"Os portugueses são dos europeus mais preocupados com a sua História"

As traições e a bastardia na monarquia portuguesa estão em destaque no novo livro das alumnae Ana Cristina Pereira e Joana Pinheiro de Almeida.

Em Traições, Poder e Bastardos Reais tomamos contacto com os bastidores da monarquia, descobrindo como viveram e foram aceites os filhos que nasceram foram dos casamentos reais. As autoras, formadas em História pela FLUL, não têm dúvidas: também em Portugal existiu uma autêntica Guerra dos Tronos...

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequenoGeorge R. R. Martin poderia ter-se inspirado no caso português. Também tivemos a nossa Guerra dos Tronos?

Ana Cristina Pereira (ACP): Absolutamente! A forma como a política é exercida, como as pessoas são manipuladas e tudo fazem pela ambição e poder é exactamente como na ficção! Eu arriscar-me-ia até a dizer que a realidade ultrapassa a ficção. Veja-se, por exemplo, o caso da rainha D. Maria Francisca de Sabóia, casada duas vezes com dois irmãos, com o primeiro ainda vivo e – era ainda Rei – já o embaixador inglês comentava que a rainha não via a hora de casar com o cunhado. D. Afonso VI, D. Maria Francisca e D. Pedro II fazem um dos triângulos mais interessantes do ponto de vista emocional e político!

49029670 10217874089592735 8038454318677884928 npequeno O que é que significava ter um filho ilegítimo na monarquia?
Joana Pinheiro de Almeida (JPA): O rei é cristão mas polígamo, ter filhos é mostra de virilidade. O que está em causa é a forma como essas crianças são “colocadas” na sociedade de corte e, sobretudo, o seu lugar junto de pai e irmãos, eles sim, os verdadeiros monarcas. Há ciúme, há fidelidades imensas e traições pungentes. O que também notámos – uma coisa é saber, outra é verificar nas fontes – é a enorme ingerência que as várias potências têm, usando a ambição destes filhos de rei para interferir na política nacional, favorecendo os interesses de cada potência.

50221097 2612569358756508 6566857579421499392 oMas acabava por existir uma espécie de reconhecimento dos bastardos. Sem terem regalias oficiais, muitos tiveram lugar de destaque na corte.
JPA: A partir do momento em que são reconhecidos como filhos do rei, tornam-se membros da família real. Ao longo dos séculos, as atitudes vão sendo diferentes. Para o período medieval, por exemplo, temos os bastardos em lugares de destaque, sobretudo militar, numa época em que a força das armas se impunha. Na dinastia de Bragança, por exemplo, a situação é já diferente: os filhos são reconhecidos, mas muito controlados. Quando se deixam levar pela ambição, o castigo é o exílio, como aconteceu com dois dos “Meninos de Palhavã”, acusados de conspiração contra D. José I, seu irmão.

pequeno Porque é que dos muitos bastardos no anonimato, D. João I consegue destacar-se e assumir o trono?
ACP: É a conjuntura política internacional. Não se podendo falar de “nacionalismos”, conceito que como sabemos só se aplica no séc. XIX, podemos, no entanto, falar de um sentimento de pertença a um reino; a hipótese de uma monarquia ibérica conduz a uma sucessão de eventos e de discursos que conduzem a um candidato: aquele que melhor defendesse e governasse o reino, que fosse de boa linhagem, tivesse um grande coração e demonstrasse bondade e devoção, segundo o famoso discurso de João das Regras. Não havia dúvidas que seria D. João esse candidato, mas só teve o trono seguro aquando da sua aliança com a Inglaterra, pelo casamento com Filipa de Lencastre. Outros bastardos estiveram também próximos do trono, como D. António, Prior do Crato, ou D. Jorge, filho de D. João II; quis a política, as interferências estrangeiras e a nobreza portuguesa que assim não fosse. Pode haver muita habilidade, mas tudo é também uma questão de sorte e de conjuntura.

pequeno Na obra exploram também os casos das mulheres bastardas. O convento foi, muitas vezes, o seu destino… Mas o seu poder era grande dentro daquelas paredes.
JPA: É verdade, fala-se muito nos homens e as fontes são parcas no feminino. O convento era o destino por excelência das filhas segundas e terceiras da nobreza, legítimas e ilegítimas. Mas, dentro do convento, muitas senhoras não professaram. São públicas as inquirições que descrevem inúmeras irregularidades nas instituições que se queriam sagradas: senhoras que usavam jóias e vestidos valiosos, tinham damas e criadas, aposentos verdadeiramente principescos. Isso era possível e só começa a ser condenável à medida que caminhamos para a Época Moderna. No nosso livro, temos o caso paradigmático de D. Maria de Bragança, filha ilegítima de D. João IV, que, sem nunca professar, foi sempre um garante de sucessão do sangue do Restaurador, acompanhou de perto a política portuguesa e se correspondia intimamente com a irmã, D. Catarina, rainha de Inglaterra. A infanta D. Maria agiu sempre como defensora da sua comunidade, tinha uma vasta rede clientelar e é uma das mulheres mais influentes na procura de relíquias para engrandecer as instituições que decidia apadrinhar. No final da sua vida, mandou queimar todos os papéis que estivessem em sua posse ou lhe dissessem respeito!

pequeno A bastardia foi usada, também, como argumento político.
ACP: Como argumento político, tudo se pode usar, incluindo a bastardia – verdadeira ou falsa. No caso concreto da monarquia portuguesa, tivemos a luta entre D. Dinis e D. Afonso. Defendia o infante D. Afonso que o irmão, embora filho da mesma mãe e do mesmo pai, não era legítimo: nascera bastardo por ser anterior ao reconhecimento do casamento dos pais pela Santa Sé. Legalmente, tinha razão! D. Dinis foi gerado bastardo, já que só cerca de meio ano depois do seu nascimento os bispos portugueses solicitaram ao papa a legitimação do casamento de D. Afonso III, realizado enquanto este era ainda casado com a primeira mulher, Matilde de Borgonha. Mas este argumento, esgrimido por um infante que procurava (e obtinha!) apoios em Castela não é mais que política pura, de luta entre duas facções e com muita ingerência castelhana para provocar distúrbio na política interna portuguesa!

traicoes poder e bastardos reaispequeno Muitas histórias são mais desconhecidas. Que história destacaria?
ACP: Talvez a D. José de Bragança, filho ilegítimo de D. Pedro II e irmão de D. João V. Foi um verdadeiro príncipe do Barroco, atento espectador do que em Lisboa e Paris se fazia, organizador da cidade nova de Braga, onde, como Arcebispo, tinha o centro de poder. Estatuto, poder, condições económicas privilegiadas, sangue real e “apetites de corte”, foram os ingredientes certos que promoveram Braga à dignidade de uma pequena capital. A preocupação com o abastecimento da água foi central: a construção do aqueduto, galerias e condutas que estiveram em funcionamento até 1913!

pequeno Como avaliam a relação dos portugueses com o conhecimento da história do seu país?
JPA: Os portugueses são dos europeus mais preocupados com a sua História. As crianças crescem a ouvir falar nos Descobrimentos, esse grande momento de descoberta e da excitação dos novos mundos. Temos no país várias feiras medievais e tem crescido, nos últimos anos, o investimento em novos museus, como o Museu do Megalitismo em Mora, o Museu dos Descobrimentos em Belmonte ou o Centro Interpretativo da Batalha de Aljubarrota, falando só nos mais recentes e mais interactivos. No geral, há um grande interesse. O que muitas vezes não há é cuidado nos programas e nas leituras, repetindo-se quase como litanias “factos” que são hoje verdadeiros disparates! E é essa distância, de uma História marcada, vincada e com mensagem política, que temos de nos afastar!

pequeno Também como investigadoras na área de História, ainda temos muito por descobrir sobre Portugal?
ACP: Sem dúvida, por várias razões diferentes: porque a descoberta de um pequeno documento pode mudar completamente a perspectiva que se tinha sobre um determinado tema, porque não somos senhores de toda a documentação – além do terramoto e subsequentes incêndios, assistimos ainda às invasões francesas e ao desviar de manuscritos para França, onde existe o Núcleo Português e temos também muitos arquivos pessoais e familiares, muitos núcleos espalhados e de difícil acesso; por sim, creio que temos ainda muito para descobrir!