Cristina Pimentel

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“A Faculdade é, desde 1971, a minha segunda casa (às vezes parece que é a primeira...): nesse ano entrei em Filologia Clássica. Vinha do Liceu Maria Amália, onde tinha passado sete anos de perfeita felicidade: boas professoras, muito estudo, mas, também, muito divertimento numa escola só de raparigas, quase todas muito longe de serem 'arrumadinhas' e obedientes.

Na Faculdade era tudo diferente. Para começar, havia luta política. Alunos (quase todos) e professores (alguns) muito empenhados na oposição ao regime fascista. Às vezes penso que é difícil, hoje, perceber a solidariedade que se estabelecia entre os estudantes pelo simples facto de sabermos que, se os 'rapazes' chumbassem ou se envolvessem em alguma actividade considerada subversiva, iam compulsivamente para a guerra colonial, às vezes com uma passagem, mais ou menos demorada, pelos calabouços da PIDE. Se o 25 de Abril só tivesse servido para acabar com essa violência, já teria valido a pena.

Vivi na Faculdade a fase dos 'gorilas', que eram umas bestas de tamanho XXL (físico) e XXS (mental), que batiam em tudo e todos, mesmo que fossem professores (como o saudoso David Mourão-Ferreira). Admirei o Prof. Lindley Cintra, que assegurava que estaria sempre do lado dos mais fracos, e apanhava pancada para defender os alunos. Revoltei-me quando uma manhã cheguei à Faculdade e as entradas eram filtradas porque havia nove colegas que tinham sido suspensos (um deles é hoje professor na FLUL, mas não digo o seu nome porque não lhe pedi autorização): suspensos pela simples razão de terem verticalidade e liberdade de consciência e opinião. Enojei-me quando vi cargas da polícia de choque na Cantina da Cidade Universitária e, num dia tenebroso, dentro da Faculdade, com cães.

Adorei e respeitei alguns professores, que me marcaram para toda a vida: o Padre Manuel Antunes, acima de todos, com as suas aulas no Anf. I a abarrotar de gente fascinada pelo muito que ele sabia e pelo modo como, com a sua simplicidade amável, no-lo transmitia, em pauta de rigor e exigência.

E, quando veio o 25 de Abril, vivi a sua euforia (também) na Faculdade, e a muita esperança que esse dia nos trouxe.

Quando voltei à Faculdade, como docente, quatro anos depois de acabar o meu curso, foi como se de lá tivesse saído na véspera. Estava em casa. Daí para cá, e já lá vão muitos anos, fui ficando cada vez mais presa à FLUL, pelos colegas, pelo que é possível fazer nesta casa (de cultura); sobretudo, talvez, pelas sucessivas gerações de alunos, uns mais 'certinhos', outros mais 'desalinhados', de tantos cursos, do meu curso (grande curso!), agora chamado Estudos Clássicos: os alunos que me renovam, todos os dias, a certeza de que fiz bem quando, aos quinze anos, saí de casa para me ir inscrever num curso de Ciências e ser médica, e, no caminho, decidi que afinal queria ir estudar Grego e Latim.

A FLUL faz parte de mim e não tenho vergonha nem acanhamento de dizer que me orgulho de nela ter estudado e de hoje aí ser professora.”

Doutoramento em Filologia Clássica

Ano de conclusão: 1976

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