Eugénia Vasques

eugenia miranda afonso vasques

"Eu chamo-me Maria Eugénia Miranda Afonso Vasques, o meu pseudónimo artístico é Eugénia Vasques e fiz a minha licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras, numa variante Estudos Portugueses e Franceses. Fiz o primeiro ano em 1982 e conclui o curso em 1986. Uma particularidade engraçada é que eu entrei através do exame ad hoc; este exame permitia a entrada de pessoas mais velhas, na Universidade, com uma prova feita por um júri composto por vários professores da casa e que viam se estávamos ou não aptos a entrar para o primeiro ano. Era preciso preparar-se bem, eu preparei-me e entrei. Nessa altura a Faculdade de Letras era muito diferente de agora. Havia um clima muito aberto, eu conhecia já muitas pessoas, pois vinha do Curso do Conservatório de Teatro e tinha vários professores na Faculdade de Letras que tinham sido meus professores no Conservatório, como é o caso do Professor Osório Mateus.

Havia um curso nocturno para trabalhadores-estudantes, que começava ao final da tarde e ia até à meia-noite. Depois havia os cursos diurnos. Nós podíamos fazer o nosso curso consoante a nossa disponibilidade laboral. Eu trabalhava oito horas por dia como muita gente e fazíamos algumas cadeiras que precisávamos, com determinados professores. A Universidade foi-se fechando e, a meio do meu curso, já não existia a possibilidade de horários nocturnos. Entre 1982 e 1986 a Universidade mudou.

Eu era professora não-efectiva do Ensino Secundário, de Português e Francês. Fui Secretária da Associação para o Planeamento da Família e quando saí desse cargo voltei a dar aulas no Ensino Secundário. Em 1985 fui trabalhar para a Fundação Calouste Gulbenkian. Comecei a ser crítica de teatro no Jornal Expresso, também em 1985, e os professores achavam muita piada, pois tinham uma crítica do Expresso como aluna. Estudei sempre e trabalhei; trabalhava 8h por dia e depois ia a correr com uma imensa alegria para a Faculdade.

Na Faculdade de Letras não me limitei a ser estudante. Para além de trabalhar e estudar, também me envolvi na Associação de Estudantes, para reactivar um grupo de teatro. Foi uma experiência fabulosa. Foi graças à Universidade que consegui manter-me à tona da água e não deixar de cumprir os meus objectivos. Foi um lugar onde encontrei e fiz muitos amigos, tanto colegas como professores.

A Faculdade forneceu-me os instrumentos de maior segurança na minha vida pessoal, de afirmação e de estudo. Sentia que me faltavam as estruturas de base, como o Latim e a Literatura e esse tipo de necessidade foi complementado pela Faculdade de Letras. Lembro-me de uma professora maravilhosa, que se chamava Flora Larson e de outros, que se mantiveram para mim como referências.

Já não sei em que ano tivemos um teste de Literatura Portuguesa e recordo-me de entrar no grande Anfiteatro I. Entro, sento-me e tenho a maior branca da minha vida. Começo a sentir-me mal, esquisita. Consegui sair e a professora disse-me para ir beber uma água, que já passava. Chorei, chorei, chorei…mesmo chorando, fiz a prova e tive a melhor nota. Fiquei tão contente! Mas foi uma situação terrivelmente traumática, estar num anfiteatro com toda a gente à minha volta e eu sentir que ia rebentar, não aguentava. Nunca tinha tido aquela sensação.

Quanto ao Alumni - Memórias Vivas, devo dizer que é muito estranho que não tenhamos esta tradição de afirmação de uma comunidade e acho absolutamente fundamental, porque é nestas associações que radica a passagem de testemunho. É nestas associações que vive a memória, não no sentido passadista, mas no sentido activo, daqueles que foram e fizeram a Faculdade e dos que estão a fazê-la. Cria-se uma cultura, a cultura da Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa, que não é coisa pouca."

Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas | Ano de conclusão: 1986

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