"Fora de Lisboa contam-se pelos dedos de uma mão os locais pró-nazis lusos"

Num percurso pela Lisboa Nazi, o alumnus Sérgio Luís de Carvalho traça os perfis dos portugueses germanófilos simpatizantes da Alemanha nazi e os locais da capital portuguesa onde se faziam notar.

Quem eram estes homens e mulheres? De que forma actuavam? Qual o contributo da imprensa em defesa da causa nazi? As respostas pelo alumnus Sérgio Luís de Carvalho, licenciado em História pela FLUL e professor de História de Arte do ensino secundário, que acaba de publicar o livro Lisboa Nazi.

Entrevista: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)       |       Fotografia: Direitos Reservados 

 

pequeno Existe a percepção de que muitos portugueses militaram pela Alemanha hitleriana? 

Sérgio Luís de Carvalho (SLC): Sabemos, através dos escassos testemunhos, que a maioria dos lisboetas (e por extenso, dos portugueses) teria mais simpatia pelos aliados que pelo Eixo. Houve decerto lisboetas/ portugueses que pugnaram pelos nazi-fascistas, mas até encontramos, nas suas próprias palavras (ainda que muito fugazmente) a confissão da sua condição minoritária. Tome-se como exemplo a frase de um acérrimo e pertinaz pró-nazi, o historiador e poeta Alfredo Pimenta que, nas páginas da revista A Esfera (o principal órgão nazi luso) confessava, referindo-se aos pró-aliados: “Eles são aos cardumes…” . Se assim é, porque há a impressão em algumas pessoas que havia muitos portugueses a militar pela causa hitleriana (ou que até seriam a maioria, como já ouvi)? Bom, talvez, porque o regime tinha reais afinidades com a causa nazi-fascista, de quem aliás, fora aliada em Espanha durante a guerra civil, na qual Lisboa, Roma e Berlim se uniram aos fascistas franquistas para jugular o legítimo governo republicano de Madrid. Importa salientar que Salazar manobrou sempre com cautela e manha por entre as duas partes em conflito, e se é verdade que importantes setores do regime se aproximaram do Eixo (com a evidente conivência de Salazar) é também verdade que o governo português se foi lentamente distanciando dos alemães após as derrotas de 1943, que pressagiaram a derrota final do Eixo. Ainda que com simpatias e afinidades ideológicas com o Eixo e sobretudo com o fascismo, Salazar manobrou sempre para não colocar em causa o seu poder e o seu regime.

pequenoMuitas destas pessoas tinham posições destacadas. Eram homens e mulheres do aparelho…
SLC: Estavam no aparelho do Estado e no Parlamento, nas instituições governamentais e nos aparelhos repressivos do regime. Eram ministros, parlamentares e diplomatas, estavam na Legião Portuguesa e na Mocidade Portuguesa, as instituições mais pró-nazis, aliás. Mas também estavam na FNAT e na PVDE. Todavia, havia também ministros, deputados e diplomatas pró-aliados. E acima de todos estava Salazar, claro. 

pequenoEstes portugueses agiam na sombra ou às claras? 
SLC: Agiam às claras, mas sempre dentro das baias estabelecidas pelo regime, tendo em conta a censura e a atividade da polícia política. Por outras palavras, esses portugueses podiam agir às claras, desde que não pusessem em causa o regime e os pilares ideológicos do Estado Novo (que em muitas vertentes eram as do Eixo) e Salazar, claro. Podiam ter as suas revistas, nas quais expressavam os pontos de vista nazis, desde o acirrado anticomunismo ao antissemitismo, desde o racismo ao ódio pela democracia… Contudo, podiam ter (e tiveram) textos censurados, pois todos os escritos passavam pela Censura. Podemos dizer que a sua militância, desde que enquadrada pelos limites impostos pelo governo/ Salazar, era aceite sem grandes engulhos. Por outro lado, é curioso observar que estes homens tinham um percurso ideológico comum, pois todos vinham da extrema-direita portuguesa. Quase todos passaram pelo legitimismo monárquico (alguns estiveram nas revoltas antirrepublicanas e nas incursões couceiristas) ou pelo Integralismo Lusitano ou pela Cruzada Nuno Álvares ou pelo Nacional-Sindicalismo ou pelo Sidonismo. Amiúde acumulavam. Quase todos nasceram nos últimos dez/quinze anos do século XIX, o que lhes dava uma coesão geracional interessante. Quase todos manifestaram aproximações ao autoritarismo de extrema-direita desde cedo e apenas um veio das “esquerdas” maximalistas, evoluindo para o fascismo na década de 30. E todos aderiram ao Estado Novo e ao salazarismo, ainda que nas franjas mais reacionárias de um regime já de si reacionário. E nunca puseram em causa, repita-se, a sua fidelidade ao regime. Contam-se pelos dedos de uma mão os que durante a guerra e/ou depois passaram da extrema-direita pró-nazi para a oposição a Salazar (Rolão Preto, Alberto Monsaraz, Pequito Rebelo…). Os nossos germanófilos só agiam na sombra quando se dedicavam à espionagem em prol do Eixo. E vários foram os que deram o salto para tal aventura…

pequenopla sergiolcarvalho fotoO livro revisita, também, vários lugares associados aos germanófilos. Há o passadiço secreto que levava os agentes alemães do Hotel Avenida Palace directamente para a estação do Rossio. Os cinemas que exibiam filmes de propaganda/ ideológicos. Parece que existia uma orquestração clara pela causa germanófila em Portugal. Tudo estava pensado…
SLC: Sim, as coisas estavam bem enquadradas pelos serviços secretos alemães, que colocavam os seus homens de mão portugueses no terreno. A propaganda era uma arma potente que os alemães dominavam bem; a tal ponto que os serviços secretos aliados se queixavam (nem sempre com razão) de estarem a ser ultrapassados pelos nazis na questão da propaganda. Os nazis tinham meios, gente e dinheiro. As suas revistas e postos de rádios eram subsidiadas, o cinema Ginásio foi “alugado” por eles, o Clube Alemão ou o Centro de Propaganda (na Rua Garrett e que pertencia aos Caminhos de Ferro Alemães) eram nevrálgicos centros propagandísticos e não só, enquanto a distribuição de folhetos, livros e brochuras era bem coordenada. Por assim dizer, tinham bons meios, tinham dinheiro e tinham gente empenhada. Todavia, os alemães lutaram sempre contra a indiferença –quando não o desdém- da maioria da população, que era muito mais recetiva à propaganda aliada que à do Eixo. Por assim dizer, a penetração dessa propaganda não era decisiva: convencia os já convencidos e episodicamente cativava alguns indecisos. E a prova dessa penetração relativamente superficial foi o facto de muito adeptos de “bancada” debandarem após 1943…

pequenoNo livro recentemente publicado A Fuga dos Nazis, do jornalista Eric Frattini, o autor aponta a capital portuguesa como "ponto de passagem" na fuga dos criminosos do Terceiro Reich. Estes portugueses eram, de alguma forma, quem encobria as suas passagens por território nacional? É possível perceber de que forma o faziam?
SLC: Não estudei o pós-guerra germanófilo português. Mas é curioso notar que da pequena legião de “destacados” portugueses pró-Eixo que cito no livro, apenas dois mantêm clara e inequivocamente as suas ideias de forma clara. Os outros terão prosseguido num sonso low profile, afastando-se das suas antigas amizades. Era o que convinha ao regime para sobreviver, e era o que lhes convinha a eles para sobreviver com o regime, sobretudo dos que dependiam as sinecuras do Estado Novo. É possível que alguns portugueses colaborassem nessa rede de fuga, é possível que as antigas redes de espionagem e de informação tivessem aí um papel de relevo, mas também é possível deduzir (com as muitas reservas de quem não estudou o assunto) que os portugueses que colaboraram nessa rede de fuga fossem peões menores num jogo internacional mais vasto, onde sabemos que colaboraram alguns governos e o próprio Vaticano. No final, talvez o contributo dos pró-nazis portugueses após a guerra fosse mais instrumental que outra coisa… Mas repito, é assunto que não domino, por isso falo somente por suposição.

pequenoFala de infiltrados no próprio Aeroporto de Lisboa, que se crê que tenham estado na origem do abatimento de um avião inglês em 1943. É licito pensar que o grupo de germanófilos portugueses tinha bastante força?
SLC: Salazar nunca lhes permitiria uma força que não conviesse ao regime. Podiam propagandear e passar a mensagem nazi (sempre dentro das baias do regime), mas não podiam ir muito mais além. A espionagem era rigorosamente interdita, por exemplo, embora muitos a fizessem, claro. De algum modo eram agentes de sedução da opinião pública portuguesa e sobretudo de sedução a algumas instituições portuguesas influentes (Legião Portuguesa, Mocidade Portuguesa, FNAT… e pouco mais). Sonhavam com o triunfo alemão e com a participação futura do Portugal do Estado Novo na Nova Europa; alguns talvez tivessem planos mais ambiciosos, como o inspetor da PVDE Paulo Cumano, de quem se dizia ser o homem dos alemães que dirigiria a polícia política em caso de invasão alemã/franquista de Portugal (Plano Félix). Mas no fim, não passava muito disto. Realce-se de novo que nada podia colocar em causa o Estado Novo e Salazar que, no fundo, os ia controlando e enquadrando.

pequenoDedica uma grande parte do livro à imprensa pró-germanística. Foram peças cruciais na defesa destes ideais?
SLC: De um ponto de vista da propaganda e da presença germanófila durante a guerra, foram os veículos principais. E aqui saliento a revista A Esfera que era o seu órgão central. Aqui expunham os seus pontos de vista e opiniões, sendo por isso o local ideal para os conhecer. As demais revistas germanófilas ou eram editadas e escritas fora de Portugal por estrangeiros ou tiveram presença residual, ao contrário de A Esfera que era feita cá, por portugueses e que durou desde 1940 aos derradeiros dias da guerra, sempre pugnando pelo triunfo nazi. Escassos dias antes de rendição, ainda alguns articulistas da revista garantiam acreditar no milagre, com uma reviravolta no conflito, já que “Deus não podia permitir outra coisa que não fosse a vitória de Hitler, um verdadeiro paladino cristão contra a barbária sub-humana asiática-bolchevique-democrática”… N’A Esfera, mesmo se controlada pela censura, está tudo o que ia na alma dos nossos germanófilos, até o racismo e o antissemitismo mais claros.

k lisboanazi altapequenoChegou a ser criada a Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos. Mas o eugenismo teve fraca penetração em Portugal…
SLC: O ministro salazarista e pró-nazi Eusébio Tamagnini foi uma das mais destacadas figuras dessa tendência eugénica. Mas ele mesmo reconheceu que o eugenismo tinha escassa hipótese de se impor entre nós devido à desconfiança da influente Igreja. A coisa ficou nessa ténue tentação e não foi mais além. Quero salientar, porém, que o eugenismo não começou com os nazis e que em Portugal chegou a ter em décadas anteriores mentores bem mais decentes, que pugnavam sobretudo por um eugenismo virado para uma política reprodutiva saudável e informada e não virado para uma seleção rácica.

pequenoOnde é que, ainda hoje, podemos encontrar vestígios desta Lisboa Nazi?
SLC: No livro falo de vários locais que ainda se mantêm, mesmo se com algumas modificações arquitetónicas e decorativas maiores ou menores. Vários cafés, o cinema Ginásio, o Clube Alemão, o chamado Centro de Propaganda, alguns hotéis, enfim, vários locais estão no mesmo sítio. Alguns iguais, outro nem tanto. Outros, alteraram-se muito ou desapareceram. Todavia é possível fazer um roteiro por essa Lisboa nazi.

pequenoDaí ter-se cingido apenas a Lisboa...
SLC: Era onde tudo se jogava, onde quase tudo se fazia e onde estava o poder. Outrossim era onde os nazis tinham as suas instituições e apoios. Fora de Lisboa contam-se pelos dedos de uma mão os locais pró-nazis lusos. Neste caso confirmava-se o velho aforismo segundo o qual Portugal era Lisboa. Por outro lado preferi aprofundar (melhor ou pior) a coisa em Lisboa, em vez de divagar superficialmente por vários pontos do país, sobretudo porque fora da capital havia muito pouco de relevante.asa materna de que nunca me separei.