“Muitos disseram que a PIDE foi o tempo mais feliz das suas vidas”

Para mostrar quem foram e como actuaram as principais figuras da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), a historiadora e antiga aluna da FLUL Irene Flunser Pimentel mergulhou a fundo na vida dOs Cincos Pilares da PIDE.

Observando o mundo actual pelo espelho da história, a autora diz-se pessimista quanto ao futuro democrático em alguns países, até porque defende que nem sempre a história é a melhor das lições.

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoPorquê estes cinco pilares? Não escolheu nenhum dos directores da PIDE e outras figuras igualmente conhecidas, que podiam ser uma escolha, também ela, justificada. Preferiu ir pelo menos óbvio ou pelo menos investigado?

Irene Flunser Pimentel (IFP): Todos esses motivos são reais. No entanto, também os escolhi por serem os que, segundo penso, marcaram a PIDE/DGS, instituição enquanto tal que eu já havia estudado, mas que pensei agora abordar de novo, pela via dos indivíduos que moldaram essa polícia política.

pequenoSão figuras que tiveram um influência muito concreta na actuação da PIDE. De que forma cada um, à sua maneira, se constitui num símbolo para a própria PIDE?

IFP: Sim, tiveram influência concreta. Barbieri Cardoso, por muitos considerado o verdadeiro chefe da PIDE/DGS (entre 1962 e 1974), desde logo pela sua proximidade com Salazar e com os serviços secretos europeus. Também foi ele que na prática dirigiu superiormente os principais serviços dessa polícia, os de Informação e Investigação. Os chefes destes serviços, respectivamente Álvaro Pereira de Carvalho, o “homem” da Intelligence portuguesa, que controlava a intercepção postal, a escuta telefónica e o aparelho de informadores, e José Barreto Sacchetti, que dirigia a “instrução” dos processos da polícia política, através de interrogatórios em que os presos políticos eram torturados. Pela mesma razão, escolhi estes últimos como dois dos “pilares”. António Rosa Casaco poderia ter sido substituído por homens como Adelino Tinoco e/ou Sílvio Mortágua, ou Pereira André, mas acabei por o escolher, não só por ser o típico agente da “tarimba”, que subiu a “pulso” até chegar a inspector, sem porém passar disso. Este é o paradigma do agente da polícia política, pois tanto esteve nos serviços de Informação (na intercepção postal, por exemplo), como na tortura aos presos. Além disso chefiou a brigada que matou Humberto Delgado e Arajaryr Campos onde o operacional e assassino foi Casimiro Monteiro, o quinto escolhido.

irenepimentelpequenoAlguns desses elementos destacaram-se mais dentro da estrutura.

IFP: Todos, menos Casimiro Monteiro, podem ser considerados como tendo tido destaque na estrutura orgânica da PIDE. Casimiro Monteiro, que entrou mais tarde na PIDE (1964, após ter passado pela prisão por delitos comuns, e ter sido tanto um assassino policial colonialista como bandido), foi o que menos se destacou na estrutura, a não ser por ter sido o homem de mão operacional, que raptou, matou, torturou, roubou, tanto no Estado Português da Índia, como em Espanha, como em Moçambique e na Tanzânia – assassino de Humberto Delgado e Arajaryr Campos, de Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frelimo. Foi também autor de operações terroristas na Tanzânia.

pequenoHumberto Delgado é o ponto de contacto entre estes homens, os pilares da PIDE.

IFP: Curiosamente só me apercebi disso, após já ter procedido a uma escolha prévia, mas é um facto que quatro deles – Barbieri Cardoso, Pereira de Carvalho, Rosa Casaco e Casimiro Monteiro estiveram ligados ao caso Delgado, enquanto planeadores ou operacionais. Foram, aliás, os quatro a julgamento devido ao caso Delgado. Só Sacchetti não esteve ligado a este caso.

pequenoRosa Casaco chegou a dizer (em entrevista ao jornal Expresso) que considerou uma “estupidez” o assassinato de Humberto Delgado, por este não “oferecer qualquer perigo”… Rosa Casaco quis limpar a honra neste caso em concreto?

IFP: Sim, embora em livros de memórias que António Rosa Casaco escreveu não negasse que tivesse sido a PIDE a matá-lo, através de Monteiro (Delgado) e Tienza (possivelmente Arajaryr). Disse sempre que a missão que ele próprio tinha como chefe da brigada que foi a Espanha, em 1965, era prender o general e trazê-lo para Portugal, para ser julgado. Afirmou que a acção “correu mal”, ou que havia duas missões diferentes na brigada. Também a PIDE sempre disse que Delgado não representava um perigo pois estava isolado no seio da oposição, mas pelo menos tanto para a polícia política, como para Salazar, o general deveria ser “neutralizado”, signifique isso o que signifique.

pequenoNo entanto, na mesma entrevista acabaria por revelar que “voltaria a ser da PIDE”. Pensar numa conversão destes homens é difícil de imaginar?

IFP: Todos eles, bem como Rosa Casaco, foram marcados pela sua longa estadia na PIDE e na DGS onde detinham poder, razão pela qual também o partilhavam enquanto instrumentos importantes da Ditadura. Muitos disseram e eu penso também que a estadia na PIDE foi o tempo mais feliz das suas vidas, em que se sentiram importantes, quer por ideologia, quer simplesmente porque partilharam o poder do regime à sua maneira. Não, não é possível imaginar reconversão, pois cometeram crimes, embora alguns tivessem pensado que pudessem continuar a servir enquanto polícias em qualquer regime que surgisse após o “25 de Abril”. Pereira de Carvalho, por exemplo, assumiu-se como um “técnico” de Intelligence e colaborou, estando preso, com o MFA e com a Comissão de Extinção da PIDE/DGS.

pequenoTalvez por isso, para muitos, falar dos perpetradores, dos executores, seja entendido como dar protagonismo a quem não o deve ter. Como responde enquanto investigadora?

IFP: Só em Portugal se pensa que, do ponto de vista histórico, ou até ficcional, se estaria a dar protagonismo a perpetradores quando, ao revelar o que fizeram, se está antes a denunciar. E isso, apesar do papel da investigação histórica não ser o de denunciar, mas tentar compreender e interpretar com um máximo de verdade possível o que aconteceu. A História pode não servir de lição, mas tenho a certeza de que é melhor conhecê-la para evitar certos caminhos negativos.

os cinco pilares da pidepequenoOs assassinos são diferentes dos outros seres humanos? Neste período em concreto, as condições favoreceram o aparecimento de pessoas com estes perfis?

IFP: O grande problema é que após o final da II Guerra Mundial e o Holocausto, numa primeira fase, os perpetradores foram considerados monstros, psicopatas, diferentes do grosso dos “outros” seres humanos (nós). Ora, hoje sabe-se que, em determinadas circunstâncias, alguns seres humanos “vulgares” comportam-se como assassinos e torturadores.

pequenoAté porque, em certos casos, a PIDE foi vista como solução “profissional” para uma ascensão social também.

IFP: Sim, a PIDE, para muitos dos seus elementos foi uma via de ascensão social, não tanto pelo estatuto, mas pelo poder que isso lhes dava enquanto pessoas que se ocupavam de fazer “o trabalho sujo” do regime. Ingressar na PIDE/DGS e ascender na sua hierarquia foi uma via de mobilidade social, como entrar no seminário ou na tropa.

pequenoA relação entre os membros da PIDE fazia-se na base da desconfiança ou na amizade? Olhemos para o caso concreto de Rosa Casaco, quando vai para o Porto.

IFP: Como em todas as instituições, ainda mais em Ditadura, a PIDE foi palco de diversas rivalidades e concorrências. Alguns eram inimigos dos outros. Rosa Casaco é o caso típico de quem tenta ajustar contas com seus superiores hierárquicos e colegas, nas memórias que escreveu, no exílio.

pequenoComo olha para a actualidade? Vê a existência de ditaduras em perspectiva?

IFP: Infelizmente, estou pessimista. Há uma vaga de extrema-direita populista xenófoba e racista, que se manifesta contra o “outro” um pouco por todo o lado, e que está a ganhar o poder por via eleitoral. E, se não houver resistência contra essa situação, poderemos reviver regimes ditatoriais com apoio “popular”. Que serão diferentes dos que já conhecemos no passado (e certamente piores, devido à tecnologia hoje acessível).