Década de 70

A Década na FLUL

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A década de 70 está indelevelmente marcada pela Revolução de 25 de Abril que pôs fim ao anterior regime e constitui um ponto de viragem quer para a sociedade em geral, quer para a academia. Nos anos que antecederam a Revolução dos Cravos, em 1974, a Faculdade, tal como outras instituições, permanecera muito fechada, reflectindo não só a política autoritária, mas também a mentalidade da sociedade e a atmosfera politicamente condicionada em que se vivia. No entanto, e ao contrário dos mitos que naturalmente se tecem do passado, havia, ainda assim, alguma liberdade de expressão e autonomia, desde que não tivessem actividade política directa e não fossem uma ameaça para o Estado.

Na verdade, logo no início da década, Veiga Simão, o ministro da tutela, apresenta um projecto de reforma intitulado “Linhas Gerais da Reforma do Ensino Superior”, destinado a dar resposta a necessidades de natureza prática. Contudo, o ambiente universitário está activo na contestação a um regime que luta contra o seu declínio. Em Março de 1972, as instalações da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras são encerradas pela força policial. Extinguem-se as Reuniões Inter-Associações e o Conselho Escolar da FLUL decide encerrar a Faculdade, o que veio a ser concretizado em 1973. Fazem-se detenções e apreensões de máquinas e outro material, sendo aprovado um diploma, o Decreto-Lei nº 18/73, que cria o cargo de “Vigilante” nas escolas de ensino superior, com o intuito de manter a disciplina académica. Um outro diploma concede aos reitores e directores dos estabelecimentos de ensino a possibilidade de recusarem a inscrição a qualquer aluno, com base no pressuposto da sua "inadaptação à disciplina interna da escola". As Faculdades, incluindo a FLUL, eram desestabilizadas pela presença das forças policiais secretas do Estado Novo e pela consequente impossibilidade de os alunos se poderem reunir ou conversar livremente. A morte do estudante do Instituto Superior de Economia José António Ribeiro dos Santos, a 12 de Outubro de 1972, às mãos da DGS, causou uma onda de revolta entre os estudantes.

Todavia, e apesar de ser reportada uma "certa efervescência em Letras e Direito", a Faculdade de Letras não constituía motivo para preocupações, na óptica de alguns analistas, em virtude do seu corpo estudantil ser maioritariamente feminino. Nesse sentido, um dos alvos preferenciais das atenções por parte das autoridades seria, por exemplo, o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF). Mais tarde, a Faculdade de Direito e outras instituições de ensino seriam objecto de idêntico escrutínio.

Comparado com os anos 60, o movimento estudantil nos anos 70 viu-se forçado a revivificar os seus esforços devido às medidas repressivas em vigor. De qualquer modo, continuam a organizar-se greves, reuniões entre estudantes e associações. Os estudantes chegam a representar, na vigília da revolução, a categoria social mais atingida pela repressão, perfazendo quase metade dos presos políticos de 1973 e dos primeiros quatro meses de 1974. Aliás, esse mesmo período regista, em absoluto, o maior número de estudantes presos pela polícia política desde 1956.

A partir do 25 de Abril de 1974, a Faculdade introduz alterações significativas. Algumas das medidas emanam dos órgãos em exercício, outras decorrem de deliberações à margem das estruturas tutelares, em plenários de alunos e professores, de representatividade e legitimidade dúbias. Verificam-se saneamentos e recrutamentos, organizam-se novos curricula com a abolição da dissertação de licenciatura, criam-se departamentos, surgem extensões universitárias em diversas cidades de Portugal continental e insular. A eleição de direcções colegiais passa a ser regida por normas colectivamente aprovadas, instituindo-se, para tal a Assembleia Geral de Escola como órgão soberano da Faculdade.

No que respeita à sua aposta lectiva, verifica-se uma diversificação de cursos e, no caso das Filologias, com especializações mais estritas. Opta-se por um modelo de ensino/aprendizagem delineado de modo a haver uma maior proximidade entre professor e aluno – o estrado deixa de fazer sentido no espaço físico da aula – instituem-se aulas nocturnas e o processo de avaliação privilegia a avaliação contínua em detrimento dos exames, considerados mais aleatórios e menos justos. Em 1978 são promulgados novos planos de estudos, extintos os bacharelatos e suprimido o quinto ano, passando a licenciatura para quatro anos.

O aumento massivo de alunos decorrente de um acesso mais democratizado, por um lado, assegurou o preenchimento das vagas abertas para docentes no ensino secundário, também ele com um volume de alunos nunca antes verificado. Por outro lado, assiste-se a um condicionamento no mercado de trabalho, em parte devido ao regresso dos portugueses das antigas colónias e pela nova geração de mão-de-obra qualificada num volume de que a economia nacional ainda não consegue tirar o devido proveito.

Há a assinalar a democratização do ensino, com a heterogeneização de alunos, vindos de diferentes classes sociais, principalmente dos vários patamares da classe média. O ambiente ideológico vivido na Associação de Estudantes frui uma pluralidade das ideias democráticas, reflectindo, mais uma vez, a mudança que se fazia sentir no país. Quanto à estrutura edificada da Faculdade, foi ainda acrescentado um edifício anexo, conhecido como “pavilhão novo”, que se encontra a poente do edifício principal. Foi construído no início dos anos setenta, sendo habitualmente utilizado como espaço lectivo suplementar.

Com o fim da censura vive-se um ambiente de debate em que a mudança é a palavra-chave, seja na esfera política, seja no domínio do conhecimento científico, por cuja promoção Mariano Gago pugna em diversos escritos, como Homens e Ofícios (1978). A explosão de criatividade que se verifica após 1974 já se adivinhava. No romance, a Virgílio Ferreira, Ferreira de Castro, José Cardoso Pires e David Mourão Ferreira juntam-se António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge ou José Saramago. Na poesia, a pujança está patente nos seus muitos nomes ilustres, como Al Berto, Gastão Cruz, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Vasco Graça Moura, entre muitos outros. Também o cinema ultrapassaria a chamada fase do desespero, ante-1974, de que é exemplo Uma Abelha na Chuva de Fernando Lopes (1971), para abraçar a novel abertura, com produções de João César Monteiro ou António Pedro Vasconcelos que, com o apoio do recém-criado Instituto Português do Cinema, podem agora desenvolver os seus projectos, como acontece a Manoel Monteiro. Os acontecimentos políticos também fomentam o aparecimento do documentário como Cravos de Abril de Ricardo Costa.

No que respeita a periódicos, assistimos, durante a primeira metade da década de 70, ao aparecimento da revista Colóquio-Artes (1971-1997), sob a direcção de José-Augusto França e no Porto, em 1973, à Revista de Artes Plásticas. No ano seguinte José-Augusto França publicava A Arte em Portugal no Século XX, obra de referência para a historiografia artística nacional.

A década de 70 daria também continuidade a muitas das linguagens plásticas produzidas por artistas de décadas anteriores, mas também consolida a presença de inúmeros autores de mérito já reconhecido mérito na crítica e no mercado como Júlio Pomar, Paula Rego, Joaquim Rodrigo, Mário Cesariny, António Sena, Álvaro Lapa, José de Guimarães e Eduardo Batarda. É de referir a obra de Ana Hatherly, com passagens pelo desenho, pintura, "performance", "happening" (Rotura, 1977) e cinema, como o filme Revolução (1975).

Reitores da Universidade de Lisboa:

1969-1973: Fernando de Carvalho Barreira (Ciências)
1973-1974: Joaquim Veríssimo Serrão (Letras)
1974-1977: Henrique João de Barahona Fernandes (Medicina)
1977-1979: Ilídio de Melo Peres do Amaral (Letras)
1979-1982: Raúl Miguel de Oliveira Rosado Fernandes (Letras)