Década de 50

A Década na FLUL

decada 50

Os anos 50 constituem um marco na história da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. D. Pedro V já havia reconhecido a importância dos estudos humanísticos no âmbito da cultura portuguesa, pelo que criou, em 1858, o Curso Superior de Letras, pondo fim a uma lacuna provinda da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra. Assim se iniciaram os estudos filológicos, filosóficos e históricos, sedimento das humanidades da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fundada em 1911.

Com a implantação da República, há um novo projecto de formação para a cidadania que passa pela criação da Universidade de Lisboa e pela sua Faculdade de Letras. A designação, objecto de polémica, honrava o ancestral Curso Superior de Letras, mas afastava a potencial tónica nas Ciências Sociais. Ao legado tradicional juntavam-se, porém, a Psicologia e a Pedagogia como áreas a explorar.

Todavia, durante um século, e apesar da multiplicidade dos seus núcleos disciplinares – as Filologias Clássica, Românica e Germânica, a História, e a Geografia –, a Faculdade de Letras funcionou, a título de empréstimo, em edifícios anexos à Academia de Ciências de Lisboa.

Finalmente, em 1958, a FLUL adquiriu instalações próprias, na Alameda da Universidade, ao Campo Grande, como parte integrante da Cidade Universitária onde, juntamente com outras faculdades, ainda funciona actualmente. Tratava-se de um projecto destinado a reflectir a monumentalidade e noção de ordem que o regime pretendia apresentar aos cidadãos. O arquitecto Porfírio Pardal Monteiro conseguiu defender a pureza das linhas no conjunto dos três edifícios então erigidos: a Faculdade de Direito, a Faculdade de Letras e a Reitoria. A decoração ficaria a cargo de Almada Negreiros cujas gravuras sobre figuras da literatura clássica e moderna, tanto portuguesa internacional, prenunciam o vasto escopo dos estudos humanísticos.

Os anos 50 são, no entanto, uma época de mudança no que respeita ao próprio ensino, como se verificou a Reforma de 1957. Assim, em vez do curso de Ciências Histórico-Filosóficas, consignado na Reforma de 1930, a História e a Filosofia ganham autonomia. Procede-se, também, à inclusão de unidades curriculares de Linguística. Além disso, promoveu o aprofundamento da História da Cultura Portuguesa, bem como da História da Filosofia em Portugal. O prolongamento do período de formação, de quatro para cinco anos permitiu um maior nível de aprofundamento das matérias em apreço. O grau de licenciado passa a ser obtido, não apenas pela aprovação em exames finais, mas com a elaboração e a defesa de teses.

Já nessa década a Faculdade de Letras de Lisboa era a Escola Superior com maior número de alunos: 2000 aquando da inauguração das novas e modernas instalações, em contraste com os 700 registados no início da década. Nos anos subsequentes verificou-se, aliás, um aumento assinalável, o que suscitou novos desafios, não só em termos do espaço físico, como dos processos de ensino e aprendizagem a aplicar de forma a garantir a melhor formação aos seus estudantes.

Nada seria possível sem o legado de nomes ilustres que fomentaram escolas de pensamento originais. Lentes como José Leite de Vasconcelos, José Maria Rodrigues, Epifânio Dias ou Adolfo Coelho no âmbito das Filologias, Consiglieri Pedroso, David Lopes e Queiroz Veloso nas áreas da História, Teófilo Braga na História da Literatura e da Cultura Portuguesas, ou Silva Teles na Geografia, entre muitos mais, souberam transmitir às gerações seguintes o entusiasmo e o empenho pela investigação séria e rigorosa, único caminho para a renovação intelectual inerentes aos estudos superiores.

A tónica na indispensável renovação intelectual levaria à criação de centros de estudo, como o de Psicologia e História da Filosofia, por Moreira de Sá, em 1950, da instalação do Centro de Estudos Históricos e Arqueológicos, em 1952, e, mais tarde, em 1958, designado apenas por Centro de Estudos Históricos. Já em 1959, o novo edifício da Faculdade recebeu o IX Congresso Internacional de Linguística Românica, cujo secretário foi Lindley Cintra.

Nesta década testemunhou-se, também, o esforço de dar a conhecer a cultura lusa. Com esse intuito, desenvolveram-se, os cursos de Língua e Cultura Portuguesa, 
lançados em 1934, destinados a estrangeiros interessados em estudar não só a língua portuguesa, como a sua História e Literatura.

A dinâmica intelectual presente na Faculdade, pelo espírito criativo e crítico que inculcava nos seus alunos, induzia à questionação das matérias em estudos e, simultaneamente, ao modo de estar no mundo. Os modos de o concretizar iam da formação do Círculo de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, que estreou com a peça O Caia de Fiama Brandão, à contestação do ambiente político vigente. Tal postura não se compaginava com o controlo ideológico visado pelo governo do Estado Novo que procura manter o controlo através de medidas redutoras da autonomia universitária. Não admira que as reacções estudantis se tornassem alvo de acções repressivas.

A Associação de Estudantes da Faculdade Letras, a primeira a surgir no seio da Universidade, viria a ser suspensa em 1950/51. Igualmente com o intuito de suster os movimentos rotulados de subversivos, o Decreto-Lei nº40 900, aprovado pelo Governo no ano de 1956, determinava que as Direcções das Associações fossem nomeadas mediante autorização ministerial, tendo sempre de ser controladas por um delegado do Director de Faculdade, encarregado também de vigiar todas as actividades realizadas por estas. Procurava-se, assim, cercear a liberdade de pensamento dos estudantes de humanidades, tentativa que o futuro viria a revelar gorada.

Reitores da Universidade de Lisboa

1946-1956: José Gabriel Pinto Coelho (Direito)
1956-1959: Victor Hugo Duarte de Lemos (Ciências)
1959-1962: Marcelo José das Neves Alves Caetano (Direito)