"Júlio Fogaça foi vítima de uma denúncia"

Numa biografia inédita, o alumnus Adelino Cunha revela aquela que foi a vida e o percurso de uma das figuras mais relevantes do PCP: Júlio de Melo Fogaça.

Apagado pelo partido e pouco presente na investigação académica, Júlio de Melo Fogaça esteve quase duas décadas preso por motivos políticos. Ele que deixou as origens fidalgas do Cadaval e abraçou o comunismo, rivalizando no tempo e no partido com Álvaro Cunhal. O antigo aluno Adelino Cunha, doutor em História pela FLUL, jornalista e pró-Reitor da Universidade Europeia, dá-lhe agora voz, num livro onde se contam episódios mais ou menos esquecidos pelo tempo, mas que o autor insiste em resgatar do "rodapé".

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequeno Júlio de Melo de Fogaça é uma figura desconhecida dos portugueses.

Adelino Cunha (AC):  Penso que por dois motivos essenciais. Por um lado, porque o PCP tem transformado a história individual de Álvaro Cunhal na sua própria história colectiva; o que, de certa forma, provoca um apagamento deliberado de todas as outras figuras. Por outro lado, porque, e lamento dizê-lo, parece-me que tem havido uma aceitação por parte dos investigadores desse situacionismo historiográfico: foram remetendo repetidamente Júlio Fogaça para notas de rodapé ou, em casos muitos específicos, atribuindo-lhe uma relativa importância, mas sem isolá-lo e valorizá-lo como objecto de estudo autónomo.

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Como é que alguém de origem fidalga abraça o comunismo?

AC: O contexto histórico é determinante. Quando Júlio Fogaça deixou o conforto da sua vida familiar numa quinta do Cadaval para viver em Lisboa, mergulhou numa cidade efervescente, e encontrou no comunismo uma nova forma de interpretar aquelas vertiginosas dinâmicas políticas e sociais. A revolução russa representava a esperança concreta na construção de um novo tipo de sociedade e a iniciação ao comunismo (através de Bento Gonçalves) haveria de completar este quadro mental.

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No pós-guerra e nos anos 60, Júlio Fogaça e Álvaro Cunhal rivalizam dentro do partido. Diz que eram “rivais informais”. De que forma se manifestava essa rivalidade? Em parte, os percursos dos dois são semelhantes. Por outro lado, tinham uma concepção do partido diferente. São frequentes os conceitos de “paz” e “democracia” nos discursos de Fogaça.

AC: É uma luta essencialmente ideológica e que decorre de um problema insanável entre ambos: acreditavam em caminhos diferentes para o PCP tomar o poder. Álvaro Cunhal nunca abdicou da ideia da insurreição popular armada e manteve-se fiel a esta orientação sem quaisquer cedências. Já Júlio Fogaça acreditava na dissolução do Estado Novo e na possibilidade de ocorrer uma dinâmica de transição para a democracia por via pacífica. Têm em comum o facto de terem aderido ao PCP na mesma altura e de serem ambos intelectuais com ascendência sobre todos os outros comunistas, nomeadamente após a prisão e o desterro de Bento Gonçalves para o Tarrafal, mas em todo o resto, divergiram.

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Júlio de Melo Fogaça foi preso político durante quase 20 anos. Ainda assim, as suas origens sociais - fidalgas - acabariam por ser postas em causa dentro do partido. Não era um elemento querido dentro do PCP?

AC: A investigação que está na base deste livro não permite fazer esse género de juízos, mas as acusações dirigidas a Júlio Fogaça devido às suas origens sociais repetiram-se com outros comunistas em circunstâncias idênticas. 

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No livro levanta um pouco do véu sobre as reais circunstâncias da sua detenção na Nazaré em 1960. O que é que aconteceu realmente? Coloca a hipótese de delação por elementos do partido.

AC: Penso que o livro assume a honestidade de não facilitar as dificuldades, e por isso são feitas muitas perguntas e partilhadas menos respostas. Existem várias hipóteses, mas as fontes hoje disponíveis não permitem dizer mais do que isto: Júlio Fogaça foi vítima de uma denúncia. 

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Júlio de Melo Fogaça acabaria por sair do PCP. Foi suspenso e expulso. Diz que o partido o apagou. É o culminar de um processo de apagamento interno que já vinha a suceder faz tempo e que o episódio da Nazaré exponenciou? 

AC: O PCP não expulsou Júlio Fogaça devido à sua identidade sexual, mas estou certo de que o facto de ser homossexual contribuiu fortemente para o quadro mental da época. Os autos movidos no âmbito do processo que decorreu no Tribunal de Execução de Penas de Lisboa, precisamente para condenar Júlio Fogaça como «pederasta passivo e habitual na prática de vícios contra a natureza», contém declarações do seu companheiro, cuja divulgação pública representaria um forte golpe na moral dos comunistas. Júlio Fogaça começou por ser suspeso por falhas conspirativas, isto é, por não ter explicado as circunstâncias da sua presença na Nazaré, e acabou depois por ser deixado para trás na fuga colectiva de Caxias e concomitantemente expulso. 

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Ao nível da investigação histórica e académica, parece não haver também grande informação. Ainda assim, só teve três fontes orais para o livro: Domingos Abrantes, Edmundo Pedro e Carlos Brito. Porquê esta opção?

AC: São três fontes orais de enorme relevância por terem sido também eles protagonistas directos e também por isso fundamentais para a contextualização de vários factos de grande relevância, e gostaria aqui de destacar o valioso testemunho de Domingos Abrantes. 

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Há uma dimensão inédita em grande parte da informação revelada no livro. Onde encontrou a informação?

AC: Até agora, as principais fontes escritas encontravam-se na Torre do Tombo e na Academia de Ciências de Lisboa. No decorrer da investigação acabei por descobrir um fundo inédito, que contém dezenas de fotografias e de correspondência inédita (só parcialmente divulgada). Estes documentos foram deixados por Júlio Fogaça na quinta da sua família e devidamente preservados por um descendente das pessoas que compraram a propriedade.