Década de 60

A Década na FLUL

 

decada 60

A década de 60 é marcada por convulsões políticas e sociais a que as instituições universitárias, porque núcleos de indivíduos mais informados, respondem de modo inequívoco. Faculdades e Institutos Superiores emergem como locais de vivas discussões entre diferentes pontos de vista, verdadeiros palcos de luta política e ideológica.

A Faculdade de Letras afirma-se como um desses núcleos de debate e contestação, sofrendo a Associação de Estudantes várias limitações à sua autonomia durante o Estado Novo. A política autoritária que se fazia sentir em vários sectores da sociedade via na educação uma das vias para consolidar o conformismo almejado pelo regime. As Associações estudantis tornam-se, pois, dos seus alvos principais, a fim de restringir correntes de opinião com impacte ideológico. Não obstante os riscos, grupos de estudantes organizam reuniões de em defesa da liberdade associativa.

A oposição ao regime efectua-se, porém, de modo vário, por vezes mais discreta, mas não menos contundente para a ideologia vigente. O crescente interesse das mulheres em obter formação superior e o seu efectivo ingresso no ensino universitário viria a contribuir, de maneira significativa, para a alteração das mentalidades e dos padrões vivenciais. Basta dizer que, no fim da década de 60, a taxa de estudantes do sexo feminino na Faculdade de Letras de Lisboa já ultrapassava os 80%, realidade que valia ao estabelecimento de ensino a irónica designação de «Gineceu das Letras». É precisamente na segunda metade desta década que a direcção da Faculdade está nas mãos de uma sua catedrática, Virgínia Rau.

Entre os anos de 1961 e 1965, observa-se uma crescente consciencialização política, em parte devido ao impacte da Guerra Colonial no percurso académico dos estudantes masculinos, que passam a potenciais soldados do regime, e também pelo desenvolvimento da sindicalização do movimento estudantil. Luís Filipe Lindley Cintra, ilustre linguista nomeado catedrático precisamente no ano da chamada Crise Académica de 1962, é sensível à luta pelos direitos e liberdades dos estudantes, apoiando-os nas suas reivindicações. A proibição do Dia do Estudante, em Março de 1962, leva à ocupação da Cantina da Universidade de Lisboa e concentrações de estudantes. Muitos foram presos e declarou-se luto académico. Todavia, Marcelo Caetano, então Reitor da Universidade, conseguiu apaziguar o ambiente hostil e foram retomadas as aulas. O luto, porém, voltou com a demissão de Marcelo Caetano, contestando mais uma proibição do Dia do Estudante, em Abril. Ainda em 1962, saiu um decreto de lei que dava ao Ministério da Educação liberdade para proceder contra os estudantes, o que resultou num elevado número de universitários presos.

1965 é considerado o ano da passagem para a politização das associações de estudantes. Já no ano anterior, Orlando Ribeiro, geógrafo e fundador da revista Finisterra, participara nos debates “Problemas da Universidade” em que se discutia o papel da instituição universitária na sociedade. Mas é em 1969 que a crise estudantil é associada aos movimentos sociais e políticos que põem em causa o regime. Questiona-se a estrutura elitista da Universidade, a guerra colonial e o subdesenvolvimento económico do país, levando a luta de classes à universidade, num movimento eminentemente político e revolucionário.

No entanto, nem tudo teve uma conotação estritamente política, tendo sido inaugurada a estátua de D. Pedro V, em 1960 e organizado o Primeiro Festival de Teatro Universitário de Lisboa, em 1965. Muitos artistas portugueses, porém, sentiram-se compelidos a emigrar para a Inglaterra ou França, na descoberta de um mundo que, simplesmente, não era permitido em Portugal. O programa de bolsas da recém-criada Fundação Calouste Gulbenkian contribuiu para a inovação da arte em Portugal, assim como a galeria do Diário de Notícias em Lisboa, a Divulgação, também em Lisboa e no Porto, dirigida por Fernando Pernes, ou ainda, na cidade do Porto, a Alvarez e a associação de artistas Árvore. Entretanto, David Mourão Ferreira leva a poesia aos lares portugueses com o seu programa televisivo, além de ocupar o cargo de Secretário-Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Reitores da Universidade de Lisboa:

1959-1962: Marcelo José das Neves Alves Caetano (Direito)
1962-1965: Paulo Arsénio Veríssimo da Cunha (Direito)
1965-1969: José Sarmento de Vasconcelos e Castro (Ciências)
1969-1973: Fernando de Carvalho Barreira (Ciências)