa e, ao mudar-se para Lisboa, depois do casamento, Sophia conhece uma oposição mais frontal ao regime de Salazar, passando a participar nas discussões e encontros do marido, muitos deles na própria habitação do casal, na Travessa das Mónicas.

pequenoSophia estaria interessada numa biografia? Tendo interesse, seria uma biografia nos moldes da que a Isabel escreveu?
IN: As considerações divinatórias relativamente aos desejos dos autores correm sempre o risco de alguma demagogia. Por isso, limito-me a reproduzir uma frase da própria Sophia: «Eu não acredito na biografia, que é a vida contada pelos outros». Portanto, biografias não seriam do agrado da autora. Porém, também sabemos que Sophia lutou sempre para que os poetas fossem mais lidos. Em última análise, uma biografia serve essencialmente para isso: conhecer melhor a obra e o pensamento do biografado. Se a minha biografia de Sophia atingir esse objectivo, penso que está cumprida a missão, sobretudo a minha missão enquanto jornalista, que é a de acrescentar informação, e, com isso, abrir caminho ao conhecimento.