Luís Lindley Cintra

luis lindley cintraFilólogo e Linguista

Nascido a 5 de Março de 1925, Luís Filipe Lindley Cintra licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1946, apresentando uma tese de licenciatura dedicada à versificação de António Nobre. Segue-se o doutoramento, na mesma Faculdade, concluído em 1952 com uma tese dedicada ao documento que se julgava ser a versão portuguesa da Crónica Geral de Espanha que, como demonstrou, se tratava de uma crónica originalmente portuguesa, atribuída ao Conde D. Pedro de Barcelos. Elaborou ainda uma terceira tese, intitulada A Linguagem nos Foros de Castelo Rodrigo (1959), dedicada a um grupo de textos de direito local no séc. XIII.

Foi também na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que iniciou e estabeleceu a sua carreira de docente, iniciando as suas actividades como professor assistente de 1950 a 1960, passando a professor extraordinário nos dois anos seguintes e tornando-se professor catedrático em 1962, cargo que desempenhou até ao seu falecimento. Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi o criador do Departamento de Linguística Geral e Românica e o responsável pela reforma do Centro de Estudos Filológicos, a partir de 1975 designado Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Levou ainda a cabo várias investigações, distinguindo-se principalmente nas áreas da Literatura Medieval, da Linguística Românica, da Dialectologia e da Geografia actual da língua portuguesa.

O seu método de trabalho assentava mais numa análise prática dos dados do que propriamente numa análise teórica, que manejava com absoluto domínio da técnica, seguindo o seu grande modelo, Ramón Menéndez Pidal, com quem trabalhara para o doutoramento e que o integrou nas equipas de linguistas que recolheram os materiais para o Atlas Linguístico da Península Ibérica. Foi assim que a sua obra, construída a partir da natureza e das necessidades dos problemas e passando ao largo das metodologias de moda, desprezando-as mesmo um pouco, adquiriu uma solidez e uma perenidade granítica que se casam bem com documentos medievais e com dialectos de montanha.

De entre a sua bibliografia, vocacionada sobretudo para o estudo da Língua, destacam-se obras como Origens da língua portuguesa, dedicada ao tema da Reconquista, aos dialectos galegos e portugueses e à produção documental da época, e Espaço da língua portuguesa, obra em que define a Língua Portuguesa em parâmetros unificadores e lhe atribui historicamente toda a faixa ocidental da Península Ibérica (incluindo, portanto, o galego), as ilhas atlânticas, o Brasil e os países africanos e asiáticos onde se fala o português e os crioulos de base portuguesa.

No que toca a cargos desempenhados, para além de docente e investigador na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Luís Lindley Cintra foi também Visiting Professor na Catholic University of America, em Washington (1960). Foi ainda director das revistas Boletim de Filologia e Revista Lusitana (nova série). Pertenceu a diversas sociedades científicas, nomeadamente à Academia Espanhola de História, à Academia de Buenas Letras de Barcelona, à Academia Portuguesa de História e à Academia das Ciências de Lisboa, organizando e participando ainda em eventos de grande distinção, entre os quais o III Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros (1957), o IX Congresso Internacional de Filologia e Linguística Românicas (1959). Foi também Vice-Presidente do IV Congresso Internacional de Estudos Arábicos e Islâmicos, realizado em Coimbra e Lisboa (1968), e o Congresso sobre a Situação Actual da Língua Portuguesa no Mundo, em 1983, ano em que foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade . Em 1988 tornou a ser agraciado com o grau de Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública.

Cintra não foi um homem paradoxal, nem muito apreciador de ironias ou surpresas conceptuais. É por isso que têm sabor, e fazem falta ao seu retrato, algumas das suas afectividades mais arraigadas: não gostava de Camões e, se pudesse ser língua, preferia ser o castelhano.

Luís Lindley Cintra faleceu no dia 18 de Agosto de 1991, deixando como legado um vasto conjunto de estudos sobre a Língua Portuguesa.